Todo texto começa de uma questão mal resolvida

Todo mundo vem com alguma bagagem. Todo mundo. Se tem uma coisa que aprendi nos últimos tempos é que isso não tem a ver com ser mulher, homem, hétero, gay, bi: todo mundo tem um passado e, na maior parte das vezes, lidamos com ele de uma maneira bem pior do que a que gostaríamos.

Ontem você me disse que eu sou uma das pessoas mais good vibes que você conhece e que quando eu fico mal o mundo sai um pouquinho dos eixos, e eu ri. Foi uma das coisas mais legais que já me disseram. E aí eu quis chorar.

“Todo romance começa com uma questão mal resolvida,” foi a frase do Juan Pablo Villalobos que mais me marcou naquela tarde de setembro. Eu ampliaria, Juan Pablo, se você me permitisse: todo texto assim nasce. Não há narrativa se não houver conflito. E por isso é tão difícil escrever quando estamos bem. (Embora a felicidade possa doer também, eu sei.) A gente escreve quando sangra. Quando dói tanto que vamos enlouquecer se aquilo não sair de nós.

Talvez há algum tempo eu tivesse concordado com você. Eu era mais alegre do que sou hoje, embora eu também já tenha sido muito mais triste. O que dói, agora, é não me reconhecer mais nessa imagem que criaram de mim. Eu tenho uma bagagem que não imaginava que teria, e ela pesa muito mais do que eu achava que pesaria. E é difícil pedir que alguém carregue esse peso comigo. Ele é meu. Eu sou minha. Eu me recuso a deixar mais alguém ficar com um pedaço meu, porque uma hora eu não vou ter mais nada que me pertença. Vocês podem ter tudo, mas só aquilo que eu permita que vocês tenham.

No meio desse jogo todo, talvez agora eu tenha criado, sem perceber direito, a garota good vibes. Aquela que está sempre ali pra te ouvir, que não tem problemas dos quais reclamar, que sempre ri, sorri, escuta e te abraça quando você precisa. Você não sabe como ela consegue estar sempre feliz, mas o mundo parece um pouquinho melhor por ela conseguir, já que você não consegue.

Mas ninguém é tão feliz assim – e fingir o tempo inteiro não torna aquilo real. É cansativo.

Eu tenho bagagem. Todo mundo tem.

Se você soubesse que eu escrevo, talvez você não tivesse se deixado enganar.

Afinal, a garota good vibes não escreveria. Ela não sangra. Eu, sim.

Quaresma

Outro dia me lembraram que começava a quaresma. Eu nunca entendi muito bem o que ela significava, mas sempre soube que a gente deveria ficar sem fazer algo do qual gostamos muito por quarenta dias, a fim de pagar nossos pecados (é isso?).

“Seus pecados, suas regras,” ele me disse.

E eu fiquei pensando que pecados eu tinha que pagar, e que regras meu próprio eu iria impor para que eu me redimisse. E decidi escrever.

Quarenta dias escrevendo. Uma punição dura e justa para redimir meu espírito.

Falhei já no primeiro dia. E no segundo. E no terceiro. E em todos que vieram depois, até agora.

Não sei mais em que dia da quaresma estamos, mas sinto que meu pecado e minha punição foram não escrever. Não escrever faz com que cada um dos meus sentimentos fique apertadinho aqui dentro. Não escrever me faz irritadiça e impaciente, me faz chorosa, cabisbaixa, e, principalmente, apática.

Quanto menos eu escrevo, menos eu vivo.

Até que tudo isso vira tanto que transborda. Transborda em palavras desconexas numa tela em branco, pra leitores desconhecidos, transborda pra quem possivelmente não se importa, porque eu não quero que se importem. Eu odeio que se importem (embora eu tão claramente precise).

Talvez meu pecado seja precisar sem querer, seja tentar lutar contra algo que é intrínseco a quem eu sou.

Mas meu corpo impõe suas próprias regras. E eu escrevo.

Tem dias

É engraçado como são únicas e imprevisíveis as marcas que deixamos nas pessoas. As coisas que nos parecem mais estúpidas ou banais têm o poder de machucar alguém sem reparo, ou mudar, inexoravelmente, a maneira como o outro enxerga o mundo.

Acho que ela não imaginava que, naquele dia em que eu estava possessa com a vida, o que ela me diria ficaria comigo, marcando cada um dos meus momentos a partir de então. Ela provavelmente não podia conceber que um pensamento tão passageiro fosse ficar cravado no que me há de mais profundo quando me disse: “Não existem dias absolutamente ruins. Mas quando a gente acha que está tudo dando errado, não conseguimos enxergar as coisas boas.”

Tem dias em que a gente acorda atrasada, perde o ônibus, esquece a carteira em casa, erram nosso pedido na padaria, estamos horríveis e encontramos desconhecidos na rua, enviamos os arquivos errados, brigamos com as pessoas e temos medo de atender ao telefone porque, num dia desses, qualquer pessoa ligando só pode ser pra avisar que alguém morreu. Não há reza, café ou descanso que nos ajude a sair daquela miséria, daquela maldição que nos parece imposta por uma força maior pra nos lembrar de que a vida é assim mesmo e não adianta querer achar que você está por cima.

Mas há dias, e há dias.

Tem dias em que a gente fica até às quatro da manhã cozinhando por um bom motivo, e, por mais que tudo possa dar errado, dá certo. Em que um colega de trabalho te para no caminho da padaria para conversar sobre literatura, e você se encanta com como há pessoas interessantes por aí. Em que uma peça de teatro, depois de um dia cansativo e com você morrendo de sono, não te faz dormir – te faz mais completa. Tem dias em que tudo é bom, por mais que pudesse ser ruim. E não é que não aconteçam desgraças. Mas, de espírito leve, nenhum imprevisto consegue te tirar do sério.

Não há motivo particular pra isso: é como acordar se sentindo bonita, ou acordar se sentindo feia. É olhar no espelho e perceber seu olhar para o mundo. Tem dias em que perder o ônibus e ter que fazer o percurso a pé nos faz sorrir e curtir o sol, em que perder a hora, correr, esquecer o lenço, ficar com fome, nada, nada disso importa. E você se pergunta, andando tranquilamente depois de ter sido ignorada pelo motorista do ônibus que você precisava pegar – por quê?

E aí você se lembra que os sentimentos são como o tempo: às vezes, simplesmente temos que aceitar como nos sentimos, porque não há o que fazer. E é preciso um guarda-chuva para não sair completamente encharcada de um dia chuvoso, porque pode ser que chova por dias e dias a fio. Mas, um dia, vai passar.

Há dias nublados e há dias chuvosos e há dias em que, simplesmente, o sol sai.

Você é do tamanho dos seus sonhos

Domingo, às seis e dez da tarde, eu acabei de escrever o último capítulo do meu TCC.

Tecnicamente, não era bem o último, porque ainda faltavam conclusão e agradecimentos – mas essa era a parte mais fácil, e o parto mesmo tinha acabado. Naquela última linha, aquela que você não sabe que vai ser a última até olhar pra ela e pensar: é isso. Acabou. Não tem mais pra onde ir depois daqui.

Eu sempre quis escrever um livro – aliás, um livro não: um romance. Não autoajuda, não teoria, não poesia – romance. Uma narrativa envolvente que as pessoas não conseguissem largar até a última página e que provocasse em alguém as mesmas emoções que tantos livros incríveis já provocaram em mim. Eu nunca imaginei que pudesse ser tão difícil assim. Eu não escrevi um romance – é um livrorreportagem – mas há personagens, há narrativa, há estilo e há a necessidade de tornar a história interessante o suficiente pra que ninguém se importe em ler um reportagem de 105 páginas (o que é bem difícil quando você não é, tipo assim, o Truman Capote).

Um livrorreportagem, tal qual um romance, tem uma estrutura própria. Você não está tentando provar um argumento ou tese, não precisa seguir um raciocínio claramente lógico. Há espaço pra curvas – aliás, há a necessidade de curvas pra tornar o caminho mais interessante. E como é difícil fazer isso, como é difícil organizar desorganizando, montar as peças de um quebra cabeças sem desenho nenhum de referência a não ser a sua própria imaginação.

Eu nunca fui boa com quebra-cabeças. E esse tinha mais de cinco mil pecinhas, mais de doze viagens, mais de dez livros, mais de trinta horas de entrevista. Um quebra-cabeça envolvendo a vida de quatro pessoas e de mais um tanto de gente, porque a vida de ninguém se constitui sozinha.

Quando voltei de Parelheiros naquela primeira vez em janeiro, eu parei na esquina da Consolação com a Paulista, enquanto esperava meu ônibus, observando as pessoas que passavam. Eu queria matar todas elas e eu queria chorar. Eu voltei daquela viagem completamente esgotada emocionalmente, e o processo se repetiu em todas as visitas subsequentes, melhorando um pouquinho a cada vez. Aprendi a transformar exaustão em energia, a usar aquilo que queria me quebrar como inspiração pra escrita. Eu quebrei muitas vezes, esse semestre, muito mais vezes do que gostaria de admitir. Mas levantei, tive que levantar, porque eu tinha um livro pra escrever e promessas a cumprir. Escrever sempre foi a minha tábua de salvação, mas dessa vez eu não estava escrevendo pra mim: estava escrevendo pra eles. E isso me obrigou a lamber minhas feridas mais rápido, a descobrir forças quando eu achava que não conseguiria mais, a encontrar maneiras de viver funcionalmente em meio ao caos. E isso me fez mais forte.

Domingo, às seis e dez da tarde, eu acabei de escrever o último capítulo do TCC. E eu comecei a chorar.

Segurei as lágrimas quando percebi que elas iam cair, pedi à senhora que dividia mesa comigo para que olhasse minhas coisas só um minutinho e corri pro banheiro. Me tranquei na última cabine, encostei na porta e desabei. Minhas pernas tremiam e eu não conseguia ficar em pé direito e eu comecei a me forçar a respirar enquanto meus olhos se enchiam d’água e eu queria rir. Porque, pela primeira vez em seis meses, eu estava chorando de felicidade. Alívio. E um pouco de histeria misturado ali no meio.

É uma sensação um pouco desesperadora perceber que acabou. Olhar aquela última linha, criando caminhos onde, antes, olhos desatentos poderiam achar que não havia nenhum, e saber que não importa se eu não consegui colocar tudo que eu gostaria e não importa se eu não usei todas as citações, a janela de tempo que eu tinha acabou. Acabou quando eu coloquei aquele ponto final ali, e qualquer coisa que eu queira acrescentar será inútil. É alívio e alegria e é amor também, mas é desalento.

Eu saí da biblioteca, meia hora mais tarde, e, quando olhei pra trás, me senti em Madri naquela manhã voltando pra casa do aeroporto depois de desabar. Me senti olhando o Palácio Real, imensamente grata por tudo, apesar da exaustão, e a noite escura e as luzes brancas da BSP me levaram pra lá. Eu quis parar e olhar pra ela até não aguentar o frio, e me senti profundamente grata e profundamente triste. E, assim, profundamente viva.

All I need

O interfone tocou e ele deixou de lado as planilhas. Às onze da noite, não havia muitas pessoas que o procurariam assim, em casa, sem nem mandar uma mensagem antes – não deveria ter se surpreendido ao ouvir a voz dela do outro lado do interfone. Se surpreendeu e tentou acalmar o coração que batia descompassado.

– Ei, Tato? Sou eu. Posso subir?

Ela era a única pessoa que não avisaria antes de aparecer – nem teria como. O número de telefone que ela conhecia ele tinha jogado fora junto com todas as outras lembranças que haviam sobrado. Mas o endereço ainda era o mesmo, e ela aparentemente ela não o havia esquecido, nem havia esquecido a mania de achar que era importante  suficiente pra poder aparecer na casa dele assim, sem aviso, numa quinta-feira à noite qualquer. Como se ele estivesse à sua disposição, não tivesse trabalho pra fazer, ficasse sentado na sala esperando visitas noturnas do passado.

Ainda estava parado ao lado do interfone quando ouviu as duas batidas leves na madeira. Passou a mão pelos cabelos e foi em direção à entrada do apartamento. Por costume, dirigiu-se ao olho mágico. Era estranho – quando ela ainda frequentava sua casa, nunca batia à porta. Assim que se mudara, ela havia ganhado a chave. Ele não se lembrava nunca de tê-la visto assim, disforme, o corpo achatado, o rosto tão maior que o resto, olhos de pires encarando a porta.

Abriu. Ela levantou o olhar e o cruzou com o seu. O rosto dela estava vermelho do frio, os cabelos um pouco despenteados, pedaços presos no lenço que ela levava envolto ao pescoço. Ela sorriu, sem graça, ele se afastou para que ela entrasse.

Entrou um pouco hesitante, como se de repente estivesse na dúvida se aparecer ali tinha sido mesmo uma ideia muito inteligente. Olhou em volta, e ele acompanhou seu olhar, tentando ver a sala através dos olhos dela, cinco anos depois. Alguns móveis haviam mudado de lugar. O sofá era outro, a tevê também. Os livros continuavam empilhados em um dos cantos, rente à parede, perto da janela.

– Você finalmente emoldurou seus pôsteres.

Ele riu. Cinco anos depois e era essa a primeira coisa que ela dizia ao reencontrá-lo.

– É, tomei vergonha na cara há algum tempo. Quer sentar? – apontou o sofá agora preto, de couro, tão diferente daquele antigo, de espuma e com manchas no forro que ele havia usado durante anos.

– Que estranho não reconhecer as coisas aqui… – ela disse meio para si mesma, enquanto se sentava em uma das pontas. Ele puxou uma cadeira.

– Bom, já faz tempo… Mas algumas coisas ainda são as mesmas.

Ela olhou para os livros e deu uma risada que misturava espanto e indignação – o descaso dele com os livros sempre a irritara profundamente.

– O que houve, Luci? Aconteceu alguma coisa?

Ela pareceu surpresa por ouvi-lo dizer seu nome. Levantou os olhos do sofá e pareceu ficar um pouco envergonhada.

– Não, é que… Eu sei que deve parecer loucura eu aparecer aqui assim, do nada…

– Um pouco.

– Desculpa. Eu não sabia como entrar em contato, seu número mudou, qualquer tipo de contato virtual seria impessoal demais e eu queria, eu precisava te ver.

– Você tá bem? Tá tudo bem?

– Tudo. Tudo. E com você?

– Também. – Olhou-a um pouco torto. – Não fui eu que apareci na sua casa às onze da noite.

– Ha ha. Eu sei. Desculpa por aparecer assim.

– Bom, você já está aqui…

– É só que… – Respirou fundo, tomando coragem. – Ok, isso vai parecer tão idiota, mas eu não conseguia dormir e eu simplesmente precisava te ver e saber e falar então… – Ela parou de novo. – Você… Você ainda pensa na gente?

– Como assim?

– Não quero dizer se você me ama nem nada disso, – apressou-se a explicar. – Eu sei que a gente terminou há anos. Mas você não lembra do que passou, não pensa em como tudo poderia ter sido diferente?

Ele se remexeu incomodado.

– Nos últimos dias eu tenho pensado em muita coisa. Sem motivo algum, nada aconteceu, mas… Algumas coisas têm me atormentado. Eu não durmo direito há dias, briguei com meu namorado por nada e achei que talvez vindo aqui e falando, talvez eu pudesse melhorar. Pra minha sorte, você ainda mora no mesmo endereço.

– Mas o que eu tenho a ver com o que tá acontecendo com você? A gente não se vê e nem se fala há tanto tempo.

– Mas não importa! E eu te odeio por isso às vezes. Todos os dias, nos últimos cinco anos, eu fui atormentada por você. Não tem um dia que passe sem que, pelo menos uma vez, alguma coisa me lembre você, me dê vontade de te mandar uma mensagem, de dizer “Achei isso a sua cara”, de saber como você está. Não é bizarro que eu não faça a mínima ideia de como você está? E você não saiba mais nada da minha vida? Eu tentei te apagar de todas as formas, de todos os meios, e ainda assim é uma luta diária comigo mesma, tentando comprimir as lembranças e te colocar no fundo da minha mente, num lugar bem escondido, pra seguir o dia normalmente. E você sempre, inevitavelmente aparece.

“Eu já comecei a te escrever um email incontáveis vezes. Nunca tive coragem de terminar. Até porque, bom, como terminaria? Abraços? Beijos? Até mais? Com amor? Isso se não cair no spam. E eu não aguentaria um email sem resposta, sem saber se foi lido, sem ver sua reação. Mas também nem sei o que escrever. É mais uma vontade passageira, uma lembrança rápida, vontade de saber da sua vida.

“E na maior parte dos dias eu estou bem. Eu estou feliz. Bem feliz, na real. Mas aí de repente eu vejo alguma coisa que vence minhas barreiras mentais e me atinge onde eu nem sabia que ainda podia ser atingida, e eu começo a lembrar de tanta coisa, e de como acabou, e de como eu sofri – e de como você sofreu –, mas a lembrar também de como era bom e sinceramente foram os melhores dois anos da minha vida. Enquanto a gente se amou foi incrível, não foi? Mas e se não foi pra você? E se isso é só a minha mente apagando tudo que houve de ruim e me fazendo lembrar só do lado bom, e se na verdade foi uma merda e você ficou feliz por ter acabado, aí onde ficam esses dois anos que ainda me atingem?”

Ela parou, mexendo nos fios que saíam da ponta do seu lenço. Ele ficou olhando para as mãos dela, tão pequenas, ele ainda se lembrava de como eram macias quando ele as apertava, como a mão dele envolvia as dela completamente. O silêncio começou a ficar pesado.

– Você sabe que foi incrível.

– Eu sei.

– Você poderia ter me procurado.

– Poderia mesmo, Tato?

– Eu também pensei em você. Não é como se a gente conseguisse apagar completamente dois anos da nossa vida só porque o namoro acabou.

– Não sabia como.

– Porque aparecer no meio da noite, cinco anos depois, é uma alternativa super normal.

– Eu sei que não. Mas eu não sabia mais o que fazer.

– Foi você quem me disse pra não te procurar mais depois de tudo aquilo.

[Ele se lembra do telefonema. Do susto. Das paredes brancas do hospital, do gosto amargo na boca. Dela pálida. Do medo. Do maior medo que ele já sentira até então.]

– Eu precisava me afastar de você. Eu não ia suportar. Mas agora eu sei que não saber de você é tão ruim quanto.

– Eu sempre tive medo que você fizesse algo assim. Desde que a gente se conheceu.

– Eu lembro.

– Você me contou como se fosse a coisa mais normal do mundo, e eu não entendi a gravidade daquilo. Mas eu queria tanto estar com você que nada mais importava.

– Você agiu com tanta naturalidade quando eu te contei…

– Você era a pseudo-gótica de 17 anos mais linda que eu já tinha conhecido. Eu tinha 20 anos. Nada mais importava. Nada que você dissesse poderia me assustar.

[“Às vezes eu pego os remédios da minha mãe. Eu penso em tomar todos de uma vez. Às vezes eu surto.”

Não sabia por que, mas para ele conseguira contar. Como se não fosse tão ruim assim.

“Me liga. Se precisar eu surto com você.”

Uma tarde no parque. Ela se representava por roupas, os outros pensavam. Ela se escondia nas roupas, ele parecia saber. Tanta gente, e ninguém. Só ele.

“Me liga.”]

Ela riu.

– Eu era pseudo-gótica, né? Deus, que fase.

– Eu nunca… Eu nunca quis que isso acontecesse, Luci. Eu nunca consegui pedir desculpas, mas eu nunca quis que aquilo acontecesse.

– Eu sei. Eu não te culpo, não mais. Mas não é como se tivesse sido fácil. Eu lembro do desespero, do pânico, de querer ser ouvida. Era como se eu falasse com você e nada te atingisse. Por mais que eu gritasse, você não ouvia. Então eu fiz a única coisa que parecia possível.

Ela falava baixo, agora. Meio pra si mesma. Com vergonha de admitir a fraqueza terrível daquelas semanas. Ele sabia que ela odiava desmoronar. Ela odiava não ser forte.

Ele se lembrava de conhecê-la numa festa, ela uma adolescente que, aos 17, só saía com pessoas de 20 pra cima. Ia nas festas, fumava e dormira com metade dos amigos dele. Mas, por desencontros da vida, ele ainda não a havia conhecido, e há meses ouvia falar da já famosa Zoey. Quando finalmente a conheceu, levou um choque. Porque a sacou de cara, porque não era possível que ninguém tivesse reparado, porque ele não se importou. E, principalmente, porque não pretendera se apaixonar.

[“E aí, qual o seu nome?”

“Zoey.”

“Eu quis dizer o verdadeiro.”

Ela deu mais um trago no cigarro. Mau. Bom.

“Prudence.”

“Se você quer se criar, devia escolher nomes menos absurdos. É meio óbvio demais.”

Tirou os olhos das unhas e o encarou. Ela não gostava de falar de si mesma.

“Então?”

“Luci.”]

Ficaram em silêncio, como se o peso das lembranças os impedisse de falar.

– O que tem me atormentado é que… Como é que a gente sabe que ama alguém? Porque eu sabia. Eu te amava desesperadamente, como nunca tinha amado alguém antes. Era algo visceral.

Ele sabia exatamente do que ela estava falando.

– Racionalmente, eu sei que isso não era bom. Quer dizer, olha como me quebrou. Como eu fiquei quando você me deixou.

– Luci…

– Eu não tô dizendo que foi sua culpa, Renato. Talvez parte tenha sido, mas eu estava desequilibrada, eu precisava de ajuda, você sabia disso e você me falava isso, mas eu não queria ouvir. Eu achava que você era suficiente pra me fazer ficar bem.

– Esse é um peso muito grande pra se colocar em alguém.

– Eu sei.

[Um quarto vermelho. Cobertores. Ela escreve na parede pra deixar marcada em palavras uma parte ínfima e ao mesmo tempo a parte toda, toda parte, em todo lugar, tudo que eles eram e tudo o que aquilo significava. You are all I need. E era mesmo. As paredes vermelhas, as bocas seladas, a respiração ofegante, ela não tinha mais medo de quase nada. Ela só tinha medo dele. Ela só tinha medo das palavras. E da necessidade. Mas ela as escreveu mesmo assim. You are all I need. Gravadas na parede, preto e vermelho. Eles se complementavam. Ela se achava forte. You are all I need.]

– Você me colocou num pedestal, e eu não sabia como sair dali sem te machucar. Me matava que eu não conseguisse fazer você feliz. Mas eu não conseguia nem me fazer feliz, eu era um retardado imaturo aos 22. Realmente achei que acabar tudo seria o melhor pra nós dois.

– Não foi o relacionamento mais saudável do mundo, pra se dizer o mínimo.

– That’s an understatement.

Ela sorriu. Daquela mania ela também se lembrava bem, a mania dele de soltar frases em inglês quando não conseguia se expressar bem em português. Pelo visto ele vinha controlando melhor o hábito nervoso que tanto incomodava alguns amigos – antigamente, ele já teria soltado pelo menos umas dez expressões estrangeiras ao longo da conversa.

– Mas apesar de tudo, eu te amava. Muito. E eu quebrei de um jeito que achei que nunca iria me recuperar, porque eu te amava e sem isso eu não sabia quem era. Sem você, eu não era ninguém, porque você estava tão intrinsicamente ligado à minha identidade que, quando você terminou nosso namoro, você aniquilou minha identidade também. E eu sei que isso não é saudável, mas foi como eu aprendi o amor. E alguns anos depois eu tive a chance de reaprender, e eu já namoro há um ano e meio, agora. E é bom. É muito bom. É calmo. É tranquilo. Mas eu me pego pensando se isso é amor. Se amor pode ser algo que não te machuca.

– Algumas pessoas poderiam discordar. Não pode ser amor se te faz mal.

– Amor por definição faz mal. Se as pessoas fossem inteligentes, ninguém se apaixonaria.

– Pela sua lógica, se o que você sente agora não te faz mal, não pode ser amor.

– Me faz mal. Me fez invadir sua casa no meio da noite depois de cinco anos. Mas não me machuca.

– Isso não faz muito sentido.

– O amor também não faz sentido.

– Você consegue se imaginar sem ele?

Ela parou para pensar antes de responder.

– Consigo. Dói, mas consigo.

– Você sente saudades dele?

– Sinto. Às vezes eu acho que deveria sentir mais, e às vezes a gente passa tanto tempo juntos que eu só quero ficar sozinha, mas inevitavelmente quero ele de volta.

– Olha, Luci… Eu não sei teorizar sobre o amor. O que eu sei é que eu me apaixonei outras vezes, e nunca foi igual a quando eu amei você. Nunca foi tão intenso, embora também tenha doído quando acabou. Talvez simplesmente não seja comparável. Porque cada amor assume uma forma, e, querendo ou não, você foi a primeira mulher por quem eu me apaixonei.

– Mas foi só isso? Só foi tão forte porque foi o primeiro? Me dá a impressão que isso é diminuir o que a gente sentiu um pelo outro.

– Eu não acho que diminui, mas põe em perspectiva. Foi incrível, e mudou a gente de um jeito profundo, mas foi a primeira vez que nós dois passamos por qualquer coisa do tipo. Eu nunca te esqueci completamente, e acho que isso nunca vai acontecer, e eu me pergunto como teria sido se eu tivesse te conhecido depois. Se nós dois não fôssemos tão imperfeitos. Tão incompletos. Se eu tivesse te conhecido agora, aos 27, estável, feliz, finalmente.

– Eu me pergunto isso sempre. E eu me sinto tão mal por isso. Porque eu amo ele. De verdade. Mas eu não consigo deixar de me perguntar como seria se a gente se conhecesse hoje. Eu sei que isso é idiota, porque nunca seria a mesma coisa. Ao mesmo tempo, talvez eu precisasse tentar, pra saber se foi tão intenso porque foi o primeiro e eu era imatura, ou se foi tão intenso simplesmente porque… era você.

Ele não sabia o que dizer. Tudo aquilo parecia surreal. Tanto tempo, tanto tempo ele esperara por isso. Por uma abertura. Por uma chance. E agora, depois de cinco anos ela voltava, aparecia de repente, soltava em cima dele todos os pensamentos que já o haviam atormentado e que finalmente ele conseguira amenizar o suficiente para viver em paz com eles. Viver em paz com o fato de que acabara, era isso, eles haviam vivido um romance e ela pertencia ao passado.

E ai ela aparecia.

– Não sei o que você espera que eu te diga.

– Eu não espero nada.

– Você veio até aqui.

– Eu não sei o que eu esperava. De verdade. Mas eu precisava te falar. Eu precisava te ver.

Ele precisava fazer algo. Se levantou e foi até a cozinha, pegou um copo de água. Apoiou-se no armário da pia e segurou o copo nas mãos por alguns instantes.

– Renato? Seu celular. Tá tocando.

Ele correu pra sala. Atendeu.

– Oi. Tudo bem. Não, não aconteceu nada, tô terminando umas planilhas, tô com a cabeça cheia. Posso te ligar mais tarde? Também te amo. Beijo.

Não conseguia olhar pra ela.

– Renato?

– Eu já pensei em tudo isso. Durante muito tempo. Eu quis te procurar e não sabia como, e no final achei que era mais fácil deixar tudo pra trás. Eu me apaixonei de novo, deu errado, e de novo e de novo, em parte porque eu não conseguia deixar você totalmente pra trás. Então tive que aprender a conviver com isso, e agora eu também estou bem. E eu tô noivo.

Silêncio.

[He was all she neeeded she needed him he needed her she was all he needed they needed she needs it. Ela gritou. Que o grito passasse as paredes, as janelas, os carros, atravessasse cidades, chegasse até ele. Que ele viesse. Como fosse, mas viesse. Que ele se importasse. Que o grito fosse algo. Que doesse. E o grito a sufocou por dentro e todos os gritos do mundo e toda a mágoa e tudo que eles poderiam ser e tudo que jamais seriam. Chorou até a exaustão. Dormiu.]

– Meu Deus. E você me deixando falar tudo isso. Puta que pariu, Renato.

– Luci…

– Desculpa. Eu nunca deveria ter vindo aqui.

Ela já estava levantando e pegando a bolsa. Andando até a porta.

– Luciana, espera. Olha, desculpa, mas você chegou aqui de repente e eu não sabia como te dizer depois que você começou a falar tanta coisa.

– Talvez na hora em que eu falei que estava namorando você poderia ter soltado essa informação um pouco importante? Que você está noivo?

– De que importa? Você mesma disse que não esperava nada vindo aqui.

– É lógico que importa!

Ele viu as mãos dela tremendo ligeiramente.

– Que idiota. Que idiota. – Fechou os olhos e respirou, se recompondo. – Eu vou embora. Desculpa. Eu espero sinceramente que você esteja feliz. E que você seja feliz. Obrigada por ter me ouvido.

– Anota meu telefone, pelo menos. Eu não quero perder contato de novo. Você tem razão. É bizarro não saber da sua vida e você não saber da minha.

Ela hesitou. Por favor por favor por favor por favor por favor. Andou até ele e lhe entregou o celular. Ele fez o mesmo.

Acompanhou-a até a porta.

– Eu nem te ofereci água, café, nada. Que péssimo anfitrião.

– Acho que a gente já passou do ponto das formalidades faz tempo.

– Obrigado por ter vindo.

Ela deu um sorriso triste. Não havia o que ser dito.

Ele olhou para o celular, viu o número gravado, o nome na tela.

Zoey.

Quando levantou os olhos, ela já não estava mais ali.

1.

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3.

4.

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