Chega de saudades

Entre um chá mate, Mombojó e o relógio tique-taqueando a madrugada, andei pensando em atrasos e espera. Ironicamente, sobre esse assunto quero escrever há tempos – até agora, enrolei. Atrasei. E estou esperando até agora as idéias se organizarem na minha cabeça.

Minha mãe tem a péssima mania de sempre se atrasar para um compromisso – e não avisar. Sempre penso, “Por que não liga pra dizer que não vai chegar na hora marcada?” e acabo irritada. Foi numa dessas que comecei a refletir sobre o assunto, e percebi que não é só esse tipo de atraso que me irrita – são todos.

Há quem goste de atrasos? Eles significam que há algo de errado – a hora certa passou, e quase sempre isso não é um bom sinal. Ou bom resultado.

É alguém que não apareceu nem ligou, é a entrega que não veio, é a menstruação que não desceu, é o momento que passou. É um descaso implícito, é o mau funcionamento, é o imprevisto, é o não dito. O não feito.

Pior do que o arrependimento pelo feito é o arrependimento pelo não feito. É quando o atraso se torna pior ainda: aquele momento não volta mais. Ou talvez volte, mas jamais será o mesmo. Você nunca vai saber o que poderia ter acontecido. Se você tivesse se jogado de cara, tivesse dado um beijo, tivesse dito o que estava preso, tivesse dito adeus à dignidade, tivesse se arriscado.

Alguns meses. Um dia. Um minuto de atraso. Medo. Preguiça. Insegurança.

E sabe toda aquela espera? Foi em vão. Só te resta esperar mais um pouco. Ou muito.

Ela disse que não queria que eu fosse ao aeroporto. Eu disse meu amor, fica quieta. Eu vou. Eu fui. Com um trânsito do inferno, com a irritação aflorando, com comida na bolsa, livro, texto, com a previsão de três metrôs e dois ônibus na volta. Eu fui. Por ela. Porque era um atraso que eu não podia me permitir.

Eu fui, e me dei inteira ali naquela uma hora e meia. Falei, calei, ri, chorei. Sozinha e com ela e com os outros, mas principalmente com ela. Às vezes a gente não se pode permitir esperar.

Atraso pode ser raiva, irritação, descaso, desimportância, de um lado ou de todos. Mas o pior, o pior é o atraso saudade – do que foi ou do que podia ter sido. E desse, sinceramente, eu já cansei.

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Sobre Lívia Furtado

Começou a estudar jornalismo e desenvolveu cada vez mais seu amor pelos livros. Começou a fazer reportagens, brincou de editar livros, foi parar na Flip e descobriu que, realmente, é a literatura seu grande amor.

Uma resposta para “Chega de saudades

  1. Pedro S.

    Não sei contabilizar meus 5 piores atrasos, mas o mais irritante com certeza foi no dia do psicotécnico da auto-escola. Enfim. Eu sou um cara pontual, grazie dio :D

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