Às vezes é preciso estar aqui

Mi atardecer

Antes de vir para o intercâmbio, eu dizia para a minha irmã que não queria fazer muitas viagens, e que queria fazê-las sozinha. Eu queria conhecer o Egito, a Grécia e a Rússia. Não queria fazer mochilão, não tinha a menor vontade de fazer essas viagens de ficar um dia em cada lugar, não fazia muitas questão de conhecer Paris, Amsterdã e essas outras capitais europeias que todo mundo quer ver.

Quatro meses depois, meu calendário quase não tinha dias livres. Paris foi uma das viagens mais lindas que fiz, com uma companhia maravilhosa (porque depois você aprende que não basta viajar acompanhado, o difícil é arranjar quem esteja no mesmo ritmo de viagens que você). Conheci Bruxelas, que eu pensava ser sem graça e amei, me decepcionei com Amsterdã, viajei pela Alemanha, coisa que nunca tinha passado pelo minha cabeça, fui pra Roma e passei um dia em cidades espanholas, o suficiente pra ver alguns museus e se perder nas ruazinhas de pedra.

Tudo isso foi ótimo. Todas as experiências foram incríveis. Sair dos planos me trouxe coisas boas. Mas no meio disso tudo, é muito fácil se encantar e planejar um milhão de viagens porque tudo está tão perto, é tão fácil, e você tem poucas aulas mesmo. É fácil se sentir sozinha e querer viajar com outras pessoas sem perceber que, talvez, vocês estejam esperando coisas diferentes da mesma viagem.

O problema é que, às vezes, tudo que a gente precisa é a nossa casa e a nossa solidão. Nosso quarto que finalmente tem cara de lar, as ruas que agora são familiares, as janelas enormes com vista pra praça e com o por-do-sol que sempre te faz sorrir. O problema é que é fácil ter 20 anos e querer estar sempre em outro lugar além daquele em que você realmente está. O problema é que, uma hora, você não aguenta mais.

4 dias em Roma. 2 dias em Madri. 8 dias em Portugal. 1 dia em Madri. 4 dias no norte da Espanha. 1 dia em Madri. 8 dias na Inglaterra. 3 dias em Madri. 2 semanas na Rússia.

Esse era meu calendário entre o final de março e o começo de maio. De alguma maneira, eu pensei que ia dar conta. Comprei os bilhetes, planejei tudo, e tive medo de dizer não.

E, ontem, quando cheguei ao aeroporto às 4 da manhã, depois de quase duas semanas viajando praticamente sem parar, virei pra minha amiga, disse “E se eu te dissesse que eu não estou com a menor vontade de viajar e que tudo que eu quero agora é minha casa?” e comecei a chorar.

Sentei no chão, com o corpo inteiro doendo de exaustão e só queria voltar pra casa e dormir, porque viajar tinha de repente se tornado uma obrigação.

Porque todo mundo me dizia que eu tinha que aproveitar ao máximo. E eu esqueci que, talvez, aproveitar ao máximo possa ser só ir ao parque, andar de bicicleta e ler meus textos deitada na grama. Porque, das cidades que eu conheci, foi Madri que tocou meu coração desde que pus os pés aqui em dezembro, é Madri que tem sabor de casa, e talvez conhecer o Guggenheim possa ficar pra depois.

Voltando pra casa no escuro das sete da manhã, debaixo da chuva e com os termômetros marcando 1 grau, eu olhava o Palácio Real e só conseguia sorrir.

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Sobre Lívia Furtado

Começou a estudar jornalismo e desenvolveu cada vez mais seu amor pelos livros. Começou a fazer reportagens, brincou de editar livros, foi parar na Flip e descobriu que, realmente, é a literatura seu grande amor.

3 Respostas para “Às vezes é preciso estar aqui

  1. Pingback: Você é do tamanho dos seus sonhos | Queria te dizer

  2. Padre

    pois é, como dizia meu tio-avo ” a felicidade se acha é em horinhas de descuido”.

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