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Resoluções de Ano-Novo

Aquele masoquismo tá dando as caras novamente. Por que eu não consigo ser mais mulher e querer sem vergonha, sem receios e, principalmente, pelos motivos certos? Por que eu deixo tudo pro último segundo? Juro que vou retomar minhas caminhadas e começar a comer direito.

Justificativas

E na sua cabeça se misturavam as palavras alheias e as suas e as suas. É o presente, presente, não pense.

Porque já diziam por aí que o amor, meu bem, não tem nada a ver com o assunto.

Masoquismo

O masoquismo pode ser exercido de várias maneiras.

Pode ser deixar tudo para a última hora, sabendo que não vai dar tempo de fazer tudo de modo saudável e que você provavelmente vai perder sua noite completando suas tarefas. Pode ser não cuidar direito de um machucado e ele doer uma semana a mais do que o normal. Pode ser brincar com ideias perigosas. Pode ser remexer no que deveria ser esquecido. Pode ser ir atrás do que não se deve e se culpar pelo inevitável.

De alguma forma, eu quase me sinto orgulhosa por nenhuma delas ser sexual. Quase.

laetitia

Gabriel Pedrosa, estudante de Arquitetura e Urbanismo da FAU
texto integrante da 17ª Mostra Nascente

(…)

eu me rendo, querida,

entre a necessidade

suas imagens

latendo sob outras paisagens

e o tédio e o tédio e coisas que acaso

brilham

nos desvãos a espera de mais dias

mesmos

na contraluz olhares trocados

a esmo e explode como em fruta açúcares e álacres prenúncios de morte em meio ao trânsito

o cheiro do sexo dessa que sem mais tomou pra si o centro de todos os meus

volteios

(…)

Reflexões acerca de um pé torcido

Desci as noves quadras, cheguei em casa e chorei. Como é injusto que a pessoa que passa pela nossa cabeça em primeiro lugar nessas horas, e pra qual temos vontade de ligar imediatamente, ligue pra outra quando torce o pé.

,

Cansei

.

A mudança dentro de mim

“O importante é haver uma busca pela capacitação pessoal. A mulher tem
que saber que ela também é capaz – os direitos são conseqüência disso.”
Ana Maria Fernandes Yamamoto

Quando menina pequena, Ana Maria adorava andar a cavalo. Na fazenda em que morava com os pais e irmãos, propriedade dos avós maternos, essa era uma de suas atividades preferidas. Só havia um problema: a saia. Não era lá muito confortável passar as pernas por cima do animal quando se estava usando aquele tipo de vestimenta, e a mãe decidiu que seria melhor deixá-la usar uma calça emprestada dos meninos. Por cima desta, a saia novamente. Meninas não podiam usar calça comprida.

Anos mais tarde, morando agora com a família em Poços de Caldas, a garota começou a questionar o porquê de tantas proibições. Não eram só as calças – era trabalhar, morar fora, estudar, andar sozinha, ter escolhas. O Colégio Dominicano no qual estudava moldou nela ideais de igualdade que não a permitiam aceitar a sociedade tal qual lhe era apresentada. Ser mulher definia-se por nãos, e, nos movimentos estudantis político-sociais, a jovem passou a procurar uma maneira de poder dizer sim.

Seus ideais igualitários e seus desejos de poder ter – ou melhor, agir sobre a sua – vontade própria fizeram com que ela fosse vista com maus olhos pela própria família. Tios, irmãos, os próprios pais, achavam suas idéias ousadas demais para uma boa moça. Os conflitos não eram extremos, mas Ana sabia que a única maneira de alcançar seus próprios sonhos era saindo de casa. Ali, ela não tinha voz. Sufocada pelo tradicionalismo de sua família patriarcal, foi embora.

Não foi fácil. Campinas era uma cidade maior, e ela conseguiu um emprego, mas o salário era pequeno e o preço de um teto, alto. Comida, regalia. Lutou, fez amizades, foi pingando seu próprio suor pelo caminho. Conseguiu, afinal, um emprego que a sustentava. Começou a faculdade – serviços sociais.

E então o pai faliu. O Brasil inteiro falia, mas ela se mantinha sozinha. E, de repente, era ela quem mandava dinheiro pra casa, alimentava os irmãos pequenos e arranjava emprego para os crescidos. Era ela quem tornava possível o pão de cada dia – e não porque estivesse com a barriga encostada no fogão, como muitos acreditavam que deveria ser seu destino. Ela simplesmente se tornara dona de seu próprio destino.

Ela não bebia descontroladamente, não era “devassa” nem queimava sutiãs. Mas, agora, Ana podia dar ordens. E as calças, essas nunca mais foram cobertas.

Toda paz que eu preciso

Meu horóscopo esses dias tem me dito pra ficar com a família, meio reclusa, refletir sobre meus sentimentos, trabalhar arduamente, desenvolver meu lado artístico. Estou seguindo à risca as instruções – vim pra terrinha natal ficar na casa da mãe, estou criando painés e capas de caderno com colagens, fazendo colares, planejando a decoração do meu quarto e… lendo.

Gente, como eu amo ter tempo pra ler. Aliás, paciência pra ler. Engraçado – quando eu era menor, eu era meio antissocial até, porque tava sempre com um livro pra lá e pra cá e não tinha nada que eu gostasse mais de fazer do que isso. Não que eu não goste mais de ler – eu amo. Mas às vezes dá uma preguiça de parar tudo e ficar simplesmente absorta na leitura… O problema é que eu morro pro mundo quando tô lendo, e aí não sei. Andou faltando vontade, desde o ano passado, pra morrer assim com freqüência. Provavelmente porque ano passado foi o fatídico anodovestibular, então eu queria aproveitar meu tempo livre pra viver em sociedade, não morrer (e renascer) na solidão dos meus livros. E agora com toda essa correria e mudança e faculdade, me peguei no furacão de novos amigos, saídas, festas.

É por isso que, apesar de saber que isso provavelmente vai foder um pouco com as minhas férias de dezembro, não tô reclamando muito desse adiamento do início das aulas por causa da gripe suína. Me dá mais tempo pra curtir leituras boas, em casa ou no parque. Bom resto de férias pra quem ainda as têm. :)

Recomendações:

“Adultérios”, Woody Allen – 3 histórias no estilo de peça de teatro: uma mini introdução e o resto é só diálogo, todas em Nova York e com típicos personagens Woody Allenianos. Engraçadas e muito, muito reais.

“A mulher do viajante no tempo”, Audrey Niffenegger - Clare Abshire conhece Henry quando tem 6 anos e ele, 36. Quando Henry DeTamble conhece Clare, ele tem 28 e ela, 20. Henry é um viajante no tempo, e suas idas e vindas fazem com que ele conheça Clare em diferentes épocas. Elas também fazem com que ele tenha que abandoná-la com muito mais freqüência do que gostaria – sem saber se vai voltar ou não. Um romance sobre espera, descobrimento, ausência, relacionamentos, amizade… pessoas. Um dos melhores livros que já li, e reafirmo isso toda vez que releio. Já deve ser só a 20392839 vez. :>

Lembrete

JOEL: I just needed to see you.
CLEMENTINE: Yeah?
JOEL: I’d like to take you out or something.
CLEMENTINE: You’re married.
JOEL: Not yet. Not married. No, I’m not married.
CLEMENTINE: I’m telling you right off the bat, I’m high maintenance. I’m not gonna tiptoe around your marriage or whatever it is you’ve got going there. If you wanna be with me, you’re with me.

Silêncios

Ela estava com o coração apertado. Fazia dias, já. Começara no primeiro da viagem, com alguns silêncios, mas ela sabia que eles não tinham significado real e eram passageiros – os silêncios deles sempre se resolviam. Mas aí houvera aquela brincadeira (e foi um delito, Ludvik, foi um delito), e ela sabia, sabia que as coisas dessa vez não simplesmente se resolveriam. Mas ela não quis ver e negou e abafou com mais brincadeiras (a distância) e continuou. E o ato falho. E o dia negro. E ela não era ela. E não o reconhecia. E acabaram conversando (com distância) e ela se abafou de novo.

Mas ela se conhece (ia). Era uma linha, uma linha esticada prestes a se romper e ela queria machucá-lo de algum modo e usava as palavras e depois os silêncios e aqueles silêncios a matavam por dentro e ela doía. Mais. Mais.

“Eu preciso falar com você.”

Bateu à porta algum tempo depois. Sentou-se à cama.

“Você também tá sentindo que alguma coisa tá errada com a gente?”

E aqueles silêncios.

“Você sabe que sim.”

“Eu só não sei o que é, e isso tá me matando.”

E os silêncios foram jorrando. Mas ela sentia as paredes subirem e a sufocarem porque as palavras dele pareciam adagas e ela não os reconhecia mais e não sabia em que caminho haviam se perdido tanto assim. Ela sabe que grande parte daquilo são suas inseguranças à flor da pele mas não é motivo, não é. Porque ela deveria conseguir encará-lo, insegura ou não. Ela sempre fora insegura. Ele sempre fora seu porto. Mas de repente não era mais certo chorar na frente dele (a ponte quebrada). E ela quer machucá-lo tudo outra vez porque ela dói tanto tanto tanto que seria melhor pegar aquelas adagas e enfiá-las de vez e morrer sair perder-se porque ele não deveria machucá-la assim. Não ele. E ela quer bater-lhe porque está frustrada com tudo e não pode mais chorar porque ele não a abraça mais. E os erros, desvios, enganos, ressentimentos que eles nem sabiam existir. Como se o tempo todo estivessem vendo através de uma fenda e de repente ela se ampliasse e tudo era diferente (meias verdades) e havia feridas escondidas. Por eles. Deles. Ela está sem chão e toda errada. Tudo, tudo.

E aí ele se move e a envolve e ela chora e chora e sente seu corpo desfazer-se ali.

E ela sabe que eles estão no caminho certo outra vez.

(Eles só precisam de tempo.)

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