No espelho

Reblogged from Marc Jacobs com Godard:

Quando eu era criança (ou quando eu tinha uns 9, 10 anos até talvez os 15) meus livros preferidos eram tudo menos parecidos comigo. Eu amava  Ilha do Tesouro, Nárnia, histórias de detetives e Julio Verne. Quando meninas entravam na história elas eram mandadas para colégios internos em Londres ou viajavam por qualquer tipo de mundo fantástico. Eu não queria me ver naqueles livros, eu não queria nada que fosse parecido com a minha vida, ela era chata suficiente e eu era estranha suficiente sozinha.

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De repente a gente percebe que passou a buscar quem a gente é onde antes a gente tentava escapar.

Querida Anita

“E no entanto,
no momento,
tudo isso passa
na aza do vento
como um simples novêlo de fumaça
e é só depois de velho,
numa tarde esquecida,
que a gente se surpreende e resmunga
Foi tudo o que vivi de tôda a minha [vida]
e começa a chorar.

À minha bondosa noiva
Como eterna recordação do dia 1º de novembro de 1938.

Do teu noivo
Nelson
23-11-938″

Dear Patrick

Você não sabe quem eu sou (eu também não sabia quem você era há alguns dias e agora comprei seu livro, olha como as coisas são), mas eu queria te agradecer.
Eu achava que a gente tinha que escrever pros outros. Escrever coisas importantes, que durassem, palavras bem pensadas e grandes histórias. As coisas pessoais, essas são pra gente, pra ficarem guardadas em cadernos e rascunhos de textos que nunca vão ser publicados.
E ai você me diz que as únicas coisas que escreveu que fizeram sucesso são as que escreveu pra si mesmo, não pra outras pessoas, e que pra escrever é preciso achar esse ponto em que simplesmente não importa o que os outros pensam, só o que está dentro, só o que a gente sente e isso é tão, tão difícil.
Eu sempre achei que escrever fosse um trabalho solitário, uma terapia dolorosa que pertence a mim e a ninguém mais. E por isso mesmo nunca achei possível viver disso, ter um livro, ter um público, aliás. Porque não são mais os anos 40, e é como a Ilana Fox estava falando ontem, agora o autor tem que ser artista, pessoa pública, mas e se ele não for isso? E se ele não souber conquistar os leitores a não ser com seus textos, se ele não quiser aplausos e performances, e se ele for recluso, não basta mais mandar seus manuscritos para um editor. Então eu sempre escrevi assim, e nunca gostei do que tentava escrever de outro jeito, e abandonei um pouco os sonhos porque não nasci pra fatos, relatos e objetividade. Pra mim só importa o que é escrito por dentro, aquelas palavras que gritam tão alto e me deixam louca e eu tenho que botar pra fora. Mesmo assim eu tentei, tentei ser útil e relatar viagens e ver palestras sobre economia e projetos, e algumas coisas me matavam de tédio e outras eram completamente interessantes pra mim, não pra escrever notícias, mas ainda assim eu tentei. “I’m gonna dream little, tiny dreams.” Mas sabe o quê? A biblioteca de Birmingham não grita pra mim, e eu não aguentei mais e saí correndo e obrigada. Você grita, suas palavras gritam, e obrigada por me fazer entender isso.
Eu não conseguia entender por que as pessoas gostavam dos meus textos mais íntimos e dolorosos, e ninguém ligava pra aqueles que eu escrevia com algum sentido de utilidade. É que se não é interessante pra mim, por que vai ser pra outras pessoas? E ouvir essas palavras vindas de você me fez perceber que talvez eu não tenha nascido pra ser prática e clara, mas que talvez pra alguém seja útil, ou bom, ou reconfortante, ou o que seja ler essas coisas tão difíceis de expressar que eu luto pra por em palavras achando que ninguém vai ler.
Obrigada por retirar de mim o peso da utilidade, porque pra escrever só posso suportar o peso de mim mesma e buscar a leveza pra continuar.

A história necessária

A verdade é que eu tinha enjoado um pouco de museus — como quando a gente passa a comer demais nossa comida preferida, e de repente não aguenta mais.

Mas é impossível resistir aos de Londres, então arrisquei a dica dos amigos e fui no Imperial War Museum pra ver se era mesmo tudo isso.

Começa pela arquitetura. Você está andando tranquilamente na rua, de repente vê uns jardins, de repente uns, espera, canhões? E, aos poucos, o prédio vai aparecendo detrás das árvores e é lindo.

É lindo, e é enorme. A Marina, minha amiga que está me hospedando aqui, tinha recomendado a exposição sobre o Holocausto. Decidi ir lá primeiro e, depois, ver outras coisas do acervo permanente, como o andar sobre as Guerras Mundiais. Que ingenuidade.

The Holocaust Exhibition  segue aquele caminho mais ou menos conhecido. Explica a situação pós Primeira Guerra Mundial, o clima de insatisfação econômica, social e política na Alemanha em crise, o surgimento e fortalecimento das ideias nazistas, etc. A ascensão de Hitler ao poder, como tudo foi muito rápido, como os judeus (e outras minorias) foram perdendo direitos. Tudo numa linha cronológica e bem explicado.

O que me impressionou foi como, apesar de eu já ter visitado outras exposições a respeito do assunto (por exemplo, a do Centro de Documentação Topografia do Terror, em Berlim), já sabendo essa parte história mais ou menos batida, fiquei três horas vendo cada foto e vídeo ali. O ponto chave para o sucesso da exposição é o cuidado da curadoria em deixar claro por que aquele trabalho é necessário. Por que o Holocausto é uma coisa que merece tanta atenção. Um elemento que eu não lembrava de ter visto em tanta evidência antes, o de que o ódio aos judeus não era exclusivo dos nazistas, e de que já vinha há muito, muito tempo. Os guetos, a exclusão social, a acusação por todo e qualquer mal da humanidade. Como o discurso nazista foi tão bem aceito – e incomodou tão pouco aos outros países até eles começarem a se ver ameaçados – porque era um discurso socialmente aceitável há séculos.

Ao mesmo tempo, os argumentos da exposição são balanceados, e senti um cuidado especial nas horas de tratar da questão de Israel.

Foto da reconstrução de Auschwitz tirada clandestinamente com o iPod.

Efetivamente aprendi coisas ali. Personagens novos, dados interessantes, vídeos bem pensados e com um formato e tempo bons. O clima da exposição também vai mudando de acordo com as fases – o ambiente fica particularmente sombrio quando chega nos campos de extermínio, e ganha mais luz quando vamos chegando ao final da guerra e quando se fala (finalmente) dos sobreviventes.

No final, depois de três horas completamente absorta ali, não tive ânimo para visitar o resto do museu, e terei que voltar outro dia. Mas tenho certeza absoluta de que vai valer tão a pena quanto hoje.

PS: Outra exposição que está rolando por lá, e parece bem incrível, é a do fotógrafo de guerra Don McCullin — talvez mais conhecido por alguns ai por ser o responsável pelas belas fotografias do livro Um Dia na Vida dos Beatles, lançado no Brasil pela Cosac Naify em 2011.

When we do find each other again

“I’ll be looking for you, Will, every moment, every single moment. And when we do find each other again, we’ll cling together so tight that nothing and no one’ll ever tear us apart. Every atom of me and every atom of you… We’ll live in birds and flowers and dragonflies and pine trees and in clouds and in those little specks of light you see floating in sunbeams… And when they use our atoms to make new lives, they wont’ just be able to take one, they’ll have to take two, one of you and one of me, we’ll be joined so tight…” (The Amber Spyglass)

Oxford é um sonho que eu tinha esquecido ter.

Eu devia ter uns 10 anos quando li A Bússola Dourada pela primeira vez. Não lembro exatamente quando foi – minha primeira lembrança a respeito da trilogia de Pullman é devorar, em uma viagem a Florianópolis em 2002, o último livro da série, A Luneta Âmbar. Não existe na minha cabeça um antes, existem os anos muito antes em que eu não conhecia a série e existe a Lívia completamente apaixonada por Fronteiras do Universo. 

Desde aquele verão na praia, há dez anos, já reli incontáveis vezes os livros, tentando eleger um favorito, buscando referências, tentando superar o fracasso do filme, etc. Comprei Lyra’s Oxford nem sei bem como (acho que pedi ao meu pai que trouxesse dos Estados Unidos), torci por anos para que The Book of Dust fosse publicado.

Mas a Oxford de Lyra e Will sempre foi uma coisa muito distante pra mim. Uma coisa que sim, teoricamente existia na vida real, mas tão longe da minha realidade que bem poderia ser um universo paralelo ao meu.

Quando planejei vir a Londres, pensei em visitar Oxford – a Oxford da Oxford University, a cidade conhecida que muita gente visita. Não liguei os pontos até estar no ônibus, já a caminho. Nunca me arrependi tanto de não ter planejado ficar mais tempo em uma cidade.

A verdade, no entanto, é que, para mim, dois ou três dias tampouco seriam suficientes. Porque eu não quero pontos turísticos, museus – a não ser que seja o dos crânios perfurados – ou fotos de prédios. Eu quero viver ali, andar pelas ruas e a cada dia reconhecer uma rua , uma loja, quero subir nos telhados da Jordan, ver a casa do Will, chorar no solstício de verão, ler um livro no Jardim Botânico e imaginar meu Pan correndo ali pelas árvores. O que eu quero não sei descrever; é a sensação de cada uma dessas coisas, o viver e sentir Oxford e, quem sabe, um dia vislumbrar o que inspirou Pullman a escrever a história que marcou minha vida.

Mas, por enquanto, eu me contento em sentar no banco deles. Porque, no fundo, esse banco sempre foi meu também.

“It’s this way,” said Lyra, tugging at Will’s hand.

She led him past a pool with a fountain under a wide-spreading tree, and then struck off to the left between beds of plants toward a huge many-trunked pine. There was a massive stone wall with a doorway in it, and in the farther part of the garden, the trees were younger and the planting less formal. Lyra led him almost to the end of the garden, over a little bridge, to a wooden seat under a spreading, low-branched tree.

“Yes!” she said. “I hoped so much, and here it is, just the same…Will, I used to come here in my Oxford and sit on this exact same bench whenever I wanted to be alone, just me and Pan. What I thought was that if you – maybe just once a year – if we could come here at the same time, just for an hour or something, then we could pretend we were close again – because we would be close, if you sat here and I sat just here in my world…”

“Yes,” he said, “as long as I live, I’ll come back. Wherever I am in the world, I’ll come back here–”

“On Midsummer Day,” she said. “At midday. As long as I live. As long as I live…”

He found himself unable to see, but he let the hot tears flow and just held her close.

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  • RT @lolaescreva: Li hj num blog mascu: "Para quem ainda não sabe, a Lola é uma criminosa com altíssimo grau de periculosidade". Vcs fora ... 9 hours ago
  • Vou ao cinema ver Hunger Games. Me julguem, beijos. 9 hours ago

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