When we do find each other again

“I’ll be looking for you, Will, every moment, every single moment. And when we do find each other again, we’ll cling together so tight that nothing and no one’ll ever tear us apart. Every atom of me and every atom of you… We’ll live in birds and flowers and dragonflies and pine trees and in clouds and in those little specks of light you see floating in sunbeams… And when they use our atoms to make new lives, they wont’ just be able to take one, they’ll have to take two, one of you and one of me, we’ll be joined so tight…” (The Amber Spyglass)

Oxford é um sonho que eu tinha esquecido ter.

Eu devia ter uns 10 anos quando li A Bússola Dourada pela primeira vez. Não lembro exatamente quando foi – minha primeira lembrança a respeito da trilogia de Pullman é devorar, em uma viagem a Florianópolis em 2002, o último livro da série, A Luneta Âmbar. Não existe na minha cabeça um antes, existem os anos muito antes em que eu não conhecia a série e existe a Lívia completamente apaixonada por Fronteiras do Universo. 

Desde aquele verão na praia, há dez anos, já reli incontáveis vezes os livros, tentando eleger um favorito, buscando referências, tentando superar o fracasso do filme, etc. Comprei Lyra’s Oxford nem sei bem como (acho que pedi ao meu pai que trouxesse dos Estados Unidos), torci por anos para que The Book of Dust fosse publicado.

Mas a Oxford de Lyra e Will sempre foi uma coisa muito distante pra mim. Uma coisa que sim, teoricamente existia na vida real, mas tão longe da minha realidade que bem poderia ser um universo paralelo ao meu.

Quando planejei vir a Londres, pensei em visitar Oxford – a Oxford da Oxford University, a cidade conhecida que muita gente visita. Não liguei os pontos até estar no ônibus, já a caminho. Nunca me arrependi tanto de não ter planejado ficar mais tempo em uma cidade.

A verdade, no entanto, é que, para mim, dois ou três dias tampouco seriam suficientes. Porque eu não quero pontos turísticos, museus – a não ser que seja o dos crânios perfurados – ou fotos de prédios. Eu quero viver ali, andar pelas ruas e a cada dia reconhecer uma rua , uma loja, quero subir nos telhados da Jordan, ver a casa do Will, chorar no solstício de verão, ler um livro no Jardim Botânico e imaginar meu Pan correndo ali pelas árvores. O que eu quero não sei descrever; é a sensação de cada uma dessas coisas, o viver e sentir Oxford e, quem sabe, um dia vislumbrar o que inspirou Pullman a escrever a história que marcou minha vida.

Mas, por enquanto, eu me contento em sentar no banco deles. Porque, no fundo, esse banco sempre foi meu também.

“It’s this way,” said Lyra, tugging at Will’s hand.

She led him past a pool with a fountain under a wide-spreading tree, and then struck off to the left between beds of plants toward a huge many-trunked pine. There was a massive stone wall with a doorway in it, and in the farther part of the garden, the trees were younger and the planting less formal. Lyra led him almost to the end of the garden, over a little bridge, to a wooden seat under a spreading, low-branched tree.

“Yes!” she said. “I hoped so much, and here it is, just the same…Will, I used to come here in my Oxford and sit on this exact same bench whenever I wanted to be alone, just me and Pan. What I thought was that if you – maybe just once a year – if we could come here at the same time, just for an hour or something, then we could pretend we were close again – because we would be close, if you sat here and I sat just here in my world…”

“Yes,” he said, “as long as I live, I’ll come back. Wherever I am in the world, I’ll come back here–”

“On Midsummer Day,” she said. “At midday. As long as I live. As long as I live…”

He found himself unable to see, but he let the hot tears flow and just held her close.

Silêncios II

Não é que eu tenha esquecido quanto você significou na minha vida. Claro que não é isso. Mas parece que o que passou a nos impulsionar foi machucar um ao outro, e você significava tanto que eu me vi chegando a um ponto que eu prometera a mim mesma jamais chegar.

Você me chamou de monstro e depois admitiu me colocar num pedestal. O que te assusta e te machuca é o que você põe acima de você mesmo? Nunca quis ser inatingível – e, aliás, nunca fui: tudo que você fez sempre me atingiu diretamente. E você me conhece há tempo suficiente pra saber quanto eu aprecio certas coisas, achei que o suficiente mesmo pra tentar honrá-las. Errei. Eu erro também, bastante. Mas apontar meus erros não faz os seus sumirem.

Eu nunca precisei de conserto, me desculpe por isso, talvez. Sempre fui feliz comigo mesma, mesmo nos momentos mais negros – acontece que acho idiota passar por tudo sozinha se você pode contar com alguém. Contei com você. E não podia deixar isso tomar conta de mim.

Sabe, o problema é que a gente passou tanto tempo achando que era algo especial. Talvez nós só falássemos um pro outro o que queríamos ouvir. E você é muito bom nisso: falar o que as pessoas querem ouvir. (Me pergunto se ela sabe das palavras recicladas.) Talvez você precise  de alguém que queira ouvir coisas diferentes.

Nem acho que era maldade. Nunca foi. Mas sabe quando eu disse que um dia ainda ia te analisar? Por que você precisava tanto tentar não me machucar e parecer perfeito? Eu não deixei claro quanto isso não era necessário? Foi essa tentativa que mais me machucou: promessas que você fazia pra mim, quando os dois sabiam que não seriam cumpridas. Eu aprendi.  E você?

Talvez desse silêncio a gente aprenda algo. A gente sempre aprendeu. E usar só verbos no passado, pra gente, dói.

Novembro

Hoje eu tive vontade de você aqui pra ser triste em conjunto. Às vezes é bom compartilhar tristeza, porque ela ganha um pouco do peso do mundo e, de algum modo, fica mais leve. Mas ela nunca fica leve demais, ou deixa de ser sincera. Aliás, o papel da tristeza é esse mesmo, aproximar a gente do chão, da terra, do centro. Mas hoje as pessoas acham que tudo é doença e dá-lhe remédio, parecem não entender quão saudável é a gente se reaproximar da gente mesmo. Ficar leve demais faz a gente voar longe e deixa se perder – e pra achar o caminho de volta? Esse sim é o problema.

Quebrei um espelho. Não em pedacinhos – quando fui ver se a maquiagem estava borrada, me deparei com trincos que pareciam gravados na minha pele – mas era só na dela, aquela do outro lado. Ela não gosta muito de mim, às vezes se distancia, não a reconheço. Hoje rachou. Como quem diz, “cansei.”

Dizem que são sete anos de azar e eu me perguntei quando veria você de volta. Será que é fácil sair assim? Você rachou nossa imagem também? Andando na chuva, me lembrei de quando você segurava o guarda-chuva e ria enquanto eu corria e me molhava. Não tive coragem. Queria companhia e o silêncio da minha solidão pesou demais. Tem dias em que é mais difícil, que por mais que eu me procure algo falta. Compartilhar tristeza ajuda a gente a se encontrar.

O guarda-chuva me protegeu até em casa. Joguei o espelho fora. Era o medo de me perder no vento como ela se perdeu na vida.

Aprendendo a viver

Talvez, pensava eu, no fundo da minha alma não examinada, eu realmente fosse uma mulher convencional que simplesmente foi jogada para fora de órbita, e precisa apenas de um namorado. (…)

Então continuei saindo com alguns homens (para jantar) enquanto trepava com outros (sem jantar). Estava aprendendo muito – bem, aprendendo duas coisas pelo menos. Eu preferia fazer sexo de estômago vazio e comer sozinha na companhia de um bom livro. (T. Bentley – A entrega)

Peace of mind

O que é que a gente faz pra não pensar? Diz, diz, que eu estou tentando e parece impossível, mas novas táticas surgem a cada instante sem que o consciente sequer perceba. É a luz acesa porque o escuro permite, é o barulho do teclado porque o silêncio assusta, é a atenção naquilo que não tem graça porque não fazer nada abre espaço pro que se quer manter longe, é não dormir porque dão medo os pensamentos daquele limbo que se instala com a cabeça no travesseiro e os olhos fechados. Dizem que a graça é mesmo esse não saber, mas eu não sei, nunca estive aqui, eu odeio odeio odeio essa sensação de não ter controle sobre nada, ela me faz buscar controle nos lugares errados. E cada certeza que eu tenho vai sendo derrubada, e uma nova vem no lugar pra cair em seguida, você não vai me deixar com nenhuma? Provavelmente não é saudável, mas eu preciso delas. Eu preciso porque sem elas é assim, essa montanha-russa louca que não acaba e uma hora eu estou feliz, na outra eu tenho vontade de chorar, quero aparecer sem avisar, quero ficar trancada em casa, quero uma resposta, quero o celular desligado, e vem aquela tristeza sem explicação e eu preciso falar, essa sou eu, verbalizar me ajuda, e é por isso que a falta de certeza me assusta tanto em alguns momentos, e é tudo um círculo e às vezes a falta de certeza me faz querer sair fora mas será que vale a pena? Eu já saí fora tantas vezes. É engraçado quando de repente no meio de tudo isso a gente se dá conta de algum pequeno detalhe esquecido, eu saí fora desde o começo, sempre. Porque ninguém mais podia me deixar quebrada daquele jeito, eu saí fora. Não dá mais, o problema sou eu, silêncio, não adianta fazer nada, e procurar nos lugares errados é estar fora desde o início, não é? I guess I really am just a fucked up girl.

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