Elogio fúnebre

Ninguém avisa a gente da importância dos rituais.

A gente vê, é claro, a vida inteira: há rituais para tudo. Para o nascimento, para a entrada na vida adulta, para a união amorosa – para cada etapa da vida, há um rito de passagem.

Ninguém avisa a gente que os rituais existem por um motivo, e que sem eles é tudo muito mais difícil.

Há um trecho em A Terra Inteira e o Céu Infinito, romance de Ruth Ozeki, em que uma das protagonistas descreve em detalhes todos os passos do funeral de uma monja budista. Como ela tem que escrever um último poema antes de morrer, como ela se deita, como é envolta em um túnica branca sem um único nó para não ficar amarrada a essa vida, como tudo tem que ser feito de trás pra frente, como é o banho, como são as rezas, como é a cremação, que objetos se escolhem para enviar ao outro mundo, como se guardam os ossos. A outra protagonista, ao ler isso, se arrepende de não ter feito um funeral para a mãe.

Eu me arrependo de não ter feito um funeral para nós.

Talvez ritualizar o fim tivesse facilitado as coisas. Talvez tenha faltado um pouco de solenidade, de tradição e de cerimônia para ajudar a alma a entender que, de fato, acabou. Que morreu o amor e que os mortos não voltam, nunca. Eu queria ter feito um elogio fúnebre a tudo de bom que foi, e cremado e jogado no mar tudo que passou, quem sabe assim queimando também dentro a mágoa por todas as feridas que a gente mesmo criou.

Talvez, se eu tivesse escrito um último poema, eu nunca mais quisesse escrever sobre nós. Talvez, se eu tivesse chorado por alguns dias, eu não tivesse que fazer tanto esforço para controlar crises de choro no trabalho. Talvez, se eu tivesse tomado um banho ao contrário, não parecesse tudo de cabeça pra baixo. Talvez, se eu tivesse envolto meu corpo numa mortalha branca, não estivesse presa ainda a algumas lembranças. Talvez, se eu tivesse gritado, batido em algo, quebrado vasos, surtado de raiva, eu não quisesse te ferir quando lembro das palavras que você jogou contra mim. Talvez, se eu tivesse juntado os presentes, roupas, fotos e cremado toda memória física daqueles trinta e seis meses, não fosse tão difícil aceitar que agora você não faz mais parte da minha vida nem eu da sua e tudo bem. Talvez, depois disso tudo, fosse mais fácil ver você mentir pra mim.

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Sobre Lívia Furtado

Começou a estudar jornalismo e desenvolveu cada vez mais seu amor pelos livros. Começou a fazer reportagens, brincou de editar livros, foi parar na Flip e descobriu que, realmente, é a literatura seu grande amor.

Uma resposta para “Elogio fúnebre

  1. Aniversariante do dia

    Só que você faz parte da minha vida e eu faço parte da sua e é difícil dizer que tudo bem.
    Há memórias que não se apagam queimando objetos. Nem todos os gatilhos são físicos. E, depois de tanto tempo, eles estão em toda parte. E, com isso, é difícil dizer que tudo bem.
    Gritar, bater e surtar de raiva não adiantam. Não adiantaram. E não deixaram tudo bem.
    Difícil mesmo seria a mortalha branca não ter nós, assim como teve uma corda minha. Mesmo depois de desatados, os nós fortes deixam marcas. E elas não são fáceis de sair. E até que isso aconteça, não está tudo bem.
    O banho ao contrário deve ter o maior efeito. Já que nossos banhos juntos são algumas das melhores pequenas-memórias-afetuosas que guardo. E porque, de fato, tudo parece de cabeça para baixo. E, definitivamente, não tudo bem.
    O choro de tempos em tempos ajuda a aliviar o peso. E as lágrimas caem rápidas de tão pesadas que saem. Mas até agora elas só marcam o compasso ditado pelos tempos de dificuldade. E não tornaram tudo bem.
    Quanto ao poema não sei falar. Nós sabemos que dos dois, é você quem sabe escrever. E isso tudo bem (mas como me aperta).

    Com ou sem ritual, há o tempo de luto. E durante, a ferida não some, só se esquece do tamanho da dor. Ela que se torna memória. E que força ela tem.
    Talvez o ritual torne essa passagem mais leve. Não sei, nunca tive. Já com a ausência posso ter certeza do resultado.

    (Depois disso tudo, você ainda acha que mentira é uma solução).

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