Imagens

– Às vezes a gente se sente mais livre para falar com um estranho do que com as pessoas que conhecemos. Por que será?
– Provavelmente porque um estranho nos vê como somos, não como deseja achar que somos.
(A sombra do vento, Carlos Ruiz Zafón)
 
Terapia é uma coisa que sempre me pareceu invasiva demais. Você senta e começa a revelar tudo da sua vida pra um completo desconhecido, seu passado, medos, desejos, preocupações, tudo que te faz e completa. Eu não me revelo tanto pra quase nenhum dos meus amigos, quem dirá pra uma mulher calada, sentada à minha frente, com ares de quem vai julgar (apesar de tentar aparentar que não) cada coisinha que digo, e muito provavelmente achar infantis todos os meus problemas?

Por essas e outras nunca entendi como minha irmã (e tantas outras pessoas) podia gostar tanto assim de fazer terapia. Sempre considerei um vício meio estranho, ter que despejar tudo em cima de um desconhecido por não conseguir fazê-lo com quem tá ali todo dia do seu lado.

Até que eu descobri as diferenças entre a linha freudiana e a junguiana. Mas esse não é o ponto desse post.
(Eu não sei qual o ponto do post porque são três da manhã e estou morrendo de sono)

Compreendi, em uma conversa que tive com minha irmã dia desses, que a terapia é uma maneira de colocar as coisas em perspectiva – mais ou menos como faço quando escrevo. E que o que escreveu Zafón se aplica exatamente a isso: o psicólogo é um desconhecido que (teoricamente) não tem uma imagem pré-concebida de você, e consegue ver seus problemas de um modo… quase objetivo. O que é uma coisa que eu já sabia há muito tempo, mas ficou completamente claro nessa conversa, porque percebi como temos mesmo uma imagem das pessoas na cabeça e como é díficil mudar isso.

Falei com a minha irmã sobre sexo.

Entre mulheres, falar sobre sexo já não é uma coisa tão natural assim. Nunca entendi exatamente o por que – sim, sociedade e tabus e blabla, mas era de se esperar que certas coisas já tivessem sido superadas -, já que nunca tive muitos problemas com isso, mas depois de várias tentativas frustradas de aprofundamento de conversas, acabei por me contentar a falar sobre isso apenas com amigos homens. De repente, sem mais nem menos, me vi em uma dessas conversas com minha irmã – quebrando velhas idéias e falando com muito mais naturalidade do que com qualquer outra amiga (talvez por ela ser mais parecida comigo do que eu esperava) -, e aprendi muitas coisas.

Querendo ou não, formamos imagens sobre as pessoas e sobre nós mesmos. A figura da irmã, no caso, representava todo um histórico de pequenas repressões, falta de comunicação e preconceitos individuais – de ambas as partes. Falar de forma tão natural com ela, revelando lados que nós achávamos não existir uma na outra (ou que preferíamos ignorar) me fez entender muito e deixar certas velhas idéias de lado. Tirou de mim uma imagem pré-concebida, e sei que fez o mesmo com ela (“Eu sempre achei que te faltava algo pra ser escorpiana. Agora eu vi que você é mesmo escorpiana dos pés à cabeça!”). Os problemas podem ser mais profundos do que aparentam, ninguém é assexuado, algumas neuroses são mais antigas e enraizadas do que possam parecer. E você pode surpreender e ser surpreendida com certas inseguranças e dúvidas.

Talvez se fizéssemos mais terapia, perceberíamos quanto esse tipo de conversa é necessário com mais freqüência. Ou, se tivéssemos com mais freqüência conversas assim, precisássemos menos de terapia. Junguiana ou não.

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Sobre Lívia Furtado

Começou a estudar jornalismo e desenvolveu cada vez mais seu amor pelos livros. Começou a fazer reportagens, brincou de editar livros, foi parar na Flip e descobriu que, realmente, é a literatura seu grande amor.

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