Silêncios

Ela estava com o coração apertado. Fazia dias, já. Começara no primeiro da viagem, com alguns silêncios, mas ela sabia que eles não tinham significado real e eram passageiros – os silêncios deles sempre se resolviam. Mas aí houvera aquela brincadeira (e foi um delito, Ludvik, foi um delito), e ela sabia, sabia que as coisas dessa vez não simplesmente se resolveriam. Mas ela não quis ver e negou e abafou com mais brincadeiras (a distância) e continuou. E o ato falho. E o dia negro. E ela não era ela. E não o reconhecia. E acabaram conversando (com distância) e ela se abafou de novo.

Mas ela se conhece (ia). Era uma linha, uma linha esticada prestes a se romper e ela queria machucá-lo de algum modo e usava as palavras e depois os silêncios e aqueles silêncios a matavam por dentro e ela doía. Mais. Mais.

“Eu preciso falar com você.”

Bateu à porta algum tempo depois. Sentou-se à cama.

“Você também tá sentindo que alguma coisa tá errada com a gente?”

E aqueles silêncios.

“Você sabe que sim.”

“Eu só não sei o que é, e isso tá me matando.”

E os silêncios foram jorrando. Mas ela sentia as paredes subirem e a sufocarem porque as palavras dele pareciam adagas e ela não os reconhecia mais e não sabia em que caminho haviam se perdido tanto assim. Ela sabe que grande parte daquilo são suas inseguranças à flor da pele mas não é motivo, não é. Porque ela deveria conseguir encará-lo, insegura ou não. Ela sempre fora insegura. Ele sempre fora seu porto. Mas de repente não era mais certo chorar na frente dele (a ponte quebrada). E ela quer machucá-lo tudo outra vez porque ela dói tanto tanto tanto que seria melhor pegar aquelas adagas e enfiá-las de vez e morrer sair perder-se porque ele não deveria machucá-la assim. Não ele. E ela quer bater-lhe porque está frustrada com tudo e não pode mais chorar porque ele não a abraça mais. E os erros, desvios, enganos, ressentimentos que eles nem sabiam existir. Como se o tempo todo estivessem vendo através de uma fenda e de repente ela se ampliasse e tudo era diferente (meias verdades) e havia feridas escondidas. Por eles. Deles. Ela está sem chão e toda errada. Tudo, tudo.

E aí ele se move e a envolve e ela chora e chora e sente seu corpo desfazer-se ali.

E ela sabe que eles estão no caminho certo outra vez.

(Eles só precisam de tempo.)

Anúncios

Sobre Lívia Furtado

Começou a estudar jornalismo e desenvolveu cada vez mais seu amor pelos livros. Começou a fazer reportagens, brincou de editar livros, foi parar na Flip e descobriu que, realmente, é a literatura seu grande amor.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

1.

3.

4.

  • 14,146 já ouviram
%d blogueiros gostam disto: