Problema particular

(…) parece que você quer saltar de dentro de você mesma, se libertar do próprio corpo e da vida estreita que escolheu (Martha Medeiros, Tudo que eu queria te dizer)

De que será que é feito o mundo, pus-me a pensar em um daqueles limbos em que o pensamento é mais forte, e os sentimentos são plenos, naquele não atuar pacífico e ativo do corpo contra a mente. Das grandes revoluções, ou das pequenas? Por tanto tempo acreditei nas mudanças da sociedade, nos grandes atos heróicos e desiludi-me com a falta de heróis. Quis ser heroína e entristecia-me ser… eu. Pálida e comum garota normal perdida entre as tantas outras garotas pálidas normais iguais.

Mas para sobreviver-me resolvi que não, não há de ser assim, pois são as menores, são as pequenas, são as rachaduras que rompem o maciço.

Acordei revolucionária – e não fiz a redação da semana.

Senti-me mal pela relegação das responsabilidades, mas que fazer se minha mente recusava-se a obedecer a estrutura pré-estabelecida? E decidi que não importava – a mentira era tão mais decente -, decidi que faria enfim algo que desse na telha sem sofrer pelas futuras conseqüências, decidi jogar para o alto uma migalha de obrigação, decidi não escrever, decidi guardar os pensamentos pra mim, decidi, decidi por fim. Senti-me pior pela insignificância da decisão, por não ser capaz de afetar nada com o meu não-fazer. Mas foi meu, foi minha, desprendi-me de algo, sofri ansiedade e êxtase no silêncio da minha incapacidade e resolução.

Eu sou incompleta, eu me indago, eu me quero descobrir antes de descobrir o mundo, eu quero me revolucionar, eu quero me entender. Sou egocêntrica e voltada para mim pois só sei ser assim, e só assim sei ser. Se desfoco-me para o exterior perco o chão, a linha, perco-me, preciso enxergar-me plena e ainda não descobri como. Talvez ele não haja. Talvez eu seja mesmo incompleta, não duvido, mas não descansarei até descobri-lo. Preciso do todo, sei bem, mas preciso-me acima de tudo, preciso-me para sentir e para continuar, preciso-me nem que para tirar um pouco de mim mesma, esse tanto que me sufoca quando não consigo esvaí-lo em palavras. Esvair-me.

O mundo é feito de egocentrismos e revoluções particulares. Ou talvez essa seja apenas eu, a atriz principal de meu próprio teatro.

—-

O loiro pela promessa, o chiclete pela fragilidade, o rosa pela feminilidade, as cores pelas cores. O fundo pela calma, uma pattern pela simplicidade, a outra pelos entremeios, os olhos pela dúvida, o problema pelo particular. O espelho do espelhos, dos textos que são toda eu.

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Sobre Lívia Furtado

Começou a estudar jornalismo e desenvolveu cada vez mais seu amor pelos livros. Começou a fazer reportagens, brincou de editar livros, foi parar na Flip e descobriu que, realmente, é a literatura seu grande amor.

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