Dear Patrick

Você não sabe quem eu sou (eu também não sabia quem você era há alguns dias e agora comprei seu livro, olha como as coisas são), mas eu queria te agradecer.

Eu achava que a gente tinha que escrever pros outros. Escrever coisas importantes, que durassem, palavras bem pensadas e grandes histórias. As coisas pessoais, essas são pra gente, pra ficarem guardadas em cadernos e rascunhos de textos que nunca vão ser publicados.

E ai você me diz que as únicas coisas que escreveu que fizeram sucesso são as que escreveu pra si mesmo, não pra outras pessoas, e que pra escrever é preciso achar esse ponto em que simplesmente não importa o que os outros pensam, só o que está dentro, só o que a gente sente e isso é tão, tão difícil.

Eu sempre achei que escrever fosse um trabalho solitário, uma terapia dolorosa que pertence a mim e a ninguém mais. E por isso mesmo nunca achei possível viver disso, ter um livro, ter um público, aliás. Porque não são mais os anos 40, e é como a Ilana Fox estava falando ontem, agora o autor tem que ser artista, pessoa pública, mas e se ele não for isso? E se ele não souber conquistar os leitores a não ser com seus textos, se ele não quiser aplausos e performances, e se ele for recluso, não basta mais mandar seus manuscritos para um editor. Então eu sempre escrevi assim, e nunca gostei do que tentava escrever de outro jeito, e abandonei um pouco os sonhos porque não nasci pra fatos, relatos e objetividade. Pra mim só importa o que é escrito por dentro, aquelas palavras que gritam tão alto e me deixam louca e eu tenho que botar pra fora. Mesmo assim eu tentei, tentei ser útil e relatar viagens e ver palestras sobre economia e projetos, e algumas coisas me matavam de tédio e outras eram completamente interessantes pra mim, não pra escrever notícias, mas ainda assim eu tentei. “I’m gonna dream little, tiny dreams.” Mas sabe o quê? A biblioteca de Birmingham não grita pra mim, e eu não aguentei mais e saí correndo e obrigada. Você grita, suas palavras gritam, e obrigada por me fazer entender isso.

Eu não conseguia entender por que as pessoas gostavam dos meus textos mais íntimos e dolorosos, e ninguém ligava pra aqueles que eu escrevia com algum sentido de utilidade. É que se não é interessante pra mim, por que vai ser pra outras pessoas? E ouvir essas palavras vindas de você me fez perceber que talvez eu não tenha nascido pra ser prática e clara, mas que talvez pra alguém seja útil, ou bom, ou reconfortante, ou o que seja ler essas coisas tão difíceis de expressar que eu luto pra por em palavras achando que ninguém vai ler.

Obrigada por retirar de mim o peso da utilidade, porque pra escrever só posso suportar o peso de mim mesma e buscar a leveza pra continuar.

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Sobre Lívia Furtado

Começou a estudar jornalismo e desenvolveu cada vez mais seu amor pelos livros. Começou a fazer reportagens, brincou de editar livros, foi parar na Flip e descobriu que, realmente, é a literatura seu grande amor.

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