Você não sabe quem eu sou (eu também não sabia quem você era há alguns dias e agora comprei seu livro, olha como as coisas são), mas eu queria te agradecer.
Eu achava que a gente tinha que escrever pros outros. Escrever coisas importantes, que durassem, palavras bem pensadas e grandes histórias. As coisas pessoais, essas são pra gente, pra ficarem guardadas em cadernos e rascunhos de textos que nunca vão ser publicados.
E ai você me diz que as únicas coisas que escreveu que fizeram sucesso são as que escreveu pra si mesmo, não pra outras pessoas, e que pra escrever é preciso achar esse ponto em que simplesmente não importa o que os outros pensam, só o que está dentro, só o que a gente sente e isso é tão, tão difícil.
Eu sempre achei que escrever fosse um trabalho solitário, uma terapia dolorosa que pertence a mim e a ninguém mais. E por isso mesmo nunca achei possível viver disso, ter um livro, ter um público, aliás. Porque não são mais os anos 40, e é como a Ilana Fox estava falando ontem, agora o autor tem que ser artista, pessoa pública, mas e se ele não for isso? E se ele não souber conquistar os leitores a não ser com seus textos, se ele não quiser aplausos e performances, e se ele for recluso, não basta mais mandar seus manuscritos para um editor. Então eu sempre escrevi assim, e nunca gostei do que tentava escrever de outro jeito, e abandonei um pouco os sonhos porque não nasci pra fatos, relatos e objetividade. Pra mim só importa o que é escrito por dentro, aquelas palavras que gritam tão alto e me deixam louca e eu tenho que botar pra fora. Mesmo assim eu tentei, tentei ser útil e relatar viagens e ver palestras sobre economia e projetos, e algumas coisas me matavam de tédio e outras eram completamente interessantes pra mim, não pra escrever notícias, mas ainda assim eu tentei. “I’m gonna dream little, tiny dreams.” Mas sabe o quê? A biblioteca de Birmingham não grita pra mim, e eu não aguentei mais e saí correndo e obrigada. Você grita, suas palavras gritam, e obrigada por me fazer entender isso.
Eu não conseguia entender por que as pessoas gostavam dos meus textos mais íntimos e dolorosos, e ninguém ligava pra aqueles que eu escrevia com algum sentido de utilidade. É que se não é interessante pra mim, por que vai ser pra outras pessoas? E ouvir essas palavras vindas de você me fez perceber que talvez eu não tenha nascido pra ser prática e clara, mas que talvez pra alguém seja útil, ou bom, ou reconfortante, ou o que seja ler essas coisas tão difíceis de expressar que eu luto pra por em palavras achando que ninguém vai ler.
Obrigada por retirar de mim o peso da utilidade, porque pra escrever só posso suportar o peso de mim mesma e buscar a leveza pra continuar.
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Dear Patrick
Publicado em diário, estive pensando, Pessoal
Coisas banais
“Vou pegar alguma coisa pra comer, tô com fome.”
“À vontade. Fuça aí na geladeira e vê o que tem, acho que sobrou macarrão.”
“Perfeito!”
“Espera, você não vai esquentar?”
“Não, eu amo comida fria.”
“Jura? Dá um pouco aí.”
Quando acabasse, ela olharia para trás e saberia que aquele, exatamente aquele, fora o momento em que se apaixonara.
Tentou lembrar de outros (ela já tivera muitos amores). Nunca era uma coisa só: um beijo, uma transa. Era sempre o antes ou o depois, o estar abraçado, os arrepios, o sentir tanta falta mesmo enquanto se fala. A pungência de um olhar no quarto escuro e dos corpos sem tocar. Os momentos mais íntimos ou os mais banais, que fazem nascer ou morrer o amor, que traçam de uma hora para outra a linha dos sentimentos.
Ela se lembraria de tudo isso e mais. Reescreveria toda sua história através desses começos e fins, e ficaria mais atenta.
Quando o próximo chegou, já estava preparada.
“Quer um Trident?”
“Não, obrigado… Na verdade… Eu não gosto muito de mulher que masca chiclete.”
Olhou para o lado e começou a procurar um novo amor.
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Publicado em estive pensando
Perguntas pendentes
1. Que esforço?
2. Que palavras?
3. Que motivos?
Favor preencher as respostas com letra legível.
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Memórias silenciosas
Queria ter aproveitado melhor nosso tempo. Ter te conhecido antes, ter sido mais curiosa. Todo mundo sempre tem histórias, eu devia ter pedido pra você me contar as suas. Aquelas histórias que eu sempre ouvi dos outros sobre você – qual era a sua versão delas? Queria ter aprendido mais. Mas enquanto a gente brinca com as flores, ninguém nos conta que talvez devêssemos sentar lá na sala um pouquinho e conversar, porque logo logo ela estará cheia de um esquecimento silencioso, e a única memória será daqueles rostos e nomes dos que já se foram.
E quando ela se for também, você quase não se lembrará dela. Apenas da sombra que restou.
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