Querida Anita

“E no entanto,
no momento,
tudo isso passa
na aza do vento
como um simples novêlo de fumaça
e é só depois de velho,
numa tarde esquecida,
que a gente se surpreende e resmunga
Foi tudo o que vivi de tôda a minha [vida]
e começa a chorar.

À minha bondosa noiva
Como eterna recordação do dia 1º de novembro de 1938.

Do teu noivo
Nelson
23-11-938″

When we do find each other again

“I’ll be looking for you, Will, every moment, every single moment. And when we do find each other again, we’ll cling together so tight that nothing and no one’ll ever tear us apart. Every atom of me and every atom of you… We’ll live in birds and flowers and dragonflies and pine trees and in clouds and in those little specks of light you see floating in sunbeams… And when they use our atoms to make new lives, they wont’ just be able to take one, they’ll have to take two, one of you and one of me, we’ll be joined so tight…” (The Amber Spyglass)

Oxford é um sonho que eu tinha esquecido ter.

Eu devia ter uns 10 anos quando li A Bússola Dourada pela primeira vez. Não lembro exatamente quando foi – minha primeira lembrança a respeito da trilogia de Pullman é devorar, em uma viagem a Florianópolis em 2002, o último livro da série, A Luneta Âmbar. Não existe na minha cabeça um antes, existem os anos muito antes em que eu não conhecia a série e existe a Lívia completamente apaixonada por Fronteiras do Universo. 

Desde aquele verão na praia, há dez anos, já reli incontáveis vezes os livros, tentando eleger um favorito, buscando referências, tentando superar o fracasso do filme, etc. Comprei Lyra’s Oxford nem sei bem como (acho que pedi ao meu pai que trouxesse dos Estados Unidos), torci por anos para que The Book of Dust fosse publicado.

Mas a Oxford de Lyra e Will sempre foi uma coisa muito distante pra mim. Uma coisa que sim, teoricamente existia na vida real, mas tão longe da minha realidade que bem poderia ser um universo paralelo ao meu.

Quando planejei vir a Londres, pensei em visitar Oxford – a Oxford da Oxford University, a cidade conhecida que muita gente visita. Não liguei os pontos até estar no ônibus, já a caminho. Nunca me arrependi tanto de não ter planejado ficar mais tempo em uma cidade.

A verdade, no entanto, é que, para mim, dois ou três dias tampouco seriam suficientes. Porque eu não quero pontos turísticos, museus – a não ser que seja o dos crânios perfurados – ou fotos de prédios. Eu quero viver ali, andar pelas ruas e a cada dia reconhecer uma rua , uma loja, quero subir nos telhados da Jordan, ver a casa do Will, chorar no solstício de verão, ler um livro no Jardim Botânico e imaginar meu Pan correndo ali pelas árvores. O que eu quero não sei descrever; é a sensação de cada uma dessas coisas, o viver e sentir Oxford e, quem sabe, um dia vislumbrar o que inspirou Pullman a escrever a história que marcou minha vida.

Mas, por enquanto, eu me contento em sentar no banco deles. Porque, no fundo, esse banco sempre foi meu também.

“It’s this way,” said Lyra, tugging at Will’s hand.

She led him past a pool with a fountain under a wide-spreading tree, and then struck off to the left between beds of plants toward a huge many-trunked pine. There was a massive stone wall with a doorway in it, and in the farther part of the garden, the trees were younger and the planting less formal. Lyra led him almost to the end of the garden, over a little bridge, to a wooden seat under a spreading, low-branched tree.

“Yes!” she said. “I hoped so much, and here it is, just the same…Will, I used to come here in my Oxford and sit on this exact same bench whenever I wanted to be alone, just me and Pan. What I thought was that if you – maybe just once a year – if we could come here at the same time, just for an hour or something, then we could pretend we were close again – because we would be close, if you sat here and I sat just here in my world…”

“Yes,” he said, “as long as I live, I’ll come back. Wherever I am in the world, I’ll come back here–”

“On Midsummer Day,” she said. “At midday. As long as I live. As long as I live…”

He found himself unable to see, but he let the hot tears flow and just held her close.

366

Eu não gosto quando você fala que me ama. Não quando importa. Falar eu te amo demais é coisa minha, e eu sei que não é sua. Quando você fala muito, estranho. É pra você falar pouco, porque você é assim e esse foi um dos motivos desde o começo pra eu te amar.

De algumas coisas eu lembro muito bem, principalmente do começo. Aquelas que, mesmo se acabar um dia, eu vou guardar com carinho no cantinho das memórias especiais demais pra manchar de dor. A música no fundo e eu tentando te distrair do filme. A gente deitado e eu te olhando e pedindo em silêncio pra dar certo. Você aparecendo na minha porta com uma rosa. A gente no escuro, com sono, e de repente eu desabo e você me abraça e dali vem o primeiro eu te amo, e você me pede desculpas por todas as vezes que vai me machucar (foram algumas, mas eu te machuquei também e, ei, eu te amo). E dali vem a nossa palavra.

Outras eu lembro assim, quando paro pra lembrar – elas me fazem sorrir. A nossa primeira viagem de carro, lembra? Não a primeira, mas a primeira só os dois, e aquela sensação bizarra de frio na barriga por ter que passar tantas horas com você sem saber o que dizer. Uma festa e uma garrafa de bebida. Uma festa e um saquinho de pipoca. Tudo isso foi antes, e de repente existia um “antes”. De repente existia um momento em que você não era meu, e um momento em que você passou a ser. Que estranho.

E no depois tem tanta coisa também… Rodar a cidade atrás de uma farmácia aberta, jogar videogame até cair de sono, ler livro em voz alta, fingir ser irmãos pra tentar entrar na faculdade, o fatídico dia seguinte e encontrar sua empregada de manhã, te encontrar na rua sem querer indo pro trabalho, o melhor jantar surpresa do mundo (eu ainda sonho com aquela comida), roubar suas roupas, montar uma estante, fazer parte de um filme, te ter aqui vivendo essa minha vida nova. Esqueço e lembro de um monte e queria ter um jeito de guardar tudo isso num lugar mais seguro que aqui, mas o único jeito que eu conheço é escrever, então eu escrevo.

Você ainda me faz sorrir quando eu estou cansada.

little stars come out of you

Obrigada por me fazer sorrir quando eu estou cansada.

Quarto 101

Morro de medo que você nunca tenha sido sensível aos nossos prazeres. Sim, conheço agora a má-fé dos seus arrebatamentos. Você me traía todas as vezes que se dizia extasiado por estar sozinho comigo. Só devo seus arroubos às minhas impertinências. Você provocou a sangue-frio meu entusiasmo, só olhou minha paixão como vitória sua, e seu coração jamais foi profundamente tocado. [...] No entanto não posso querer que você não pense em mim. Para falar com sinceridade, sinto ciúme violento de tudo o que lhe dá alegria e toca seu coração e seu prazer [...]. (M.  Alcoforado - Cartas da religiosa portuguesa, in Contos de Amor e Desamor)

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