Outono

Era o começo do outono, a estação da espera. O intervalo da vida. E ali estava ela, deitada, pálida e imóvel. Artemis e seu outono.

As folhas passavam como borrões amarelados diante de meus olhos, atrapalhando a imagem alva na qual me concentrava. Levei a mão de veludo preto à minha face, em um gesto automático e inútil, para tentar enxugar as lágrimas de saudades que me escapavam. O mesmo vento que levava a folhagem trouxera a chuva, encobrira o céu. No vidro, meu reflexo quebrado pelas gotas que insistiam em cair. Ricocheteavam e explodiam, fragmentando minha visão. Preto, branco, cinza e o arroxeado dos lábios.

O ritmo da chuva começou a esmorecer e percebi que já estava sozinha ali há muito tempo. Todos já haviam ido embora e eu também deveria ir, para que o enterro propriamente dito pudesse ser realizado. Não me movi. Só Artemis poderia dar-me as respostas que eu tanto buscava. Precisava saber se estava fazendo a coisa certa. Precisava saber se estava fazendo a coisa certa antes de despedir-me e tomar meu caminho como todos os meus irmãos haviam feito.

Éramos quatro. Nunca entendi o porquê – e isso deveria ter bastado para que os cientistas percebessem que todo o experimento fora um grande fracasso desde o início. Eu deveria entender tudo, com minha inteligência excepcional, mas nunca compreendera porque não três, ou cinco, ou sete, ou algum número com um significado especial qualquer. Quatro. Zeus, Artemis, Apolo, Atena. Quatro seres humanos geneticamente perfeitos. Quatro deuses artificiais do século XXII.

Era um projeto ousado. Mil anos de aprimoramento em três. O “acelerador genético” inventado fez seu trabalho corretamente, e nós nascemos. Capacidade intelectual muito acima do que jamais fora visto, saúde “de ferro”, sentidos aguçados, beleza intocável. Os novos deuses guardados do mundo até os vinte anos. Com um futuro grandioso pela frente. Quatro. Agora éramos três, pensei amarga.

Zeus, o mais velho, embrenhara-se na política assim que fora “liberado”, com grande sucesso. Destacara-se, é claro – perspicaz, audacioso, adorado. Logo seria presidente, os cientistas estavam maravilhados. No entanto, os planos começaram a desandar quando, no ano seguinte, Ártemis tentou levar uma vida normal, sem grandes ambições. Quem lhe dera o direito de desperdiçar seu dom? Que fosse salvar o mundo, não trabalhar ou formar família.

Sorri. Eles nunca entenderiam. Pois o que nunca fora previsto, o que nenhum geneticista conseguira dominar, era a nossa humanidade. Sentimentos, ações, pensamentos. Éramos tratados como divindades por nossos criadores – a ironia! Nunca fomos mais que homens.

Artemis, de branco e branca, calma. O outono de nossas vidas. Tão apropriada. Só na morte encontrara refúgio. A cerimônia fora silenciosa, quase vazia, como ela teria gostado. O enterro particular de uma vida pública.

Apolo não comparecera. Conhecia seus motivos, mas ainda assim doía-me sua ausência. Eles haviam nascidos juntos, vivido juntos. Ligação especial que apenas irmão gêmeos possuem. Mas Zeus não o deixaria entrar. Culpava-o pela morte de Artemis; além disso, não se podia permitir – ele, o novo presidente, recém-eleito – ser flagrado com um criminoso.

Artemis buscava a normalidade, Apolo, a fama, pelo caminho mais fácil. Não lhe fora difícil formar uma quadrilha, invadir sistemas, arquitetar assassinatos. Sabia ser “superior” e aproveitava-se disso. Não era muito diferente de Zeus – caminhos diferentes para um mesmo fim. E minha irmã se matara. Pela mídia, pela traição, pela pressão. Desistira. Entendera.

Esperava-se que eu me juntasse a Zeus. Que provasse a experiência um sucesso. Dois haviam falhado; dependia de mim, agora com vinte anos, livre, superar as expectativas.

Mas a vitória jamais viria. Porque o fracasso nascera conosco, nascera nos nomes, nascera no número. Não éramos deuses, nem nunca seríamos; a força física era proporcional à fraqueza do espírito. Envelhecíamos sem mostrar, podres interiormente. Nenhum exame indicava, ninguém desconfiava. Mas nós sentíamos. Alguma coisa dera errado.

Orgulho, ambição, crueldade até. Almas corrompidas que nos matariam por dentro. Zeus queria governar, explorar, tomar para si. Apolo visava a dinheiro, fama, poder. Artemis sucumbira à própria fraqueza. E eu resistia.

Perguntei-me novamente se estaria agindo corretamente. Minha irmã matara a si mesma. Eu mataria a nós três. A carta chegaria à comunidade científica e aos jornais, explicando nossa origem. Nossos defeitos. Nossos objetivos. Daria luz ao povo. Falsos deuses deveriam ser queimados. O inverno aproximava-se. E não haveria mais estações para nós. Até logo, Artemis.

Mais uma redação que me parece tão adeqüada. Pra terminar maio, pra oficializar o outono.

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Sobre Lívia Furtado

Começou a estudar jornalismo e desenvolveu cada vez mais seu amor pelos livros. Começou a fazer reportagens, brincou de editar livros, foi parar na Flip e descobriu que, realmente, é a literatura seu grande amor.

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