Para a garota que se permite escrever

Se eu pudesse te falar sobre qualquer coisa que aprendi no meio de tantas histórias tortas no meio desses caminhos, seria que, por mais que tentem nos dizer o contrário, estar entediada com a vida é uma coisa boa: significa que você não se conformou.

O tédio é perigoso quando disfarçado de monotonia, ali na rotina; quando deixamos ele ficar calado, sem nome, no passar dos dias; nos costumes que ninguém aguenta, mas que dão trabalho de mudar, então ficam; nos prazeres que se tornam obrigação; na educação que faz sorrir e cala as palavras que nasceram pra sair, que amordaça o que há de melhor dentro de nós.

Mas quando você sente o tédio, quando você se permite exprimi-lo e o transforma em vontade, ele se torna força criativa, se torna mudança. Ele te permite procurar, e faz doer cada vez mais a conformidade.

E a tristeza, essa que insistem em ver em você, também não é ruim. A gente nunca está tão vivo do que quando dói.

Estar longe dá uma vontade louca de viver e parar no tempo simultaneamente. Viajar, sentir, parar e ficar anestesiada, em casa, deixando o tempo correr lá fora enquanto eu me tranco em mim mesma. No meio desse turbilhão, uma das melhores coisas que acontece é doer.

Quando eu fico realmente triste, isso me traz pro chão. Eu choro aquele choro entrecortado, que te impede de respirar, arde os olhos, embaça o mundo, dói a cabeça e rasga a alma. Tento chorar baixo pra ninguém ouvir, enquanto quero chorar alto e me esvaziar.

E aí acaba. E eu me sinto viva.

Não deixe o seu tédio calar, permita-se sofrer. E continue escrevendo com essa honestidade que faz tão bem.

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Eu não gosto quando você fala que me ama. Não quando importa. Falar eu te amo demais é coisa minha, e eu sei que não é sua. Quando você fala muito, estranho. É pra você falar pouco, porque você é assim e esse foi um dos motivos desde o começo pra eu te amar.

De algumas coisas eu lembro muito bem, principalmente do começo. Aquelas que, mesmo se acabar um dia, eu vou guardar com carinho no cantinho das memórias especiais demais pra manchar de dor. A música no fundo e eu tentando te distrair do filme. A gente deitado e eu te olhando e pedindo em silêncio pra dar certo. Você aparecendo na minha porta com uma rosa. A gente no escuro, com sono, e de repente eu desabo e você me abraça e dali vem o primeiro eu te amo, e você me pede desculpas por todas as vezes que vai me machucar (foram algumas, mas eu te machuquei também e, ei, eu te amo). E dali vem a nossa palavra.

Outras eu lembro assim, quando paro pra lembrar – elas me fazem sorrir. A nossa primeira viagem de carro, lembra? Não a primeira, mas a primeira só os dois, e aquela sensação bizarra de frio na barriga por ter que passar tantas horas com você sem saber o que dizer. Uma festa e uma garrafa de bebida. Uma festa e um saquinho de pipoca. Tudo isso foi antes, e de repente existia um “antes”. De repente existia um momento em que você não era meu, e um momento em que você passou a ser. Que estranho.

E no depois tem tanta coisa também… Rodar a cidade atrás de uma farmácia aberta, jogar videogame até cair de sono, ler livro em voz alta, fingir ser irmãos pra tentar entrar na faculdade, o fatídico dia seguinte e encontrar sua empregada de manhã, te encontrar na rua sem querer indo pro trabalho, o melhor jantar surpresa do mundo (eu ainda sonho com aquela comida), roubar suas roupas, montar uma estante, fazer parte de um filme, te ter aqui vivendo essa minha vida nova. Esqueço e lembro de um monte e queria ter um jeito de guardar tudo isso num lugar mais seguro que aqui, mas o único jeito que eu conheço é escrever, então eu escrevo.

Você ainda me faz sorrir quando eu estou cansada.

Perguntas pendentes

1. Que esforço?

2. Que palavras?

3. Que motivos?

Favor preencher as respostas com letra legível.

Memórias silenciosas

Queria ter aproveitado melhor nosso tempo. Ter te conhecido antes, ter sido mais curiosa. Todo mundo sempre tem histórias, eu devia ter pedido pra você me contar as suas. Aquelas histórias que eu sempre ouvi dos outros sobre você – qual era a sua versão delas? Queria ter aprendido mais. Mas enquanto a gente brinca com as flores, ninguém nos conta que talvez devêssemos sentar lá na sala um pouquinho e conversar, porque logo logo ela estará cheia de um esquecimento silencioso, e a única memória será daqueles rostos e nomes dos que já se foram.

E quando ela se for também, você quase não se lembrará dela. Apenas da sombra que restou.

little stars come out of you

Obrigada por me fazer sorrir quando eu estou cansada.

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