Para a garota que se permite escrever

Se eu pudesse te falar sobre qualquer coisa que aprendi no meio de tantas histórias tortas no meio desses caminhos, seria que, por mais que tentem nos dizer o contrário, estar entediada com a vida é uma coisa boa: significa que você não se conformou.

O tédio é perigoso quando disfarçado de monotonia, ali na rotina; quando deixamos ele ficar calado, sem nome, no passar dos dias; nos costumes que ninguém aguenta, mas que dão trabalho de mudar, então ficam; nos prazeres que se tornam obrigação; na educação que faz sorrir e cala as palavras que nasceram pra sair, que amordaça o que há de melhor dentro de nós.

Mas quando você sente o tédio, quando você se permite exprimi-lo e o transforma em vontade, ele se torna força criativa, se torna mudança. Ele te permite procurar, e faz doer cada vez mais a conformidade.

E a tristeza, essa que insistem em ver em você, também não é ruim. A gente nunca está tão vivo do que quando dói.

Estar longe dá uma vontade louca de viver e parar no tempo simultaneamente. Viajar, sentir, parar e ficar anestesiada, em casa, deixando o tempo correr lá fora enquanto eu me tranco em mim mesma. No meio desse turbilhão, uma das melhores coisas que acontece é doer.

Quando eu fico realmente triste, isso me traz pro chão. Eu choro aquele choro entrecortado, que te impede de respirar, arde os olhos, embaça o mundo, dói a cabeça e rasga a alma. Tento chorar baixo pra ninguém ouvir, enquanto quero chorar alto e me esvaziar.

E aí acaba. E eu me sinto viva.

Não deixe o seu tédio calar, permita-se sofrer. E continue escrevendo com essa honestidade que faz tão bem.

Quarto 101

Morro de medo que você nunca tenha sido sensível aos nossos prazeres. Sim, conheço agora a má-fé dos seus arrebatamentos. Você me traía todas as vezes que se dizia extasiado por estar sozinho comigo. Só devo seus arroubos às minhas impertinências. Você provocou a sangue-frio meu entusiasmo, só olhou minha paixão como vitória sua, e seu coração jamais foi profundamente tocado. [...] No entanto não posso querer que você não pense em mim. Para falar com sinceridade, sinto ciúme violento de tudo o que lhe dá alegria e toca seu coração e seu prazer [...]. (M.  Alcoforado - Cartas da religiosa portuguesa, in Contos de Amor e Desamor)

Aprendendo a viver

Talvez, pensava eu, no fundo da minha alma não examinada, eu realmente fosse uma mulher convencional que simplesmente foi jogada para fora de órbita, e precisa apenas de um namorado. (…)

Então continuei saindo com alguns homens (para jantar) enquanto trepava com outros (sem jantar). Estava aprendendo muito – bem, aprendendo duas coisas pelo menos. Eu preferia fazer sexo de estômago vazio e comer sozinha na companhia de um bom livro. (T. Bentley – A entrega)

Na escada

Eu sou muito Harry pra não reconhecer alguém assim. Alguém que se encanta facilmente e gosta demais dos começos pra conseguir se contentar com o meio do caminho. Eu sou muito Kazumi pra me contentar em ser o meio do caminho. Quero toda a atenção, os pensamentos, quero espontaneidade e prefiro não ter a ter e sempre me perguntar estou fazendo a coisa certa, posso ligar, isso é ser grudenta, será que ele ainda me quer. Então eu entendo, realmente entendo, embora me doa e eu preferisse que não fosse assim e que o começo tivesse durado mais. E é melhor assim, não é, ir embora enquanto ainda resta alguma coisa boa, alguma coisa pela qual valha a pena sentar na escada, chorar e seguir em frente porque afinal isso não é nada comparado a voltar pra casa com a lembrança do sorriso e tchau forçados na manhã seguinte e o foi muito especial mas preciso ficar sozinho. Isso foi só um aconteceu e a vida é assim e realmente é. É assim. Eu sei que você quer respostas e só não fica mais procurando tanto por elas porque senão eventualmente vai enlouquecer – eu também quero, eu também cansei de procurar, eu também às vezes acho que vou enlouquecer. Mas é aquela coisa bem Summer, um dia eu vou acordar e vou saber, simplesmente – e você também. Foi melhor assim porque a gente ainda não sabia, e no fim das contas é melhor nada do que sentimentos pela metade.

Peace of mind

O que é que a gente faz pra não pensar? Diz, diz, que eu estou tentando e parece impossível, mas novas táticas surgem a cada instante sem que o consciente sequer perceba. É a luz acesa porque o escuro permite, é o barulho do teclado porque o silêncio assusta, é a atenção naquilo que não tem graça porque não fazer nada abre espaço pro que se quer manter longe, é não dormir porque dão medo os pensamentos daquele limbo que se instala com a cabeça no travesseiro e os olhos fechados. Dizem que a graça é mesmo esse não saber, mas eu não sei, nunca estive aqui, eu odeio odeio odeio essa sensação de não ter controle sobre nada, ela me faz buscar controle nos lugares errados. E cada certeza que eu tenho vai sendo derrubada, e uma nova vem no lugar pra cair em seguida, você não vai me deixar com nenhuma? Provavelmente não é saudável, mas eu preciso delas. Eu preciso porque sem elas é assim, essa montanha-russa louca que não acaba e uma hora eu estou feliz, na outra eu tenho vontade de chorar, quero aparecer sem avisar, quero ficar trancada em casa, quero uma resposta, quero o celular desligado, e vem aquela tristeza sem explicação e eu preciso falar, essa sou eu, verbalizar me ajuda, e é por isso que a falta de certeza me assusta tanto em alguns momentos, e é tudo um círculo e às vezes a falta de certeza me faz querer sair fora mas será que vale a pena? Eu já saí fora tantas vezes. É engraçado quando de repente no meio de tudo isso a gente se dá conta de algum pequeno detalhe esquecido, eu saí fora desde o começo, sempre. Porque ninguém mais podia me deixar quebrada daquele jeito, eu saí fora. Não dá mais, o problema sou eu, silêncio, não adianta fazer nada, e procurar nos lugares errados é estar fora desde o início, não é? I guess I really am just a fucked up girl.

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