Ninguém sabe o duro que dei

Não gosto muito de acreditar nessa coisa toda de destino, predestinação, sua vida está escrita, mas às vezes certas coincidências são coincidências demais para serem completamente aleatórias, e eu fico pensando se algumas coisas simplesmente não são pra acontecer – ou pra não acontecer.

Hoje foi um dia de coincidências. As mais importantes deram-se a partir das sete da noite. Saí de casa atrasada com a minha amiga, o ônibus que tínhamos que pegar quebrou à meia quadra do ponto,  o outro não passava, “Vamos pra Consolação mesmo e aí a gente anda, Lu.” Saímos pertinho do lugar, achamos, 19:30, “Moça, a senha pro filme do Simonal…?”

“Acabou.”

Eu tinha gastado 2,30, ia pagar a passagem de volta e estava no Conjunto Nacional, na Paulista. “A gente já veio até aqui…”

Livraria Cultura, restaurante que não pode dividir o prato, voltamos ao cinema pra eu encontrar meu amigo e avisar que não consegui senha pro filme. De repente aparece um cara distribuindo ingressos, vou esperançosa, “Desculpa, moça, esse era o último… Mas espera. Ei [chama moça do cinema], tem mais aí? Opa, dá dois aqui pra elas.”

O cara era o filho do Simonal.

Diz se não era o destino? Diz se eu não tinha que assistir a esse filme e vir aqui divulgar?

Ele consagrou o “pa tropi.” Quem aqui já ouviu falar de Wilson Simonal? Com certeza, todo mundo já ouviu Simona, ainda que sem saber. Ele ascendeu em uma época na qual cantores negros brasileiros estavam relegados apenas ao samba. Sabendo dominar sua voz e seu público, tornou-se rapidamente o maior cantor de música popular da história do Brasil. No auge do sucesso, na passagem da década de 60 para a de 70, no entanto,  Simonal foi relegado ao exílio artístico após um escândalo mal explicado, no qual o cantor foi acusado de ordernar a tortura de seu contador. Tortura feita por policiais do DOPS. A imprensa se deliciou com o escândalo, e o próprio Simonal, alheio a seu contexto histórico, político e social, fez a bola de neve aumentar cada vez mais, ao declarar-se ligado ao DOPS e ao governo militar.

O documentário, dirigido por Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, traz à tona uma história muito mal contada – e esquecida. Sem pretextos de contar uma verdade absoluta, o enredo vai desenvolvendo-se de maneira envolvente, com um design e produção muito bem feitos e diversos vídeos de época. Depoimentos de nomes como os jornalistas Artur da Távola e Nelson Motta, do humorista Chico Anysio, do produtor musical Miele e dos próprios filhos do cantor, Max de Castro e Simoninha, ilustram a carreira do músico desde seu início até o final conturbado. Retratam um homem simples que se preocupava muito mais em agradar ao público e ganhar seu dinheiro do que em se envolver com política e revoluções, um homem que, ingênuo, teve a vida acabada devido a uma série de erros causados pela falta de senso de contemporaneidade.

Senti falta de depoimentos das pessoas que se voltaram completamente contra o artista à época, depoimentos de cantores mais engajados como Chico Buarque e Caetano Veloso, a maioria dos quais apedrejou Simonal sem pensar duas vezes. Seria interessante ver sua posição hoje em dia, quase 40 anos passados, mas a recusa deles de aparecer no documentário tornou isso impossível.

O mais interessante, provavelmente, foi o comentário de um espectador durante o debate com os diretores ocorrido após a exibição do filme: “Vocês relatam, no filme, como a mídia manipulou o caso, enquanto vocês mesmos evitam qualquer tipo de manipulação, mostrando diversos pontos de vista e versões.” Como o próprio Carlos Manoel disse, os diretores tiveram sim que escolher uma hora o que entraria ou não no documentário, qual era a versão a qual eles acreditavam ser a mais próxima do real, mas ainda assim a pluralidade de opiniões atuais e da época ficou clara. O intuito não é limpar a imagem de Simonal, mas esclarecer fatos que, obscuros até então ao olhar público, mancharam o nome do cantor e relegaram-no ao esquecimento.

Jornalistas, críticos, músicos, brasileiros. Dia 15 de maio, vocês já têm um compromisso.

“Simonal – ninguém sabe o duro que dei” – Brasil, 2008
Estréia:
15 de maio de 2009
Gênero: Documentário
Duração: 86 min.
Diretores: Cláudio Manoel, Micael Langer, Calvito Leal
Roteirista: Cláudio Manoel

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Sobre Lívia Furtado

Começou a estudar jornalismo e desenvolveu cada vez mais seu amor pelos livros. Começou a fazer reportagens, brincou de editar livros, foi parar na Flip e descobriu que, realmente, é a literatura seu grande amor.

7 Respostas para “Ninguém sabe o duro que dei

  1. I.P.A.

    Tô esperando post novooo…

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  2. Como seus posts prendem a atenção!
    Eu nunca ouvi falar de Simonal… mas fiquei curiosa! :S

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  3. Eu acredito totalmente em coincidências. E fico feliz que vc tenha conseguido o ingresso. Tipo, eu moro numa cidade quase ilhada, então nos cinemas daqui vai demorar um pouco pra chegar. E como faço questão de ver no cinema, vou esperar.

    Ontem vi uma entrevista com o Cláudio Manoel, no Altas Horas, falando sobre o filme. Fiquei encantada!

    Antes que esqueça, você escreve muito bem.

    Beijocas!

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  4. nana

    Ohhh! o_o Vou assistir, vou sim!… Isto é, se sair aqui em Recife. Nunca se sabe, né… E vc já sabe, né? Se nada der certo na sua vida, vire crítica de cinema. XD

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  5. Seu texto ficou muito bem escrito!
    Nunca tinha ouvido falar nesse documentário e me deu vontade de ver. Isso que não gosto muito de documentários.
    Ah, acho que algumas coisas podem “ter” que acontecer mesmo. Se é destino ou não, já não sei dizer.

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  6. Carletto

    Ok! Muito bem escrito…o inseto da curiosidade me picou…vou procurar assistir o doc para tenter entender algo que nunca ficou muito claro na epoca e p/ mim!
    Parabens

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  7. Pedro S.

    Você ainda me surpreende, mesmo depois de anos de amizade. Leio suas resenhas e me sinto numa revista cult, daquelas bem caras e voltadas ao público rico e famoso.

    Isso é um elogio.

    Quanto à divulgação, bem, parabéns ao filho do Simonal, porque conseguiu. Vou juntar uma cambada por aqui e achar um cinema que esteja passando o documentário.

    Meu orgulho (:

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