Anarquia

Minha irmã e meu cunhado voltam de viagem. Eu fico feliz, estava com saudades, mas há algo de errado porque ainda é dezembro e eles só deveriam voltar em março. Estou usando uma roupa dela porque não sabia que ela ia chegar hoje – quem é que foi buscá-los no aeroporto? – e ela não liga, eu amo minha irmã, mesmo, mas o que é que eles estão fazendo aqui tão cedo? Estou saindo com as meninas, as duas já estão dentro do elevador e eu volto, minha mãe e meu cunhado deitados na cama vendo televisão, por que vocês voltaram? Minha mãe fica brava, a Ana Luiza que tem que decidir te contar, o Fê nem quis me contar sem a permissão dela. Ela chega aérea, meio avoada, sorrindo, o que aconteceu, o que houve? Faço sinal pras meninas que vou demorar, elas descem no elevador. Ela não deixa de sorrir e conta, conta tudo como se não fosse tão grave a não ser quando os olhos tremem e o sorriso ameaça cair mas ela segura. Ele tava em Milão me visitando e passou semanas lá e a gente não saía da cama e cheirava toda semana – cheiravam? – é, coca, a gente cheirava – e o coração batendo mais rápido, o grito se formando – e a gente tava numa festa, num lugar escuro, não via nada, cheirado, e começamos a transar e pegaram a gente e levaram  – você foi presa? – não, eu tava com uma foto de um trabalhinho do meu irmão que tava no primário, minha mãe lá era professora de crianças, e quem é assistente de professora de primário podia ir embora, só por isso eles nos liberaram senão vocês só iam ter notícias nossas daqui há um tempo – e o coração batendo, e o grito – por que, por que, por que, não faz isso, você tá bem, sua idiota, o laço preto de bolinhas brancas colado à bochecha molhada de lágrimas, eu te odeio, não faz isso comigo, sua burra, cadê aquele imbecil, retardado, como ele fez isso com você, cadê, eu vou matar ele – uma tesoura no chão -, não vou matar, não, vou só bater, mas eu odeio ele, não, não.


O coração batendo desgovernado no peito, o despertador toca, ela acorda e volta a dormir.


Um parque de diversões atrás de um shopping, as crianças de escola pública têm um vale para poder brincar, uma criança morre na montanha-russa e a mãe procura os pedaços do corpo na água e os leva pra casa em uma sacola plástica, checo a internet pra saber que horas aquilo aconteceu e um email, descobri que o scrap bêbado de eu te amo na verdade era um vírus, o amor virando epidemia e aquilo me dá um desespero porque todo mundo de repente envia eu te amo e o recebe de volta e aquilo não tem mais significado nenhum, então começamos a jogar um jogo de videogame na tevê e eu tenho que responder perguntas embaraçosas, você está com uma garota, “huum, que salada boa”, o que vem na sua cabeça?, se essa é boa duas meninas podem ser melhor ainda, porque você não come salada e aquilo é uma novidade, e ganho o jogo mas não consigo digitar meu nome, no final fica ririão mas eu sei que sou eu – preciso contar pra Denise que a filha do Renato Aragão se chama Lívian -, preciso ligar pra Selma e marcar uma entrevista com ela e nada, nada de conseguir, ela só chega em casa umas 9:30 da noite mas já tá todo mundo dormindo, não sei quando ela acorda, preciso falar com você, você precisa mesmo ir na aula? Professor, essa é a Lívia de quem eu falei, sim, sou eu, preciso fazer uma matéria sobre choques culturais, é verdade? que interessante, tudo bem, está dispensado, vamos ali pra fora num lugar escondido mas há casais transando à nossa volta e um louco nu na nossa frente que começa a tentar nos agredir e todos lutando contra o louco, ele é forte, muito forte e eu sou contra a violência, mas ele está machucado todos e me tem como refém – papéizinhos amarelos de pistas inimigas são jogados no lugar onde eu estou e caem nos meus olhos – e eu vejo que ele roubou as miçangas da Especiaria – as nossas miçangas não, seu filho da puta! – e as nossas coisas e pego um lápis amarelo, é tudo amarelo, tudo, pego um lápis amarelo e enfio no olho dele e um lápis grafite no outro e o sangue jorra, Pedro, Pedro, Pedro!, vem, mata, Pê, mata antes que ele fuja, quero uma adaga, não dá tempo, usa um lápis, um grande lápis amarelo na garganta.


Já são onze da manhã e ela se levanta.

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Sobre Lívia Furtado

Começou a estudar jornalismo e desenvolveu cada vez mais seu amor pelos livros. Começou a fazer reportagens, brincou de editar livros, foi parar na Flip e descobriu que, realmente, é a literatura seu grande amor.

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