Querida Anita

“E no entanto,
no momento,
tudo isso passa
na aza do vento
como um simples novêlo de fumaça
e é só depois de velho,
numa tarde esquecida,
que a gente se surpreende e resmunga
Foi tudo o que vivi de tôda a minha [vida]
e começa a chorar.

À minha bondosa noiva
Como eterna recordação do dia 1º de novembro de 1938.

Do teu noivo
Nelson
23-11-938″

Dear Patrick

Você não sabe quem eu sou (eu também não sabia quem você era há alguns dias e agora comprei seu livro, olha como as coisas são), mas eu queria te agradecer.
Eu achava que a gente tinha que escrever pros outros. Escrever coisas importantes, que durassem, palavras bem pensadas e grandes histórias. As coisas pessoais, essas são pra gente, pra ficarem guardadas em cadernos e rascunhos de textos que nunca vão ser publicados.
E ai você me diz que as únicas coisas que escreveu que fizeram sucesso são as que escreveu pra si mesmo, não pra outras pessoas, e que pra escrever é preciso achar esse ponto em que simplesmente não importa o que os outros pensam, só o que está dentro, só o que a gente sente e isso é tão, tão difícil.
Eu sempre achei que escrever fosse um trabalho solitário, uma terapia dolorosa que pertence a mim e a ninguém mais. E por isso mesmo nunca achei possível viver disso, ter um livro, ter um público, aliás. Porque não são mais os anos 40, e é como a Ilana Fox estava falando ontem, agora o autor tem que ser artista, pessoa pública, mas e se ele não for isso? E se ele não souber conquistar os leitores a não ser com seus textos, se ele não quiser aplausos e performances, e se ele for recluso, não basta mais mandar seus manuscritos para um editor. Então eu sempre escrevi assim, e nunca gostei do que tentava escrever de outro jeito, e abandonei um pouco os sonhos porque não nasci pra fatos, relatos e objetividade. Pra mim só importa o que é escrito por dentro, aquelas palavras que gritam tão alto e me deixam louca e eu tenho que botar pra fora. Mesmo assim eu tentei, tentei ser útil e relatar viagens e ver palestras sobre economia e projetos, e algumas coisas me matavam de tédio e outras eram completamente interessantes pra mim, não pra escrever notícias, mas ainda assim eu tentei. “I’m gonna dream little, tiny dreams.” Mas sabe o quê? A biblioteca de Birmingham não grita pra mim, e eu não aguentei mais e saí correndo e obrigada. Você grita, suas palavras gritam, e obrigada por me fazer entender isso.
Eu não conseguia entender por que as pessoas gostavam dos meus textos mais íntimos e dolorosos, e ninguém ligava pra aqueles que eu escrevia com algum sentido de utilidade. É que se não é interessante pra mim, por que vai ser pra outras pessoas? E ouvir essas palavras vindas de você me fez perceber que talvez eu não tenha nascido pra ser prática e clara, mas que talvez pra alguém seja útil, ou bom, ou reconfortante, ou o que seja ler essas coisas tão difíceis de expressar que eu luto pra por em palavras achando que ninguém vai ler.
Obrigada por retirar de mim o peso da utilidade, porque pra escrever só posso suportar o peso de mim mesma e buscar a leveza pra continuar.

When we do find each other again

“I’ll be looking for you, Will, every moment, every single moment. And when we do find each other again, we’ll cling together so tight that nothing and no one’ll ever tear us apart. Every atom of me and every atom of you… We’ll live in birds and flowers and dragonflies and pine trees and in clouds and in those little specks of light you see floating in sunbeams… And when they use our atoms to make new lives, they wont’ just be able to take one, they’ll have to take two, one of you and one of me, we’ll be joined so tight…” (The Amber Spyglass)

Oxford é um sonho que eu tinha esquecido ter.

Eu devia ter uns 10 anos quando li A Bússola Dourada pela primeira vez. Não lembro exatamente quando foi – minha primeira lembrança a respeito da trilogia de Pullman é devorar, em uma viagem a Florianópolis em 2002, o último livro da série, A Luneta Âmbar. Não existe na minha cabeça um antes, existem os anos muito antes em que eu não conhecia a série e existe a Lívia completamente apaixonada por Fronteiras do Universo. 

Desde aquele verão na praia, há dez anos, já reli incontáveis vezes os livros, tentando eleger um favorito, buscando referências, tentando superar o fracasso do filme, etc. Comprei Lyra’s Oxford nem sei bem como (acho que pedi ao meu pai que trouxesse dos Estados Unidos), torci por anos para que The Book of Dust fosse publicado.

Mas a Oxford de Lyra e Will sempre foi uma coisa muito distante pra mim. Uma coisa que sim, teoricamente existia na vida real, mas tão longe da minha realidade que bem poderia ser um universo paralelo ao meu.

Quando planejei vir a Londres, pensei em visitar Oxford – a Oxford da Oxford University, a cidade conhecida que muita gente visita. Não liguei os pontos até estar no ônibus, já a caminho. Nunca me arrependi tanto de não ter planejado ficar mais tempo em uma cidade.

A verdade, no entanto, é que, para mim, dois ou três dias tampouco seriam suficientes. Porque eu não quero pontos turísticos, museus – a não ser que seja o dos crânios perfurados – ou fotos de prédios. Eu quero viver ali, andar pelas ruas e a cada dia reconhecer uma rua , uma loja, quero subir nos telhados da Jordan, ver a casa do Will, chorar no solstício de verão, ler um livro no Jardim Botânico e imaginar meu Pan correndo ali pelas árvores. O que eu quero não sei descrever; é a sensação de cada uma dessas coisas, o viver e sentir Oxford e, quem sabe, um dia vislumbrar o que inspirou Pullman a escrever a história que marcou minha vida.

Mas, por enquanto, eu me contento em sentar no banco deles. Porque, no fundo, esse banco sempre foi meu também.

“It’s this way,” said Lyra, tugging at Will’s hand.

She led him past a pool with a fountain under a wide-spreading tree, and then struck off to the left between beds of plants toward a huge many-trunked pine. There was a massive stone wall with a doorway in it, and in the farther part of the garden, the trees were younger and the planting less formal. Lyra led him almost to the end of the garden, over a little bridge, to a wooden seat under a spreading, low-branched tree.

“Yes!” she said. “I hoped so much, and here it is, just the same…Will, I used to come here in my Oxford and sit on this exact same bench whenever I wanted to be alone, just me and Pan. What I thought was that if you – maybe just once a year – if we could come here at the same time, just for an hour or something, then we could pretend we were close again – because we would be close, if you sat here and I sat just here in my world…”

“Yes,” he said, “as long as I live, I’ll come back. Wherever I am in the world, I’ll come back here–”

“On Midsummer Day,” she said. “At midday. As long as I live. As long as I live…”

He found himself unable to see, but he let the hot tears flow and just held her close.

Por que eu não trouxe isso do Brasil?

Da série, “Amiga, não cometa os mesmos erros que eu.”

#5 Esmaltes

Cada vermelho, rosa, nude e cores básicas que você esquece de trazer são um esmalte de cor/marca diferente que você deixa de comprar. E por mais incrível que seja seu esmalte azul Mulher Maravilha da MAC, talvez seja algo que você não vá usar muito.

“Vou levar só essa base que tá acabando e essas duas cores que eu nem uso tanto mas que eu gosto, o resto compro lá.”

Não faça isso, a não ser que esteja no seu orçamento gastar 15 reais ou mais num vidrinho de esmalte (ou que você esteja indo morar nos EUA. Aliás, nada dessa lista se aplica se você estiver indo morar nos EUA, onde tudo é ridiculamente barato).

Sei não como é em outros lugares, mas a Espanha é um país relativamente barato pra se morar, e aqui praticamente qualquer esmalte custa pelo menos 5 euros (aproximadamente 12 reais) o vidro – Essie, OPI, mesmo os da H&M. L’Oréal, MAC, Revlon, Chanel, 10 euros pra cima. Bases também são bem caras – a mais barata que achei me custou 6 euros. As da Essie estavam 15 (37 reais numa base de unhas, olha que lindo). Então, pro bem do seu bolso, traga seus velhos amigos da Colorama, Impala e cia. na mala, e deixe pra comprar aqui só aquelas cores incríveis que custam 90 reais no Brasil- aqui você vai pagar só uns 25 (ou 40, ou 70…), olha que bom.

PS: Se você estiver indo pra Itália, relaxa porque lá tem a Kiko, que realmente é mais barata. Mas aqui em Madri é mais difícil achar. E os tals esmaltes da Zara que me indicaram até hoje não encontrei em nenhuma loja.

#4 Produtos pra cabelo

Vai dar uma dor no coração cada vez que o produto novo não fizer nem 1% do efeito que seu creme preferido faz.

Se o seu cabelo for cacheado, seco, ou qualquer outra coisa que precisa de um tratamento diário, e você já tem um creme no Brasil que funciona muito bem, não se esqueça de trazer vários potes na viagem. Claro que, se você já usar John Frieda ou outra marca facilmente encontrável em terras do além mar (L’Oréal, Garnier, ou coisas assim), você pode deixar pra comprar aqui. Mas se seus produtos forem brasileiros, você vai se arrepender muito se trouxer poucos. Cada tentativa de encontrar um substituto vai te custar uns 7 euros e um pote de creme/spray/x abandonado no seu banheiro se não te agradar.

#3 Lenços

Acho que tá na hora deu comprar uns lenços novos.

Tão leves, tão lindos, e claro que você pode comprar sempre mais. Mas cada um ia te custar pelo menos uns 10 euros se você não souber procurar, e se você esquecer aqueles seus preferidos no Brasil e estiver com pouco dinheiro, vai sempre pensar “por que eu achei que não ia precisar deles?”

Sério.

#2 Biquíni

Imagina essa marca? (H&M - 9,95 euros)

Aqui o caso não é tanto de preço, porque na H&M você consegue achar biquínis por uns 23 euros o conjunto (o que dá quase 60 reais), o problema é que não faço ideia da qualidade. Mas enfim.

O problema é que a maioria dos biquínis que eu vi aqui são pra quem gosta daquelas calcinhas enormes. Eu não uso fio dental na praia nem nada, mas ficar com uma marca gigante de calcinha na bunda não é uma ideia que me agrada muito.

Por algum motivo, eu só trouxe um conjunto de biquini do Brasil e larguei todos os meus outros mofando no armário em São Paulo. Boa sorte pra mim, que vou aparecer em todas as fotos com o mesmo biquíni.

#1 Pijama de flanela

Adivinha? Só essa cobertinha não vai ser suficiente quando lá fora estiver abaixo de zero.

POR FAVOR, TRAGA UM PIJAMA QUENTE NA SUA MALA. Por favor. Não ouça sua irmã mais velha quando ela te disser “Lá tem calefação, pra que você vai gastar espaço da sua mala com isso?”

Sabe por quê? Porque você vai viajar e alguns hostels não vão te dar coberta suficiente. Porque a calefação às vezes desliga no meio da noite. Porque quando tá fazendo temperatura negativa lá fora, não adianta só calefação e uma mantinha. Porque vai chegar em abril, sua casa vai ficar sem calefação central até novembro (porque supostamente agora já está calor), os termômetros vão estar marcando 1 grau lá fora e você vai se arrepender pra sempre de ter deixado seus pijamas quentinhos em São Paulo.

Às vezes é preciso estar aqui

Mi atardecer

Antes de vir para o intercâmbio, eu dizia para a minha irmã que não queria fazer muitas viagens, e que queria fazê-las sozinha. Eu queria conhecer o Egito, a Grécia e a Rússia. Não queria fazer mochilão, não tinha a menor vontade de fazer essas viagens de ficar um dia em cada lugar, não fazia muitas questão de conhecer Paris, Amsterdã e essas outras capitais europeias que todo mundo quer ver.

Quatro meses depois, meu calendário quase não tinha dias livres. Paris foi uma das viagens mais lindas que fiz, com uma companhia maravilhosa (porque depois você aprende que não basta viajar acompanhado, o difícil é arranjar quem esteja no mesmo ritmo de viagens que você). Conheci Bruxelas, que eu pensava ser sem graça e amei, me decepcionei com Amsterdã, viajei pela Alemanha, coisa que nunca tinha passado pelo minha cabeça, fui pra Roma e passei um dia em cidades espanholas, o suficiente pra ver alguns museus e se perder nas ruazinhas de pedra.

Tudo isso foi ótimo. Todas as experiências foram incríveis. Sair dos planos me trouxe coisas boas. Mas no meio disso tudo, é muito fácil se encantar e planejar um milhão de viagens porque tudo está tão perto, é tão fácil, e você tem poucas aulas mesmo. É fácil se sentir sozinha e querer viajar com outras pessoas sem perceber que, talvez, vocês estejam esperando coisas diferentes da mesma viagem.

O problema é que, às vezes, tudo que a gente precisa é a nossa casa e a nossa solidão. Nosso quarto que finalmente tem cara de lar, as ruas que agora são familiares, as janelas enormes com vista pra praça e com o por-do-sol que sempre te faz sorrir. O problema é que é fácil ter 20 anos e querer estar sempre em outro lugar além daquele em que você realmente está. O problema é que, uma hora, você não aguenta mais.

4 dias em Roma. 2 dias em Madri. 8 dias em Portugal. 1 dia em Madri. 4 dias no norte da Espanha. 1 dia em Madri. 8 dias na Inglaterra. 3 dias em Madri. 2 semanas na Rússia.

Esse era meu calendário entre o final de março e o começo de maio. De alguma maneira, eu pensei que ia dar conta. Comprei os bilhetes, planejei tudo, e tive medo de dizer não.

E, ontem, quando cheguei ao aeroporto às 4 da manhã, depois de quase duas semanas viajando praticamente sem parar, virei pra minha amiga, disse “E se eu te dissesse que eu não estou com a menor vontade de viajar e que tudo que eu quero agora é minha casa?” e comecei a chorar.

Sentei no chão, com o corpo inteiro doendo de exaustão e só queria voltar pra casa e dormir, porque viajar tinha de repente se tornado uma obrigação.

Porque todo mundo me dizia que eu tinha que aproveitar ao máximo. E eu esqueci que, talvez, aproveitar ao máximo possa ser só ir ao parque, andar de bicicleta e ler meus textos deitada na grama. Porque, das cidades que eu conheci, foi Madri que tocou meu coração desde que pus os pés aqui em dezembro, é Madri que tem sabor de casa, e talvez conhecer o Guggenheim possa ficar pra depois.

Voltando pra casa no escuro das sete da manhã, debaixo da chuva e com os termômetros marcando 1 grau, eu olhava o Palácio Real e só conseguia sorrir.

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