Coisas banais

“Vou pegar alguma coisa pra comer, tô com fome.”

“À vontade. Fuça aí na geladeira e vê o que tem, acho que sobrou macarrão.”

“Perfeito!”

“Espera, você não vai esquentar?”

“Não, eu amo comida fria.”

“Jura? Dá um pouco aí.”

Quando acabasse, ela olharia para trás e saberia que aquele, exatamente aquele, fora o momento em que se apaixonara.

Tentou lembrar de outros (ela já tivera muitos amores). Nunca era uma coisa só: um beijo, uma transa. Era sempre o antes ou o depois, o estar abraçado, os arrepios, o sentir tanta falta mesmo enquanto se fala. A pungência de um olhar no quarto escuro e dos corpos sem tocar. Os momentos mais íntimos ou os mais banais, que fazem nascer ou morrer o amor, que traçam de uma hora para outra a linha dos sentimentos.

Ela se lembraria de tudo isso e mais. Reescreveria toda sua história através desses começos e fins, e ficaria mais atenta.

Quando o próximo chegou, já estava preparada.

“Quer um Trident?”

“Não, obrigado… Na verdade… Eu não gosto muito de mulher que masca chiclete.”

Olhou para o lado e começou a procurar um novo amor.

Rotina

Ai, que sono que dá às vezes, não é? A gente fica aqui parado fazendo as mesmas coisas de sempre e eu começo a cansar, pensa em um assunto novo ai, por favor, vai. Então, lembra aquela história que eu te contei, adivinha, as pessoas ainda continuam batendo a cabeça num negócio tão passado, tão antigo, e não há nada que eu fale que as faça parar com isso, credo. Eu juro! Já tentei. Mas então, e ai que eu estava andando outro dia na rua e cruzei com a fulana, foi quando eu fiquei sabendo disso que ainda não tinha passado, eu já tinha até esquecido da história mas sabe como são essas coisas, de repente elas aparecem assim de novo. Bom, mas que pena pra ela, é o que eu digo, aliás pra eles, que continuem então se bicando enquanto o mundo segue. Ah, no trabalho as coisas vão iguais, você sabe, tudo no mesmo, não, eles não estão mais juntos! Acabou que o caso foi descoberto e ela teve que sair, ele ainda está lá e acho que de olho na garota nova, é, ouvi umas histórias dia desses. Teve uma também, um amor, já te falei dela! Dois meses e já foi promovida, mas essa não  tem caso não, é competência mesmo. Que foi, eu conheço a moça, oras! Há umas e outras, tem que saber ver. Pois eu você bem sabe quem sou, oras, senão você já não teria me visto com alguém por ai? Sou mais esperta do que me envolver com gente de trabalho, embora não seja muito mais esperta em coisa alguma, convenhamos, mulher que se diz esperta em sentimentos engana ela mesma e só. Não estou generalizando, é caso provado, não há terapia que resolva as questões femininas, embora ajude, estávamos conversando na cozinha outro dia mesmo sobre isso. Ah, cozinhar não cozinham, mas eu fico lá e tento ajudar, no que posso e no que tenho paciência que afinal já passei da idade de perder meu tempo com quem não aprende.  Ih, olha lá, passou a chuva, deixa o dinheiro ai mesmo e vamos embora que eu não aguento mais esse café, a gente pode arrumar um ponto de encontro melhor da próxima vez, né, meu amor? Tchau, tchau, sim, eu sei, nada de beijo, como você é neurótico, por um acaso sou mulher de usar batom que deixa marca? Eu, hein.

 

little stars come out of you

Obrigada por me fazer sorrir quando eu estou cansada.

Novembro

Hoje eu tive vontade de você aqui pra ser triste em conjunto. Às vezes é bom compartilhar tristeza, porque ela ganha um pouco do peso do mundo e, de algum modo, fica mais leve. Mas ela nunca fica leve demais, ou deixa de ser sincera. Aliás, o papel da tristeza é esse mesmo, aproximar a gente do chão, da terra, do centro. Mas hoje as pessoas acham que tudo é doença e dá-lhe remédio, parecem não entender quão saudável é a gente se reaproximar da gente mesmo. Ficar leve demais faz a gente voar longe e deixa se perder – e pra achar o caminho de volta? Esse sim é o problema.

Quebrei um espelho. Não em pedacinhos – quando fui ver se a maquiagem estava borrada, me deparei com trincos que pareciam gravados na minha pele – mas era só na dela, aquela do outro lado. Ela não gosta muito de mim, às vezes se distancia, não a reconheço. Hoje rachou. Como quem diz, “cansei.”

Dizem que são sete anos de azar e eu me perguntei quando veria você de volta. Será que é fácil sair assim? Você rachou nossa imagem também? Andando na chuva, me lembrei de quando você segurava o guarda-chuva e ria enquanto eu corria e me molhava. Não tive coragem. Queria companhia e o silêncio da minha solidão pesou demais. Tem dias em que é mais difícil, que por mais que eu me procure algo falta. Compartilhar tristeza ajuda a gente a se encontrar.

O guarda-chuva me protegeu até em casa. Joguei o espelho fora. Era o medo de me perder no vento como ela se perdeu na vida.

Ano novo, parte II

Nunca me vi escrevendo uma carta. Sério, você me conhece – não sou esse tipo de pessoa. Mas você é a segunda pessoa a me dar essa vontade, então acho que isso diz alguma coisa. Por isso, escrevo.

Como foi o ano novo? Se embebedou lá na praia? Comemorou por mim? O meu foi bom, com a família – Bárbara trouxe o namorado (ou rolo, não sei bem dizer, na real pra mim ele é só um velho amigo da família) novo, Clara passou com a gente pela primeira vez em anos e Nívea foi, bom, Nívea.

Mas por que eu tô falando sobre isso? Lá vou eu me enrolando, se não me controlo daqui a pouco começo a escrever sobre coisas sem sentido nenhum e você vai me achar uma idiota. Por que isso sempre acontece quando estou falando com você? Eu normalmente não tenho problema algum em falar com as pessoas, falar o que quero, e é daí que vem essa não necessidade de cartas: pra que escrever se falar é tão mais fácil? (E lá vou eu me distraindo…)

Eu senti sua falta. Ta aí, falei, senti. Tentei falar com você mas as linhas estavam ocupadas, nem mensagem no celular tava indo. Então digo agora, senti, quis falar com você, e meu coração ficou apertado de um jeito todo esquisito desde que deu meia noite até a hora de dormir. Quis você por tantos motivos, e não penso em nenhum pra escrever, o que significa que também te quis por motivo nenhum, e isso me preocupa mais ainda. Como eu posso te querer assim, do nada? Só por causa de um comemoração idiota? Só por que a gente beija alguém pra começar o ano?

Não te dei permissão pra me fazer sentir assim, Bernardo, e por Deus, as aulas terminaram, eu achei que nas férias teria paz, mas a gente continuou se falando (maldita internet) e saindo e por que você tinha que me beijar justo antes de viajar com seus amigos? Fiquei feito louca todas as vezes que saímos esperando você fazer alguma coisa e nada. “Alba, esquece, não vai acontecer,” eu repetia. Não te dei permissão. Aliás, não te dei permissão pra nada, eu te avisei desde o começo. Vou falar muito sério com você agora: eu falei, não falei? Que era pra você tomar cuidado, por que eu não era (sou) muito normal? Ta aí, não sou, sou quebrada e zoada e deveria não ficar encanada com nada disso e eu nunca fiquei antes, sempre era tudo bem normal, se você quiser (puder) chamar de normais os meus padrões, mas é isso.

E ainda te quero.

Um beijo – agora meu,
Alba

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