Em círculos

Olhava a folha como se a esperar respostas, o lápis brincando solto por entre seus dedos, quando percebeu que as fibras brancas não lhe diriam nada e que o pensamento já estava, na verdade, muito longe das idéias cadenciadas as quais ela deveria tranformar em dissertação. Não era de agora esse deixar para depois sempre reservado por ela às tarefas obrigatórias – parecia mais uma constante incômoda da qual ela não conseguia livrar-se, por mais que tentasse. E, verdade seja dita, não tentava muito. Dizia que sim, é claro que tentava, mas sua mente sempre lhe gritava o contrário e rebelava-se contra essa organização falsa, essa vontade abstrata, muito mais desejo que verdade. No fundo, ela pegava livros e ocupava os pensamentos com enredos e personagens e idéias e ideais ao invés de preocupar-se com as contas, a coerência, a coesão. Procrastinação indelével e reconhecida, seus dias – não adiantava se dizer o contrário.
Pois sim, então seu cotidiano afetava-se com isso. Mas agora pensamento maior lhe assomara: quanto havia deixado passar, não no hoje, mas no todo, graças a essa inacção de seu somatório de dias? Quanto será que lhe afetara, sem que ela percebesse, essa decisão de não decidir até que fosse tarde demais?

Sabia não ser pouco.

Vieram-lhe à mente pequenos momentos. Palavras não ditas, resguardadas em seu imaginário quando o depois parecia tão mais agradável. Depois, depois. Não falava, não ouvia. Escrevia e rasgava – depois contaria, mandaria, revelaria. Lembrou-se dos papéis amassados nas gavetas, das fotos escondidas, dos “não” impensados, dos “sim” adiados. Lembrou-se dele. Aquele ao qual ela pedira tempo, na esperança vã de que o pra sempre realmente existisse, pois assim o tempo seria todo o do mundo. Não teve, não fez. Partiu.

Sentiu a ferida antiga e o gosto amargo na boca. Lembranças traidoras, não lhe dera permissão para voltar! Pois não se esforçara tanto para afundá-las entre sensações falsas e o instantâneo presente? Deixara-as de molho para análise posterior, e agora o pensamento gatilho as liberara. Traidor. Traidoras.

O que estaria perdendo? Hoje, agora, nesse exato instante, o que não estava fazendo, quais eram os cenários escondidos aos seus olhos por aquele universo de escolhas não tomadas?

Queria que não fosse tarde demais. Queria poder dizer-lhe, “Agora sei, agora tenho certeza, vem.” Queria que ele não amasse a outra mais do que jamais a amara.

Queria que ela ainda estivesse ali para que isso lhe impedisse de pegar o telefone e telefonar para ele. Não estava.

Discou os números devagar e pensou nos brincos, representação metálica usada por ela em datas especiais. Os círculos os quais eles traçavam a cada ano, ciclos completos e com intersecções tais que jamais poderiam ser separados sem que pedaços essenciais se rasgassem. Ela os usaria hoje, presente de uma época em que ela ainda lhe era o mundo inteiro e a outra era apenas personagem de histórias alheias.

Discou os números e esperou. Eram dois incompletos, duas meia-luas que talvez conseguissem completar-se caso não fosse tarde. Caso ele ainda estivesse disposto. Pois Bárbara não era Rosa, e, na falta de amores inteiros, ele estava ali.

Foi estranha a experiência de escrever misturando realidade com ficção, mas é algo com o qual devo me acostumar. Espero que o resultado tenha ficado minimamente bom. Melissa, não esqueci da promessa – tentarei fazer o próximo post ainda esse mês, e ele conterá a explicação a respeito do layout.

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Sobre Lívia Furtado

Começou a estudar jornalismo e desenvolveu cada vez mais seu amor pelos livros. Começou a fazer reportagens, brincou de editar livros, foi parar na Flip e descobriu que, realmente, é a literatura seu grande amor.

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