O cinza das rosas

That’s the problem with fireworks. They fade away pretty quickly. (Meg
Cabot)

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro em que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas. Para Rosa, acabara com uma cigarrilha o amor que com uma delas começara.

Encontraram-se por acaso, dois estranhos abrigando-se na noite gelada, fugindo de uma festa na qual deveriam, mas não queriam estar. Ele de casaco escuro, fazendo-se notar apenas pelo ponto luminoso entre os lábios. Ela de carmim, saltos intrusos pontuando o silêncio negro. Ele rira da pretensão daquela desconhecida, que lhe perguntara, chocada, se ele fumava, como se o conhecesse há muito tempo; divertira-se com as opiniões formadas a respeito de tudo. Ela corara, sorrindo. Ele não vira. Começara ali. Terminara um inverno depois.

Fora quase como um espelho. Enquanto Fernando exalava a fumaça de mais uma de suas cigarrilhas pardas, infestando o ar da pequena sala limpa e organizada da namorada, Rosa o observara atentamente. Seu coração já não batia mais rápido ao vê-lo, os gestos rotineiros pareciam-lhe estranhos e ela não mais achava graça quando ele lhe oferecia o vício antigo, mesmo sabendo que ela não o suportava. Ela já não sentia nada, tão de repente quanto sentira tudo naquela noite.

O pequeno cilindro de tabaco jazia esmagado agora no cinzeiro de vidro. Rosa mexia nas pontas do cachecol colorido que lhe enfeitava o pescoço, as unhas perfeitamente arrumadas – tão pequenas e igualmente arredondadas nas extremidades, cobertas uniformemente por um esmalte claro, verniz para as imperfeições – a distraí-la do olhar desesperado do homem à sua frente. Os olhos castanhos haviam perdido o ar brincalhão que sempre os habitara e pareciam repletos de descrente desesperança, como se a tentar assimilar o que ela dissera há alguns minutos. Talvez quisesse acreditar ser tudo uma brincadeira.

– Por quê? – perguntou, com a voz trêmula.

Seria justo dizer-lhe a verdade? Que não lhe queria mal. Apenas… Não o queria mais. Pois quem pode atrever-se a entender o amor, transformá-lo em palavras – tanto seu começo quanto seu fim? Teria a ousadia? Optou por uma mentira branca. Desculpas disfarçadas de verdade a fim de manter a ordem das coisas.

Viu-o desaparecer atrás da porta de madeira escura; ele não notara que as mãos dela tremiam, nem que os olhos verdes imploravam-lhe algo. Sentiu as unhas cortarem-lhe as palmas das mãos, espinhos a perfurar-lhe a carne alva para impedir a saída do grito que lhe entalava a garganta. Se ao menos ele tivesse olhado para trás… Tudo que ela queria, abandonada à sua própria solidão, era que ele a fizesse sentir. Algo. Novamente.

O amor acaba, mas não deveria. Permitiu-se chorar, vazia, sozinha. Rosa desbotada em meio às almofadas pálidas. E o cheiro da cigarrilha impregnado no jardim.

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Sobre Lívia Furtado

Começou a estudar jornalismo e desenvolveu cada vez mais seu amor pelos livros. Começou a fazer reportagens, brincou de editar livros, foi parar na Flip e descobriu que, realmente, é a literatura seu grande amor.

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