Qual a gente escolhe: o dever de apoiar o amigo ou o direito de ficar magoada? É como se de repente tudo se resumisse à cobrança, e quando a gente cobra é porque já não tem.
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Eu gosto de declarações de amor. Gosto mesmo. Gosto de ler rabiscado no assento de um ônibus, pichado em um banco da prainha, desenhado em um muro, todos aqueles eu te amo perdidos que ficaram marcados, ainda que um dia aquele amor tenha acabado. Mas o que eu gosto de verdade é de ler declarações em sites como o Orkut, Facebook, até o Twitter – 140 caracteres dedicados a alguém especial. Ver aquele depoimento que a pessoa escreveu há anos e que se renova, ou que se perdeu e deixa um gosto meio amargo de saudades misturado com nostalgia. Um scrap bobo, uma declaração no álbum de fotos. Eu rio com os exageros, com a breguice, mas procuro por tudo isso pra passar meu tempo, meio assim sem perceber – e fico decepcionada quando fuço o perfil de duas pessoas que eu sei estarem juntas, namorando, e não encontro nada. Gosto das comunidades trocadas, daquele “lembrei de você” que sempre está ali escondido, até mesmo os poemas e as fotos ridículas me divertem e completam de algum jeito meu dia. Como se tudo isso comprovasse que o amor de fato existe, ainda que tanta coisa tente provar o contrário, é só a gente ouvir com atenção. Eu amo os gritos apaixonados que preenchem meu cotidiano alheio.
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O que é que a gente faz pra não pensar? Diz, diz, que eu estou tentando e parece impossível, mas novas táticas surgem a cada instante sem que o consciente sequer perceba. É a luz acesa porque o escuro permite, é o barulho do teclado porque o silêncio assusta, é a atenção naquilo que não tem graça porque não fazer nada abre espaço pro que se quer manter longe, é não dormir porque dão medo os pensamentos daquele limbo que se instala com a cabeça no travesseiro e os olhos fechados. Dizem que a graça é mesmo esse não saber, mas eu não sei, nunca estive aqui, eu odeio odeio odeio essa sensação de não ter controle sobre nada, ela me faz buscar controle nos lugares errados. E cada certeza que eu tenho vai sendo derrubada, e uma nova vem no lugar pra cair em seguida, você não vai me deixar com nenhuma? Provavelmente não é saudável, mas eu preciso delas. Eu preciso porque sem elas é assim, essa montanha-russa louca que não acaba e uma hora eu estou feliz, na outra eu tenho vontade de chorar, quero aparecer sem avisar, quero ficar trancada em casa, quero uma resposta, quero o celular desligado, e vem aquela tristeza sem explicação e eu preciso falar, essa sou eu, verbalizar me ajuda, e é por isso que a falta de certeza me assusta tanto em alguns momentos, e é tudo um círculo e às vezes a falta de certeza me faz querer sair fora mas será que vale a pena? Eu já saí fora tantas vezes. É engraçado quando de repente no meio de tudo isso a gente se dá conta de algum pequeno detalhe esquecido, eu saí fora desde o começo, sempre. Porque ninguém mais podia me deixar quebrada daquele jeito, eu saí fora. Não dá mais, o problema sou eu, silêncio, não adianta fazer nada, e procurar nos lugares errados é estar fora desde o início, não é? I guess I really am just a fucked up girl.
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Nunca me vi escrevendo uma carta. Sério, você me conhece – não sou esse tipo de pessoa. Mas você é a segunda pessoa a me dar essa vontade, então acho que isso diz alguma coisa. Por isso, escrevo.
Como foi o ano novo? Se embebedou lá na praia? Comemorou por mim? O meu foi bom, com a família – Bárbara trouxe o namorado (ou rolo, não sei bem dizer, na real pra mim ele é só um velho amigo da família) novo, Clara passou com a gente pela primeira vez em anos e Nívea foi, bom, Nívea.
Mas por que eu tô falando sobre isso? Lá vou eu me enrolando, se não me controlo daqui a pouco começo a escrever sobre coisas sem sentido nenhum e você vai me achar uma idiota. Por que isso sempre acontece quando estou falando com você? Eu normalmente não tenho problema algum em falar com as pessoas, falar o que quero, e é daí que vem essa não necessidade de cartas: pra que escrever se falar é tão mais fácil? (E lá vou eu me distraindo…)
Eu senti sua falta. Ta aí, falei, senti. Tentei falar com você mas as linhas estavam ocupadas, nem mensagem no celular tava indo. Então digo agora, senti, quis falar com você, e meu coração ficou apertado de um jeito todo esquisito desde que deu meia noite até a hora de dormir. Quis você por tantos motivos, e não penso em nenhum pra escrever, o que significa que também te quis por motivo nenhum, e isso me preocupa mais ainda. Como eu posso te querer assim, do nada? Só por causa de um comemoração idiota? Só por que a gente beija alguém pra começar o ano?
Não te dei permissão pra me fazer sentir assim, Bernardo, e por Deus, as aulas terminaram, eu achei que nas férias teria paz, mas a gente continuou se falando (maldita internet) e saindo e por que você tinha que me beijar justo antes de viajar com seus amigos? Fiquei feito louca todas as vezes que saímos esperando você fazer alguma coisa e nada. “Alba, esquece, não vai acontecer,” eu repetia. Não te dei permissão. Aliás, não te dei permissão pra nada, eu te avisei desde o começo. Vou falar muito sério com você agora: eu falei, não falei? Que era pra você tomar cuidado, por que eu não era (sou) muito normal? Ta aí, não sou, sou quebrada e zoada e deveria não ficar encanada com nada disso e eu nunca fiquei antes, sempre era tudo bem normal, se você quiser (puder) chamar de normais os meus padrões, mas é isso.
E ainda te quero.
Um beijo – agora meu,
Alba
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As costas doem, as pernas doem, os braços doem, respirar dói, os olhos pesam, o nariz não funciona, a mente nublada, a vontade de deitar enrolada num cobertor e dormir, dormir, dormir.
Tem gente que chama isso de gripe, mas tenho certeza de que é algo muito mais grave. Pra todos os efeitos, morri. O telefone desligado, a luz apagada, nada de barulho, por favor. Quando ressuscitar, aviso.
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Minha irmã e meu cunhado voltam de viagem. Eu fico feliz, estava com saudades, mas há algo de errado porque ainda é dezembro e eles só deveriam voltar em março. Estou usando uma roupa dela porque não sabia que ela ia chegar hoje – quem é que foi buscá-los no aeroporto? – e ela não liga, eu amo minha irmã, mesmo, mas o que é que eles estão fazendo aqui tão cedo? Estou saindo com as meninas, as duas já estão dentro do elevador e eu volto, minha mãe e meu cunhado deitados na cama vendo televisão, por que vocês voltaram? Minha mãe fica brava, a Ana Luiza que tem que decidir te contar, o Fê nem quis me contar sem a permissão dela. Ela chega aérea, meio avoada, sorrindo, o que aconteceu, o que houve? Faço sinal pras meninas que vou demorar, elas descem no elevador. Ela não deixa de sorrir e conta, conta tudo como se não fosse tão grave a não ser quando os olhos tremem e o sorriso ameaça cair mas ela segura. Ele tava em Milão me visitando e passou semanas lá e a gente não saía da cama e cheirava toda semana – cheiravam? – é, coca, a gente cheirava – e o coração batendo mais rápido, o grito se formando – e a gente tava numa festa, num lugar escuro, não via nada, cheirado, e começamos a transar e pegaram a gente e levaram - você foi presa? – não, eu tava com uma foto de um trabalhinho do meu irmão que tava no primário, minha mãe lá era professora de crianças, e quem é assistente de professora de primário podia ir embora, só por isso eles nos liberaram senão vocês só iam ter notícias nossas daqui há um tempo – e o coração batendo, e o grito – por que, por que, por que, não faz isso, você tá bem, sua idiota, o laço preto de bolinhas brancas colado à bochecha molhada de lágrimas, eu te odeio, não faz isso comigo, sua burra, cadê aquele imbecil, retardado, como ele fez isso com você, cadê, eu vou matar ele – uma tesoura no chão -, não vou matar, não, vou só bater, mas eu odeio ele, não, não.
O coração batendo desgovernado no peito, o despertador toca, ela acorda e volta a dormir.
Um parque de diversões atrás de um shopping, as crianças de escola pública têm um vale para poder brincar, uma criança morre na montanha-russa e a mãe procura os pedaços do corpo na água e os leva pra casa em uma sacola plástica, checo a internet pra saber que horas aquilo aconteceu e um email, descobri que o scrap bêbado de eu te amo na verdade era um vírus, o amor virando epidemia e aquilo me dá um desespero porque todo mundo de repente envia eu te amo e o recebe de volta e aquilo não tem mais significado nenhum, então começamos a jogar um jogo de videogame na tevê e eu tenho que responder perguntas embaraçosas, você está com uma garota, “huum, que salada boa”, o que vem na sua cabeça?, se essa é boa duas meninas podem ser melhor ainda, porque você não come salada e aquilo é uma novidade, e ganho o jogo mas não consigo digitar meu nome, no final fica ririão mas eu sei que sou eu – preciso contar pra Denise que a filha do Renato Aragão se chama Lívian -, preciso ligar pra Selma e marcar uma entrevista com ela e nada, nada de conseguir, ela só chega em casa umas 9:30 da noite mas já tá todo mundo dormindo, não sei quando ela acorda, preciso falar com você, você precisa mesmo ir na aula? Professor, essa é a Lívia de quem eu falei, sim, sou eu, preciso fazer uma matéria sobre choques culturais, é verdade? que interessante, tudo bem, está dispensado, vamos ali pra fora num lugar escondido mas há casais transando à nossa volta e um louco nu na nossa frente que começa a tentar nos agredir e todos lutando contra o louco, ele é forte, muito forte e eu sou contra a violência, mas ele está machucado todos e me tem como refém – papéizinhos amarelos de pistas inimigas são jogados no lugar onde eu estou e caem nos meus olhos – e eu vejo que ele roubou as miçangas da Especiaria – as nossas miçangas não, seu filho da puta! – e as nossas coisas e pego um lápis amarelo, é tudo amarelo, tudo, pego um lápis amarelo e enfio no olho dele e um lápis grafite no outro e o sangue jorra, Pedro, Pedro, Pedro!, vem, mata, Pê, mata antes que ele fuja, quero uma adaga, não dá tempo, usa um lápis, um grande lápis amarelo na garganta.
Já são onze da manhã e ela se levanta.
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Aquele masoquismo tá dando as caras novamente. Por que eu não consigo ser mais mulher e querer sem vergonha, sem receios e, principalmente, pelos motivos certos? Por que eu deixo tudo pro último segundo? Juro que vou retomar minhas caminhadas e começar a comer direito.
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E na sua cabeça se misturavam as palavras alheias e as suas e as suas. É o presente, presente, não pense.
Porque já diziam por aí que o amor, meu bem, não tem nada a ver com o assunto.
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O masoquismo pode ser exercido de várias maneiras.
Pode ser deixar tudo para a última hora, sabendo que não vai dar tempo de fazer tudo de modo saudável e que você provavelmente vai perder sua noite completando suas tarefas. Pode ser não cuidar direito de um machucado e ele doer uma semana a mais do que o normal. Pode ser brincar com ideias perigosas. Pode ser remexer no que deveria ser esquecido. Pode ser ir atrás do que não se deve e se culpar pelo inevitável.
De alguma forma, eu quase me sinto orgulhosa por nenhuma delas ser sexual. Quase.
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Gabriel Pedrosa, estudante de Arquitetura e Urbanismo da FAU
texto integrante da 17ª Mostra Nascente
(…)
eu me rendo, querida,
entre a necessidade
suas imagens
latendo sob outras paisagens
e o tédio e o tédio e coisas que acaso
brilham
nos desvãos a espera de mais dias
mesmos
na contraluz olhares trocados
a esmo e explode como em fruta açúcares e álacres prenúncios de morte em meio ao trânsito
o cheiro do sexo dessa que sem mais tomou pra si o centro de todos os meus
volteios
(…)
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