Querida Anita

“E no entanto,
no momento,
tudo isso passa
na aza do vento
como um simples novêlo de fumaça
e é só depois de velho,
numa tarde esquecida,
que a gente se surpreende e resmunga
Foi tudo o que vivi de tôda a minha [vida]
e começa a chorar.

À minha bondosa noiva
Como eterna recordação do dia 1º de novembro de 1938.

Do teu noivo
Nelson
23-11-938″

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Eu não gosto quando você fala que me ama. Não quando importa. Falar eu te amo demais é coisa minha, e eu sei que não é sua. Quando você fala muito, estranho. É pra você falar pouco, porque você é assim e esse foi um dos motivos desde o começo pra eu te amar.

De algumas coisas eu lembro muito bem, principalmente do começo. Aquelas que, mesmo se acabar um dia, eu vou guardar com carinho no cantinho das memórias especiais demais pra manchar de dor. A música no fundo e eu tentando te distrair do filme. A gente deitado e eu te olhando e pedindo em silêncio pra dar certo. Você aparecendo na minha porta com uma rosa. A gente no escuro, com sono, e de repente eu desabo e você me abraça e dali vem o primeiro eu te amo, e você me pede desculpas por todas as vezes que vai me machucar (foram algumas, mas eu te machuquei também e, ei, eu te amo). E dali vem a nossa palavra.

Outras eu lembro assim, quando paro pra lembrar – elas me fazem sorrir. A nossa primeira viagem de carro, lembra? Não a primeira, mas a primeira só os dois, e aquela sensação bizarra de frio na barriga por ter que passar tantas horas com você sem saber o que dizer. Uma festa e uma garrafa de bebida. Uma festa e um saquinho de pipoca. Tudo isso foi antes, e de repente existia um “antes”. De repente existia um momento em que você não era meu, e um momento em que você passou a ser. Que estranho.

E no depois tem tanta coisa também… Rodar a cidade atrás de uma farmácia aberta, jogar videogame até cair de sono, ler livro em voz alta, fingir ser irmãos pra tentar entrar na faculdade, o fatídico dia seguinte e encontrar sua empregada de manhã, te encontrar na rua sem querer indo pro trabalho, o melhor jantar surpresa do mundo (eu ainda sonho com aquela comida), roubar suas roupas, montar uma estante, fazer parte de um filme, te ter aqui vivendo essa minha vida nova. Esqueço e lembro de um monte e queria ter um jeito de guardar tudo isso num lugar mais seguro que aqui, mas o único jeito que eu conheço é escrever, então eu escrevo.

Você ainda me faz sorrir quando eu estou cansada.

Coisas banais

“Vou pegar alguma coisa pra comer, tô com fome.”

“À vontade. Fuça aí na geladeira e vê o que tem, acho que sobrou macarrão.”

“Perfeito!”

“Espera, você não vai esquentar?”

“Não, eu amo comida fria.”

“Jura? Dá um pouco aí.”

Quando acabasse, ela olharia para trás e saberia que aquele, exatamente aquele, fora o momento em que se apaixonara.

Tentou lembrar de outros (ela já tivera muitos amores). Nunca era uma coisa só: um beijo, uma transa. Era sempre o antes ou o depois, o estar abraçado, os arrepios, o sentir tanta falta mesmo enquanto se fala. A pungência de um olhar no quarto escuro e dos corpos sem tocar. Os momentos mais íntimos ou os mais banais, que fazem nascer ou morrer o amor, que traçam de uma hora para outra a linha dos sentimentos.

Ela se lembraria de tudo isso e mais. Reescreveria toda sua história através desses começos e fins, e ficaria mais atenta.

Quando o próximo chegou, já estava preparada.

“Quer um Trident?”

“Não, obrigado… Na verdade… Eu não gosto muito de mulher que masca chiclete.”

Olhou para o lado e começou a procurar um novo amor.

Memórias silenciosas

Queria ter aproveitado melhor nosso tempo. Ter te conhecido antes, ter sido mais curiosa. Todo mundo sempre tem histórias, eu devia ter pedido pra você me contar as suas. Aquelas histórias que eu sempre ouvi dos outros sobre você – qual era a sua versão delas? Queria ter aprendido mais. Mas enquanto a gente brinca com as flores, ninguém nos conta que talvez devêssemos sentar lá na sala um pouquinho e conversar, porque logo logo ela estará cheia de um esquecimento silencioso, e a única memória será daqueles rostos e nomes dos que já se foram.

E quando ela se for também, você quase não se lembrará dela. Apenas da sombra que restou.

Silêncios II

Não é que eu tenha esquecido quanto você significou na minha vida. Claro que não é isso. Mas parece que o que passou a nos impulsionar foi machucar um ao outro, e você significava tanto que eu me vi chegando a um ponto que eu prometera a mim mesma jamais chegar.

Você me chamou de monstro e depois admitiu me colocar num pedestal. O que te assusta e te machuca é o que você põe acima de você mesmo? Nunca quis ser inatingível – e, aliás, nunca fui: tudo que você fez sempre me atingiu diretamente. E você me conhece há tempo suficiente pra saber quanto eu aprecio certas coisas, achei que o suficiente mesmo pra tentar honrá-las. Errei. Eu erro também, bastante. Mas apontar meus erros não faz os seus sumirem.

Eu nunca precisei de conserto, me desculpe por isso, talvez. Sempre fui feliz comigo mesma, mesmo nos momentos mais negros – acontece que acho idiota passar por tudo sozinha se você pode contar com alguém. Contei com você. E não podia deixar isso tomar conta de mim.

Sabe, o problema é que a gente passou tanto tempo achando que era algo especial. Talvez nós só falássemos um pro outro o que queríamos ouvir. E você é muito bom nisso: falar o que as pessoas querem ouvir. (Me pergunto se ela sabe das palavras recicladas.) Talvez você precise  de alguém que queira ouvir coisas diferentes.

Nem acho que era maldade. Nunca foi. Mas sabe quando eu disse que um dia ainda ia te analisar? Por que você precisava tanto tentar não me machucar e parecer perfeito? Eu não deixei claro quanto isso não era necessário? Foi essa tentativa que mais me machucou: promessas que você fazia pra mim, quando os dois sabiam que não seriam cumpridas. Eu aprendi.  E você?

Talvez desse silêncio a gente aprenda algo. A gente sempre aprendeu. E usar só verbos no passado, pra gente, dói.

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