Coisas banais

“Vou pegar alguma coisa pra comer, tô com fome.”

“À vontade. Fuça aí na geladeira e vê o que tem, acho que sobrou macarrão.”

“Perfeito!”

“Espera, você não vai esquentar?”

“Não, eu amo comida fria.”

“Jura? Dá um pouco aí.”

Quando acabasse, ela olharia para trás e saberia que aquele, exatamente aquele, fora o momento em que se apaixonara.

Tentou lembrar de outros (ela já tivera muitos amores). Nunca era uma coisa só: um beijo, uma transa. Era sempre o antes ou o depois, o estar abraçado, os arrepios, o sentir tanta falta mesmo enquanto se fala. A pungência de um olhar no quarto escuro e dos corpos sem tocar. Os momentos mais íntimos ou os mais banais, que fazem nascer ou morrer o amor, que traçam de uma hora para outra a linha dos sentimentos.

Ela se lembraria de tudo isso e mais. Reescreveria toda sua história através desses começos e fins, e ficaria mais atenta.

Quando o próximo chegou, já estava preparada.

“Quer um Trident?”

“Não, obrigado… Na verdade… Eu não gosto muito de mulher que masca chiclete.”

Olhou para o lado e começou a procurar um novo amor.

Novembro

Hoje eu tive vontade de você aqui pra ser triste em conjunto. Às vezes é bom compartilhar tristeza, porque ela ganha um pouco do peso do mundo e, de algum modo, fica mais leve. Mas ela nunca fica leve demais, ou deixa de ser sincera. Aliás, o papel da tristeza é esse mesmo, aproximar a gente do chão, da terra, do centro. Mas hoje as pessoas acham que tudo é doença e dá-lhe remédio, parecem não entender quão saudável é a gente se reaproximar da gente mesmo. Ficar leve demais faz a gente voar longe e deixa se perder – e pra achar o caminho de volta? Esse sim é o problema.

Quebrei um espelho. Não em pedacinhos – quando fui ver se a maquiagem estava borrada, me deparei com trincos que pareciam gravados na minha pele – mas era só na dela, aquela do outro lado. Ela não gosta muito de mim, às vezes se distancia, não a reconheço. Hoje rachou. Como quem diz, “cansei.”

Dizem que são sete anos de azar e eu me perguntei quando veria você de volta. Será que é fácil sair assim? Você rachou nossa imagem também? Andando na chuva, me lembrei de quando você segurava o guarda-chuva e ria enquanto eu corria e me molhava. Não tive coragem. Queria companhia e o silêncio da minha solidão pesou demais. Tem dias em que é mais difícil, que por mais que eu me procure algo falta. Compartilhar tristeza ajuda a gente a se encontrar.

O guarda-chuva me protegeu até em casa. Joguei o espelho fora. Era o medo de me perder no vento como ela se perdeu na vida.

Ano novo, parte II

Nunca me vi escrevendo uma carta. Sério, você me conhece – não sou esse tipo de pessoa. Mas você é a segunda pessoa a me dar essa vontade, então acho que isso diz alguma coisa. Por isso, escrevo.

Como foi o ano novo? Se embebedou lá na praia? Comemorou por mim? O meu foi bom, com a família – Bárbara trouxe o namorado (ou rolo, não sei bem dizer, na real pra mim ele é só um velho amigo da família) novo, Clara passou com a gente pela primeira vez em anos e Nívea foi, bom, Nívea.

Mas por que eu tô falando sobre isso? Lá vou eu me enrolando, se não me controlo daqui a pouco começo a escrever sobre coisas sem sentido nenhum e você vai me achar uma idiota. Por que isso sempre acontece quando estou falando com você? Eu normalmente não tenho problema algum em falar com as pessoas, falar o que quero, e é daí que vem essa não necessidade de cartas: pra que escrever se falar é tão mais fácil? (E lá vou eu me distraindo…)

Eu senti sua falta. Ta aí, falei, senti. Tentei falar com você mas as linhas estavam ocupadas, nem mensagem no celular tava indo. Então digo agora, senti, quis falar com você, e meu coração ficou apertado de um jeito todo esquisito desde que deu meia noite até a hora de dormir. Quis você por tantos motivos, e não penso em nenhum pra escrever, o que significa que também te quis por motivo nenhum, e isso me preocupa mais ainda. Como eu posso te querer assim, do nada? Só por causa de um comemoração idiota? Só por que a gente beija alguém pra começar o ano?

Não te dei permissão pra me fazer sentir assim, Bernardo, e por Deus, as aulas terminaram, eu achei que nas férias teria paz, mas a gente continuou se falando (maldita internet) e saindo e por que você tinha que me beijar justo antes de viajar com seus amigos? Fiquei feito louca todas as vezes que saímos esperando você fazer alguma coisa e nada. “Alba, esquece, não vai acontecer,” eu repetia. Não te dei permissão. Aliás, não te dei permissão pra nada, eu te avisei desde o começo. Vou falar muito sério com você agora: eu falei, não falei? Que era pra você tomar cuidado, por que eu não era (sou) muito normal? Ta aí, não sou, sou quebrada e zoada e deveria não ficar encanada com nada disso e eu nunca fiquei antes, sempre era tudo bem normal, se você quiser (puder) chamar de normais os meus padrões, mas é isso.

E ainda te quero.

Um beijo – agora meu,
Alba

Resoluções de Ano-Novo

Aquele masoquismo tá dando as caras novamente. Por que eu não consigo ser mais mulher e querer sem vergonha, sem receios e, principalmente, pelos motivos certos? Por que eu deixo tudo pro último segundo? Juro que vou retomar minhas caminhadas e começar a comer direito.

A mudança dentro de mim

“O importante é haver uma busca pela capacitação pessoal. A mulher tem
que saber que ela também é capaz – os direitos são conseqüência disso.”
Ana Maria Fernandes Yamamoto

Quando menina pequena, Ana Maria adorava andar a cavalo. Na fazenda em que morava com os pais e irmãos, propriedade dos avós maternos, essa era uma de suas atividades preferidas. Só havia um problema: a saia. Não era lá muito confortável passar as pernas por cima do animal quando se estava usando aquele tipo de vestimenta, e a mãe decidiu que seria melhor deixá-la usar uma calça emprestada dos meninos. Por cima desta, a saia novamente. Meninas não podiam usar calça comprida.

Anos mais tarde, morando agora com a família em Poços de Caldas, a garota começou a questionar o porquê de tantas proibições. Não eram só as calças – era trabalhar, morar fora, estudar, andar sozinha, ter escolhas. O Colégio Dominicano no qual estudava moldou nela ideais de igualdade que não a permitiam aceitar a sociedade tal qual lhe era apresentada. Ser mulher definia-se por nãos, e, nos movimentos estudantis político-sociais, a jovem passou a procurar uma maneira de poder dizer sim.

Seus ideais igualitários e seus desejos de poder ter – ou melhor, agir sobre a sua – vontade própria fizeram com que ela fosse vista com maus olhos pela própria família. Tios, irmãos, os próprios pais, achavam suas idéias ousadas demais para uma boa moça. Os conflitos não eram extremos, mas Ana sabia que a única maneira de alcançar seus próprios sonhos era saindo de casa. Ali, ela não tinha voz. Sufocada pelo tradicionalismo de sua família patriarcal, foi embora.

Não foi fácil. Campinas era uma cidade maior, e ela conseguiu um emprego, mas o salário era pequeno e o preço de um teto, alto. Comida, regalia. Lutou, fez amizades, foi pingando seu próprio suor pelo caminho. Conseguiu, afinal, um emprego que a sustentava. Começou a faculdade – serviços sociais.

E então o pai faliu. O Brasil inteiro falia, mas ela se mantinha sozinha. E, de repente, era ela quem mandava dinheiro pra casa, alimentava os irmãos pequenos e arranjava emprego para os crescidos. Era ela quem tornava possível o pão de cada dia – e não porque estivesse com a barriga encostada no fogão, como muitos acreditavam que deveria ser seu destino. Ela simplesmente se tornara dona de seu próprio destino.

Ela não bebia descontroladamente, não era “devassa” nem queimava sutiãs. Mas, agora, Ana podia dar ordens. E as calças, essas nunca mais foram cobertas.

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