Silêncios II

Não é que eu tenha esquecido quanto você significou na minha vida. Claro que não é isso. Mas parece que o que passou a nos impulsionar foi machucar um ao outro, e você significava tanto que eu me vi chegando a um ponto que eu prometera a mim mesma jamais chegar.

Você me chamou de monstro e depois admitiu me colocar num pedestal. O que te assusta e te machuca é o que você põe acima de você mesmo? Nunca quis ser inatingível – e, aliás, nunca fui: tudo que você fez sempre me atingiu diretamente. E você me conhece há tempo suficiente pra saber quanto eu aprecio certas coisas, achei que o suficiente mesmo pra tentar honrá-las. Errei. Eu erro também, bastante. Mas apontar meus erros não faz os seus sumirem.

Eu nunca precisei de conserto, me desculpe por isso, talvez. Sempre fui feliz comigo mesma, mesmo nos momentos mais negros – acontece que acho idiota passar por tudo sozinha se você pode contar com alguém. Contei com você. E não podia deixar isso tomar conta de mim.

Sabe, o problema é que a gente passou tanto tempo achando que era algo especial. Talvez nós só falássemos um pro outro o que queríamos ouvir. E você é muito bom nisso: falar o que as pessoas querem ouvir. (Me pergunto se ela sabe das palavras recicladas.) Talvez você precise  de alguém que queira ouvir coisas diferentes.

Nem acho que era maldade. Nunca foi. Mas sabe quando eu disse que um dia ainda ia te analisar? Por que você precisava tanto tentar não me machucar e parecer perfeito? Eu não deixei claro quanto isso não era necessário? Foi essa tentativa que mais me machucou: promessas que você fazia pra mim, quando os dois sabiam que não seriam cumpridas. Eu aprendi.  E você?

Talvez desse silêncio a gente aprenda algo. A gente sempre aprendeu. E usar só verbos no passado, pra gente, dói.

Ano novo, parte II

Nunca me vi escrevendo uma carta. Sério, você me conhece – não sou esse tipo de pessoa. Mas você é a segunda pessoa a me dar essa vontade, então acho que isso diz alguma coisa. Por isso, escrevo.

Como foi o ano novo? Se embebedou lá na praia? Comemorou por mim? O meu foi bom, com a família – Bárbara trouxe o namorado (ou rolo, não sei bem dizer, na real pra mim ele é só um velho amigo da família) novo, Clara passou com a gente pela primeira vez em anos e Nívea foi, bom, Nívea.

Mas por que eu tô falando sobre isso? Lá vou eu me enrolando, se não me controlo daqui a pouco começo a escrever sobre coisas sem sentido nenhum e você vai me achar uma idiota. Por que isso sempre acontece quando estou falando com você? Eu normalmente não tenho problema algum em falar com as pessoas, falar o que quero, e é daí que vem essa não necessidade de cartas: pra que escrever se falar é tão mais fácil? (E lá vou eu me distraindo…)

Eu senti sua falta. Ta aí, falei, senti. Tentei falar com você mas as linhas estavam ocupadas, nem mensagem no celular tava indo. Então digo agora, senti, quis falar com você, e meu coração ficou apertado de um jeito todo esquisito desde que deu meia noite até a hora de dormir. Quis você por tantos motivos, e não penso em nenhum pra escrever, o que significa que também te quis por motivo nenhum, e isso me preocupa mais ainda. Como eu posso te querer assim, do nada? Só por causa de um comemoração idiota? Só por que a gente beija alguém pra começar o ano?

Não te dei permissão pra me fazer sentir assim, Bernardo, e por Deus, as aulas terminaram, eu achei que nas férias teria paz, mas a gente continuou se falando (maldita internet) e saindo e por que você tinha que me beijar justo antes de viajar com seus amigos? Fiquei feito louca todas as vezes que saímos esperando você fazer alguma coisa e nada. “Alba, esquece, não vai acontecer,” eu repetia. Não te dei permissão. Aliás, não te dei permissão pra nada, eu te avisei desde o começo. Vou falar muito sério com você agora: eu falei, não falei? Que era pra você tomar cuidado, por que eu não era (sou) muito normal? Ta aí, não sou, sou quebrada e zoada e deveria não ficar encanada com nada disso e eu nunca fiquei antes, sempre era tudo bem normal, se você quiser (puder) chamar de normais os meus padrões, mas é isso.

E ainda te quero.

Um beijo – agora meu,
Alba

É só isso, não tem mais jeito

Quando as coisas ficam conturbadas desse jeito, a gente sente no coração aquele aperto familiar chamado de saudades e fica meio sem chão, sem ter pro que voltar.

Alguma hora a gente precisa encarar os erros de frente. Sozinha.

Tetetê. Quê?

TetetêAntes que alguém me acuse de fogo no rabo só porque mudei de domínio de novo, deixa eu dizer que agora pretendo ficar. Quando tava reformulando o blog lá nos bloggers, percebi que não tinha mais tanta paciência pra editar 982733 páginas diferentes, arrumar layout bonitinho et cetera. Então pronto – agora é wordpress mesmo, muito mais fácil e organizado. Qualquer dia dá fogo mesmo e eu acabo comprando um domínio pra poder zoar à vontade, mas até lá…

Caí na tentação do Twitter – pegou a aliteração do te, reproduzindo o som dos meus dedinhos digitando sem parar? Como diria o Maia, “Mãe, sou jornalista e tô no Twitter”. Eu, que vinha tendo vontade quase nenhuma de escrever pra alheios, comecei a ter vontade de postar uma frase nova a cada minuto naquele negócio. Qual é? Foi até meio deprimente – de cinco em cinco minutos voltar lá pro passarinho azul imbecil site pra atualizar alguma frase solta.

O que atrai no Twitter é justamente esse poder de dizer coisas completamente aleatórias, aquelas frases que te vêm à cabeça no meio do nada e que dão uma vontade de escrever, anotar, dizer pra alguém. Quando você quer informar seus amigos de alguma coisa rápida, quando alguma coisa acaba de sair do forno, quando aquele filme é tão legal que você precisa falar qualquer coisa sobre ele.

Pra isso existem blogs.
Os blogs tão aí há muito mais tempo,e você pode publicar tudo isso daí em um deles. Mas a idéia toda de um blog é o desenvolver dos textos, não colocar uma idéia em 140 caracteres: pra isso inventaram o microblog. Toda concepção de “diário virtual” envolve uma estruturação de pensamentos mais elaborada, um esforço maior – e, admita-se ou não, sempre se espera que alguém leia e comente. No Twitter você… atualiza. Rápido. Pequeno. E ninguém vai ler tudo, e não importa. Porque logo vai ter outro, e você só precisava colocar aquilo pra fora.

Mãe, sou jornalista, preciso me expressar a cada cinco segundos, pra me comunicar eu tenho um blog e, pra não surtar, agora um Twitter.

Desde que me mudei para São Paulo, venho me perguntando o que foi que mais mudou. Não morar mais na cidade em que cresci? Não conhecer tão de perto as ruas, casas, lojas, muros? Não poder andar sem consultar mapas? Ter que pegar um ônibus para tudo que faço? Estar na universidade? Não conhecer direito ninguém? Ter que me responsabilizar por tantas coisas? Não ter meus pais por perto? Não sair para os lugares conhecidos? Conhecer algo novo todos os dias? Cozinhar para uma pessoa?

Hoje eu percebi que a maior diferença, mesmo, era que, antes, “longe” significava quinze minutos de distância, ou no máximo uma viagem de ônibus. “Longe” era uma ligação no meio da tarde e alguns reais a mais na conta telefônica. “Longe” era esperar até a uma da tarde do dia seguinte.

Diferente, mesmo, é ficar sozinha num banheiro. E saber que quando você conseguir finalmente se recompor, respirar fundo e abrir a porta pra ir lavar o rosto, não vai ter alguém ali pra te abraçar e dizer que tudo vai ficar bem.

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