A dona da história

Relatividade. A palavra, tão grande para sua boca de criança, parecera-lhe, à época, assustadoramente atraente. Que segredo do obscuro mundo adulto esconderia? Re-la-ti-vi-da-de. Lembrava-se de ter pego com as mãozinhas doces o velho dicionário, páginas gastas e cheiro de vida – pertencera à sua mãe e agora era dela, pequena relíquia. O significado lhe escapava, porém, confuso demais.
O livro continuava ali, na escrivaninha enfeitada com estampas das mais diversas épocas, ao lado do envelope branco. Este, no entanto, era novo. Liso, limpo. Sem remetente. Só um destino. Chegara pela manhã, e ela o encarava desde então.

O papel em branco que ele guardava fora retirado, estando agora entre os dedos compridos e finos da mão igualmente alva. O único contraste naquela palidez eram as cores das fotografias antigas. Uma, em especial, chamava-lhe a atenção. Viera anexa ao papel; ela, Sofia, arranhões nos joelhos nus, sorriso meio banguela, em frente a uma trilha que penetrava o bosque às suas costas. Devia ter dez anos.

Fora quando compreendera a relatividade, essa viagem. Perdera-se dos pais na escuridão das árvores, e cada minuto pareciam horas. Depois, à noite, no pequeno vilarejo em que estavam hospedados, escapara da vista da mãe para encontrar-se com um garoto que lá conhecera. Foi seu primeiro beijo – tímido, casto, seguido por mãos dadas e um sorvete dividido. E o tempo voou.

A misteriosa entrega do correio servira para fazê-la pensar novamente na palavra. Relatividade. Todos diziam que após uma certa idade, os anos fugiam ao alcance das mãos. Ela nunca acreditara; sempre adorara fazer aniversário, mas eles demoravam tanto a chegar! Porém, esta manhã – tarde, aliás, corrigiu-se, levantando os olhos para a luz alaranjada que iluminava o quarto lilás -, aquela foto fora-lhe entregue, e, perdida em pensamentos, a garota percebeu que era como se tudo tivesse acontecido ontem. Quando é que ela deixara de acompanhar o tempo de sua própria vida?

Ganhara também um disco, coleção de músicas antigas. Cada uma era-lhe familiar a seu jeito, trazendo alguma memória escondida, algum momento de seus dezoito anos de experiências. Era incrível quantas coisas já fizera e simplesmente esquecera. Será que se esqueceria um dia desse momento, a contemplação de uma existência através de uma foto, um disco e uma folha em branco?

Intrigava-lhe, a última. Dava-lhe um senso de futuro, em oposição aos outros dois itens. Era a que mais lhe agradava, a que menos compreendia. Assustava-lhe quase. Imensidão branca que ela temia manchar, mesmo sabendo que iria. Que deveria. Contemplou-a por mais alguns instantes – seriam horas? -, antes de pegar uma caneta vermelha e começar a escrever. Talvez ela mesma tivesse mandado os presentes, sua memória pelo visto não era mais confiável. Não importava. Cabia à garota, e apenas a ela, decidir o que – e como – escrever. Guardaria no papel aquele momento. E, quem sabe, não faria uns tantos outros.

Parabéns pra mim.

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Sobre Lívia Furtado

Começou a estudar jornalismo e desenvolveu cada vez mais seu amor pelos livros. Começou a fazer reportagens, brincou de editar livros, foi parar na Flip e descobriu que, realmente, é a literatura seu grande amor.

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