Mitologia particular

Essa noite eu sonhei que ela me abandonava. Sem eu saber por que, ela apenas ia embora. Me deixava sozinha, com os meus demônios, os quartos vazios, os corredores ecoando as conversas que já não existiam mais.

Essa noite eu sonhei que traía. Traía sem bem saber o que, com alguém que era igualzinho a ele, embora não o fosse, e seus olhos profundos me encaravam com o peso da mágoa de se ver enganado por quem a gente ama.

Essa noite eu sonhei que caía. Caía, mas não encontrava o chão, continuava caindo, e caindo, e caindo, naquele um segundo que embarca todo o tempo que o universo já presenciou.

Acordei caindo, traindo, abandonada. Com todo peso do mundo sobre o peito, todas as tragédias perenes, todas as narrativas universais. Eu acordei sem ar. Com todo o peso dos arquétipos que carregamos em nós. Acordei, e talvez eu nunca saiba, afinal, o que eu realmente sonhei.

Disclaimer

Toda semana, o WordPress me avisa que está na hora de publicar um texto novo. Mas as coisas me pareciam cruas demais, nuas demais para serem publicadas. A nudez pode ser linda se trabalhada direito e exposta por vontade própria, não por descuido. A melhor parte da escrita é poder mostrar só o suficiente para que as pessoas tenham certeza que sabem do que você está falando, quando na verdade se está falando de algo completamente diferente. Misturar cenários imaginados à dor, expondo as feridas através de espelhos disformes. Expor ajuda a cicatrizar. Torna pública uma dor privada, dá perspectiva a um final mal resolvido, traz esperança. Esperança de que a próxima história será melhor.

Eu só consigo escrever sobre o que dói explicitamente quando não dói mais. Já vieram me falar, “li seu último texto, você não me parece bem, parece que não passou ainda.” E eu me senti profundamente ofendida porque pra mim é tão óbvio que, se não tivesse passado, eu não teria publicado aquilo. Seria um erro de iniciante se expor assim.

(Eu já o cometi vezes demais.)

Se a nudez transparece sem que queiramos, me sinto enganada por mim mesma, me sinto exposta de uma maneira cruel. Odeio a ideia de que os outros possam perceber, mesmo que por um reflexo, o que realmente estava por trás daquele texto. Que imaginem, claro, deixe que imaginem, mas nunca que saibam ao certo.

Eu não escrevo quando ainda estou sangrando. Mas, às vezes, é preciso escrever pra cicatrizar.

Tem dias

É engraçado como são únicas e imprevisíveis as marcas que deixamos nas pessoas. As coisas que nos parecem mais estúpidas ou banais têm o poder de machucar alguém sem reparo, ou mudar, inexoravelmente, a maneira como o outro enxerga o mundo.

Acho que ela não imaginava que, naquele dia em que eu estava possessa com a vida, o que ela me diria ficaria comigo, marcando cada um dos meus momentos a partir de então. Ela provavelmente não podia conceber que um pensamento tão passageiro fosse ficar cravado no que me há de mais profundo quando me disse: “Não existem dias absolutamente ruins. Mas quando a gente acha que está tudo dando errado, não conseguimos enxergar as coisas boas.”

Tem dias em que a gente acorda atrasada, perde o ônibus, esquece a carteira em casa, erram nosso pedido na padaria, estamos horríveis e encontramos desconhecidos na rua, enviamos os arquivos errados, brigamos com as pessoas e temos medo de atender ao telefone porque, num dia desses, qualquer pessoa ligando só pode ser pra avisar que alguém morreu. Não há reza, café ou descanso que nos ajude a sair daquela miséria, daquela maldição que nos parece imposta por uma força maior pra nos lembrar de que a vida é assim mesmo e não adianta querer achar que você está por cima.

Mas há dias, e há dias.

Tem dias em que a gente fica até às quatro da manhã cozinhando por um bom motivo, e, por mais que tudo possa dar errado, dá certo. Em que um colega de trabalho te para no caminho da padaria para conversar sobre literatura, e você se encanta com como há pessoas interessantes por aí. Em que uma peça de teatro, depois de um dia cansativo e com você morrendo de sono, não te faz dormir – te faz mais completa. Tem dias em que tudo é bom, por mais que pudesse ser ruim. E não é que não aconteçam desgraças. Mas, de espírito leve, nenhum imprevisto consegue te tirar do sério.

Não há motivo particular pra isso: é como acordar se sentindo bonita, ou acordar se sentindo feia. É olhar no espelho e perceber seu olhar para o mundo. Tem dias em que perder o ônibus e ter que fazer o percurso a pé nos faz sorrir e curtir o sol, em que perder a hora, correr, esquecer o lenço, ficar com fome, nada, nada disso importa. E você se pergunta, andando tranquilamente depois de ter sido ignorada pelo motorista do ônibus que você precisava pegar – por quê?

E aí você se lembra que os sentimentos são como o tempo: às vezes, simplesmente temos que aceitar como nos sentimos, porque não há o que fazer. E é preciso um guarda-chuva para não sair completamente encharcada de um dia chuvoso, porque pode ser que chova por dias e dias a fio. Mas, um dia, vai passar.

Há dias nublados e há dias chuvosos e há dias em que, simplesmente, o sol sai.

A literatura como ela é

Jorge Amado

Créditos: Alexandre Dall’Ara

Para que escrever, para que ler, para que contar, para que escolher um bom livro em meio à fome e às calamidades? Escrever para que o escrito seja abrigo, espera, escuta do outro. Porque a literatura, mesmo assim, é essa metáfora da vida que continua reunindo quem fala e quem escuta num espaço comum, para participar de um mistério, para fazer que nasça uma história que pelo menos por um momento nos cure de palavra, recolha nossos pedaços, junte nossas partes dispersas, transpasse nossas zonas mais inóspitas, para nos dizer que no escuro também está a luz, para mostrarmos que tudo no mundo, até o mais miserável, tem seu brilho.

(María Teresa Andruetto – Por uma literatura sem adjetivos)

É impossível entrar na nossa sala e não notar os livros. Se quem nos visita não parar nem um minuto em frente a alguma das três estantes para olhar os títulos que habitam as prateleiras, já penso que talvez não possamos ser tão bons amigos assim. E, secretamente, julgo as pessoas baseadas nas reações que tem quando começam a ver os nomes e gêneros que reunimos ali.

Nas nossa estante vermelha, os nichos de cada uma são facilmente reconhecíveis. Os dela, com os livros elegantemente desordenados, caídos para o lado fazendo charme, muitos paperbacks da Better World Books, poucas traduções no meio dos idiomas originais, literatura contemporânea estrangeira mesclada a alguns bons nacionais.

Na minha, os livros perfeitamente alinhados, não por gosto estético, mas por necessidade: há que se aproveitar cada centímetro para que caibam todos. Estão organizados pelo sobrenome do autor em ordem alfabética, as lombadas que um dia já tentei organizar por cor agora desordenadas num arco-íris bêbado, os velhos da adolescência com os novos da vida adulta, coleções completas de séries adolescentes, chick lits misturados a clássicos brasileiros e estrangeiros e, no meio, uma boa porção de livros desconhecidos caçados no desespero de algo novo pra ler.

Nos dois primeiros nichos, especificamente, uma série de lombadas coloridas, de livros do mesmo tamanho, se destaca. Cinco são do Jorge Amado, com as flores e a faixa de cor que marcam a coleção do autor publicada pela Companhia das Letras. Dez são a coleção completa do Diário da Princesa.

Quando coloquei meus livros na estante, pós-mudança, cogitei deixar na sala, à vista, apenas os meus preferidos e os livros “adultos”. Decidi que era bobagem, e misturei ficção adolescente a livros eróticos, clássicos, jornalísticos e de design. Porque nenhum tipo de literatura é menor que a outra, e eu não vejo motivos para me envergonhar do que leio. O que uma pessoa lê diz muito sobre ela — mas nunca vai dizer se ela é melhor ou pior do que você.

Aos 16 anos, não se esperava que eu lesse outra coisa além da chamada literatura juvenil — ou, em inglês, young adult (YA). Causava surpresa que eu já tivesse lido A insustentável leveza de ser1984Apanhador no Campo de CenteioBrumas de Avalon, e outros livros tidos como “adultos”. Mas eu devorava livros. Eu precisava deles como precisava de ar, e as indicações de “livros adolescentes” nas livrarias e blogs não eram suficientes. Eu invadia as estantes da minha mãe atrás de novas leituras, e assim preenchia meus dias com Bernard Cornwell, Rosamund Pilcher, Luiz Fernando Veríssimo, Marian Keyes, Christian Jaq, Margaret George, Helen Fielding, Jane Austen, Érico Veríssimo, Jô Soares, Bram Stoker, Rubem Fonseca, e dezenas, centenas de outros autores “adultos”, de todos os gêneros possíveis. Aos dezessete anos, meus livros preferidos eram Crepúsculo e Na praia – o amor eterno entre uma humana e um vampiro; o fim do amor entre uma musicista e seu marido.

Quando entrei na faculdade, comecei a ampliar ainda mais meu repertório cultural e conviver com pessoas que, apesar de também amarem literatura, tinham gostos bem diferentes dos meus. E embora algumas lidassem com isso de uma maneira natural, outras olhavam a mim — e a outros colegas que também gostavam de literatura mais comercial — de cima pra baixo, como se Harry Potter fosse desprezível demais para seus refinados apetites literários. Lembro da incredulidade de alguns quando nossa própria professora — doutora em comunicação, professora da USP — declarou seu amor pela saga do bruxo britânico em plena sala de aula.

É por isso que, sexta-feira, ao ler o texto da Ruth Graham pra Slate — Against YA: adults should be embarrassed to read children’s books –, eu não consegui ficar quieta.

Rant no twitter

“Penso tantas coisas sobre esse texto que não dá pra colocar aqui no twitter, mas vou tentar mesmo assim e encher a timeline de vocês com meu rant” (ler de baixo pra cima)

Então a questão é a seguinte: a autora do texto fala como, hoje, a maior parte do público que compra YA na verdade são pessoas com mais de 18 anos — e, desse grupo, 28% tem de 30 a 44 anos. E que, ainda que livros como A culpa é das estrelas (John Green, 2012) e Eleanor & Park (Rainbow Rowell, 2013) sejam bons, adultos deveriam ter vergonha de lê-los… por terem sido escritos para “crianças” (os livros YA são destinados a adolescentes de 12 a 17 anos).

Mesmo livros adolescentes aclamados pela crítica como os dois citados, que seguem uma linha mais “realista”, caracterizariam a adolescência “de uma maneira, fundamentalmente, acrítica” (os trechos foram traduzidos livremente do texto original). Para conseguir apreciar essa literatura, os adultos teriam que “abandonar a maturidade que eles (supostamente) adquiriram como adultos”. Graham ainda completa dizendo que todos os YA tem finais “satisfatórios — sejam tristes ou felizes –, o que seria emblemático do fato de que “a ambiguidade emocional e moral da ficção adulta — do mundo real — não aparece em nenhum lugar da ficção adolescente”.

Seria normal gostar desse tipo de ficção, que não te faz pensar, quando se é adolescente. Mas para que um adulto goste disso e se emocione, ele tem que ignorar todo seu conhecimento de mundo. Por isso, adultos que leem YA deveriam ter vergonha de fazê-lo. Além disso, se os adolescentes veem que adultos apreciam a mesma literatura que eles, talvez não tenham vontade de avançar na escala literária e, um dia, abandonar os livros adolescentes em prol dos adultos.

Em primeiro lugar, não existe literatura “adulta”, “adolescente” ou “infantil”: existe literatura. A escritora argentina María Teresa Andruetto adverte em seu Por uma literatura sem adjetivos”: “O grande perigo que espreita a literatura infantil e a literatura juvenil (…) é justamente de se apresentar, a priori, como infantil ou como juvenil. O que pode haver de “para crianças” ou “para jovens” numa obra deve ser secundário e vir como acréscimo (…).”¹

Essa estrita diferenciação de públicos serve, puramente, para fins comerciais.  Um livro com temática infantil, texto com linguagem mais simples e ilustrado provavelmente vai agradar mais às crianças de certa faixa etária — não quer dizer que ele seja proibido a outras pessoas, que ninguém mais possa gostar dele ou que ele se restrinja unicamente a crianças. Talvez uma adolescente de 15 anos não se interesse tanto por um livro que fala de um casamento falido, mas talvez sim. Talvez a mesma adolescente de 15 anos se apaixone por A insustentável leveza do ser como uma história trágica de amor, e, aos 22, se apaixone de novo pelo livro como o retrato da falência do regime soviético. E talvez só 11 anos depois de ler pela primeira vez Fronteiras do Universo ela entenda as referências bíblicas e poéticas presentes na trilogia “infantojuvenil” de Philip Pullman.

Não bastasse a diferenciação, Graham ainda o faz de maneira hierárquica, colocando a literatura adolescente como inferior à adulta – mais simplória, irreal, escapista. De cabeça, consigo pensar em inúmeros livros “para adultos” mais simplórios e escapistas que muitos YAs que conheço. Um bom livro será um bom livro independente do seu “leitor ideal”. Mas o problema maior é que, ao comparar um tipo de literatura ao outro como melhor/pior, Graham está implicitamente dizendo que adolescentes são “piores leitores” que adultos. É ok adolescentes gostarem desse tipo de livro — afinal, são jovens, ingênuos, ainda não alcançaram a maturidade intelectual necessária para entender “obras maiores” –, mas adultos deveriam ter vergonha pois são superiores a isso. Esse raciocínio supõe que idade seja necessariamente sinônimo de maturidade emocional e de conhecimento de mundo, e despreza a vivência e inteligência dos adolescentes. Mais do que isso, ignora que a capacidade de uma obra de arte de gerar metáforas é algo completamente imprevisível.

E, por isso mesmo, é muito difícil — e mesmo arrogante — querer classificar arte. Sempre desconfie de quem classifica arte. Embora haja critérios, sim, para criticar obras literárias — estrutura narrativa, desenvolvimento dos personagens, construção linguística –, isso é diferente de hierarquizá-las. A sistematização teórica serve para a crítica literária. Mas, aliada a ela, há de se levar em conta também o que Sergio Milliet chama de ato crítico: “a disposição de empenhar a personalidade, por meio da inteligência e da sensibilidade, através da interpretação das obras, vistas sobretudo como mensagem de homem a homem”². A arte não é hierarquizável. Não existe literatura “melhor” ou “pior”: Milliet coloca, ao contrário, o critério de obra ponderável, que Antonio Candido explica como “a que merece comentários e os provoca, na razão direta da sua riqueza e das sugestões que levanta.” Ou seja, a análise de uma obra não se dá comparando-a hierarquicamente com outra, mas sim aliando à sistematização teórica os significados e ponderações gerados por aquela obra de arte. Pois é justamente isso que caracteriza a arte: a capacidade de gerar metáforas.

É importante notar que, para Candido, a capacidade metafórica de uma obra literária aumenta quanto melhor trabalhado for o texto. “Toda obra literária é antes de mais nada uma espécie de objeto, de objeto construído […].[Quando elaboram uma estrutura] o poeta ou o narrador nos propõem um modelo de coerência, gerado pela força da palavra organizada”, explica ele em “O direito à literatura”. Ao organizar as palavras, o texto nos permite ordenar “a nossa própria mente e sentimentos”³. Ele exemplifica a importância dessa organização ao tratar da chamada literatura social (“produções literárias nas quais o autor deseja expressamente assumir posição em face dos problemas”), citando duas obras importantes: Castro Alves, com seu Navio Negreiro e Bernardo Guimarães, com A escrava Isaura. “A paixão abolicionista estava presente na obra de ambos os autores, mas um deles foi capaz de criar a organização literária adequada e o outro não.” A obra de Castro Alves foi mais bem sucedida em termos teóricos. E a maneira como ele organiza o texto torna-o mais rico e multifacetado do que a obra de Guimarães, que acaba sendo mais planfletária, alcançando um público menor e perdurando por menos tempo no imaginário dos leitores.

Mas de nenhuma maneira pode-se julgar quem se emociona com A escrava Isaura, considerar esse leitor inferior aos que apreciam Navio Negreiro. Eles podem ser, inclusive, os mesmos. Assim como quem aprecia James Joyce pode ser exatamente a mesma pessoa que também lê John Green. Ou Rainbow Rowell. Ou Stephenie Meyer.

E por isso é tão estúpido querer colocar no mesmo quadradinho todos os autores que escrevem livros com temáticas para adolescentes, como se, automaticamente, por escreverem para jovens, a qualidade de suas obras literárias fosse exatamente a mesma, e isso os tornasse melhores ou piores do que outros autores. Obras infantojuvenis não são todas iguais, e nenhuma obra pode ser considerada inferior ou superior a outra, embora se possa compará-las criticamente.

É por isso, também, que discordo do raciocínio de alguns que retrucaram o texto de Graham dizendo “Vamos ler livros bons, YA ou não“. Porque a pretensão e arrogância continua ali, escondida, como quem diz: tudo bem você ler os livros infantis e adolescentes do Neil Gaiman, ele é aclamado pela crítica, mas pode ir queimando esse Crepúsculo ai na sua estante.

Talvez livros incríveis, eruditos, bem escritos, incrivelmente complexos, não mexam com você da maneira que supostamente deveriam. É completamente possível apreciar a qualidade literária de um livro sem que ele marque a sua vida. E por isso a resposta para “como dizer a uma pessoa amada que o livro preferido dela é uma merda” é: não diga. Porque qualidade literária não é sinônimo de paixão literária. E ninguém deveria sentir vergonha de gostar de nenhum tipo de literatura. Adolescentes podem ler o que lhes der na telha, e talvez eles não apreciem Guimarães Rosa aos 14 anos, mas se apaixonem perdidamente por Grande Sertão: Veredas aos 20, e de novo aos 30 e de novo a cada leitura depois disso. Assim como Meu Pé de Laranja Lima pode ser o livro preferido de um adulto.

O que eu digo é: leia. Porque só lendo todo e qualquer tipo de livro você talvez encontre aquela uma obra que vai irremediavelmente mudar a sua vida. Ela não vai ser a mesma para todos. Infantil, adolescente, adulto, prosa, poesia, quadrinhos. Nunca se sabe que forma tomou aquela narrativa que vai superar o seu caos interior e te permitir, finalmente, organizar o mundo. Leia; leia até encontrá-la. E, quando isso acontecer, a exiba com orgulho na estante: se alguém te julgar por isso, talvez vocês não possam ser tão bons amigos assim.

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1. ANDRUETTO, María Teresa. “Por uma literatura sem adjetivos”, in Por uma Literatura Sem Adjetivos. São Paulo, Pulo do Gato, 2012.

2. CANDIDO, Antonio. “O ato crítico”, in A Educação pela Noite & Outros Ensaios. São PauloEditora Ática, 1989.

3. CANDIDO, Antonio. “O direito à literatura”, in Vários Escritos. São Paulo/Rio de Janeiro, Duas Cidades/Ouro sobre Azul, 2004.

All I need

O interfone tocou e ele deixou de lado as planilhas. Às onze da noite, não havia muitas pessoas que o procurariam assim, em casa, sem nem mandar uma mensagem antes – não deveria ter se surpreendido ao ouvir a voz dela do outro lado do interfone. Se surpreendeu e tentou acalmar o coração que batia descompassado.

– Ei, Tato? Sou eu. Posso subir?

Ela era a única pessoa que não avisaria antes de aparecer – nem teria como. O número de telefone que ela conhecia ele tinha jogado fora junto com todas as outras lembranças que haviam sobrado. Mas o endereço ainda era o mesmo, e ela aparentemente ela não o havia esquecido, nem havia esquecido a mania de achar que era importante  suficiente pra poder aparecer na casa dele assim, sem aviso, numa quinta-feira à noite qualquer. Como se ele estivesse à sua disposição, não tivesse trabalho pra fazer, ficasse sentado na sala esperando visitas noturnas do passado.

Ainda estava parado ao lado do interfone quando ouviu as duas batidas leves na madeira. Passou a mão pelos cabelos e foi em direção à entrada do apartamento. Por costume, dirigiu-se ao olho mágico. Era estranho – quando ela ainda frequentava sua casa, nunca batia à porta. Assim que se mudara, ela havia ganhado a chave. Ele não se lembrava nunca de tê-la visto assim, disforme, o corpo achatado, o rosto tão maior que o resto, olhos de pires encarando a porta.

Abriu. Ela levantou o olhar e o cruzou com o seu. O rosto dela estava vermelho do frio, os cabelos um pouco despenteados, pedaços presos no lenço que ela levava envolto ao pescoço. Ela sorriu, sem graça, ele se afastou para que ela entrasse.

Entrou um pouco hesitante, como se de repente estivesse na dúvida se aparecer ali tinha sido mesmo uma ideia muito inteligente. Olhou em volta, e ele acompanhou seu olhar, tentando ver a sala através dos olhos dela, cinco anos depois. Alguns móveis haviam mudado de lugar. O sofá era outro, a tevê também. Os livros continuavam empilhados em um dos cantos, rente à parede, perto da janela.

– Você finalmente emoldurou seus pôsteres.

Ele riu. Cinco anos depois e era essa a primeira coisa que ela dizia ao reencontrá-lo.

– É, tomei vergonha na cara há algum tempo. Quer sentar? – apontou o sofá agora preto, de couro, tão diferente daquele antigo, de espuma e com manchas no forro que ele havia usado durante anos.

– Que estranho não reconhecer as coisas aqui… – ela disse meio para si mesma, enquanto se sentava em uma das pontas. Ele puxou uma cadeira.

– Bom, já faz tempo… Mas algumas coisas ainda são as mesmas.

Ela olhou para os livros e deu uma risada que misturava espanto e indignação – o descaso dele com os livros sempre a irritara profundamente.

– O que houve, Luci? Aconteceu alguma coisa?

Ela pareceu surpresa por ouvi-lo dizer seu nome. Levantou os olhos do sofá e pareceu ficar um pouco envergonhada.

– Não, é que… Eu sei que deve parecer loucura eu aparecer aqui assim, do nada…

– Um pouco.

– Desculpa. Eu não sabia como entrar em contato, seu número mudou, qualquer tipo de contato virtual seria impessoal demais e eu queria, eu precisava te ver.

– Você tá bem? Tá tudo bem?

– Tudo. Tudo. E com você?

– Também. – Olhou-a um pouco torto. – Não fui eu que apareci na sua casa às onze da noite.

– Ha ha. Eu sei. Desculpa por aparecer assim.

– Bom, você já está aqui…

– É só que… – Respirou fundo, tomando coragem. – Ok, isso vai parecer tão idiota, mas eu não conseguia dormir e eu simplesmente precisava te ver e saber e falar então… – Ela parou de novo. – Você… Você ainda pensa na gente?

– Como assim?

– Não quero dizer se você me ama nem nada disso, – apressou-se a explicar. – Eu sei que a gente terminou há anos. Mas você não lembra do que passou, não pensa em como tudo poderia ter sido diferente?

Ele se remexeu incomodado.

– Nos últimos dias eu tenho pensado em muita coisa. Sem motivo algum, nada aconteceu, mas… Algumas coisas têm me atormentado. Eu não durmo direito há dias, briguei com meu namorado por nada e achei que talvez vindo aqui e falando, talvez eu pudesse melhorar. Pra minha sorte, você ainda mora no mesmo endereço.

– Mas o que eu tenho a ver com o que tá acontecendo com você? A gente não se vê e nem se fala há tanto tempo.

– Mas não importa! E eu te odeio por isso às vezes. Todos os dias, nos últimos cinco anos, eu fui atormentada por você. Não tem um dia que passe sem que, pelo menos uma vez, alguma coisa me lembre você, me dê vontade de te mandar uma mensagem, de dizer “Achei isso a sua cara”, de saber como você está. Não é bizarro que eu não faça a mínima ideia de como você está? E você não saiba mais nada da minha vida? Eu tentei te apagar de todas as formas, de todos os meios, e ainda assim é uma luta diária comigo mesma, tentando comprimir as lembranças e te colocar no fundo da minha mente, num lugar bem escondido, pra seguir o dia normalmente. E você sempre, inevitavelmente aparece.

“Eu já comecei a te escrever um email incontáveis vezes. Nunca tive coragem de terminar. Até porque, bom, como terminaria? Abraços? Beijos? Até mais? Com amor? Isso se não cair no spam. E eu não aguentaria um email sem resposta, sem saber se foi lido, sem ver sua reação. Mas também nem sei o que escrever. É mais uma vontade passageira, uma lembrança rápida, vontade de saber da sua vida.

“E na maior parte dos dias eu estou bem. Eu estou feliz. Bem feliz, na real. Mas aí de repente eu vejo alguma coisa que vence minhas barreiras mentais e me atinge onde eu nem sabia que ainda podia ser atingida, e eu começo a lembrar de tanta coisa, e de como acabou, e de como eu sofri – e de como você sofreu –, mas a lembrar também de como era bom e sinceramente foram os melhores dois anos da minha vida. Enquanto a gente se amou foi incrível, não foi? Mas e se não foi pra você? E se isso é só a minha mente apagando tudo que houve de ruim e me fazendo lembrar só do lado bom, e se na verdade foi uma merda e você ficou feliz por ter acabado, aí onde ficam esses dois anos que ainda me atingem?”

Ela parou, mexendo nos fios que saíam da ponta do seu lenço. Ele ficou olhando para as mãos dela, tão pequenas, ele ainda se lembrava de como eram macias quando ele as apertava, como a mão dele envolvia as dela completamente. O silêncio começou a ficar pesado.

– Você sabe que foi incrível.

– Eu sei.

– Você poderia ter me procurado.

– Poderia mesmo, Tato?

– Eu também pensei em você. Não é como se a gente conseguisse apagar completamente dois anos da nossa vida só porque o namoro acabou.

– Não sabia como.

– Porque aparecer no meio da noite, cinco anos depois, é uma alternativa super normal.

– Eu sei que não. Mas eu não sabia mais o que fazer.

– Foi você quem me disse pra não te procurar mais depois de tudo aquilo.

[Ele se lembra do telefonema. Do susto. Das paredes brancas do hospital, do gosto amargo na boca. Dela pálida. Do medo. Do maior medo que ele já sentira até então.]

– Eu precisava me afastar de você. Eu não ia suportar. Mas agora eu sei que não saber de você é tão ruim quanto.

– Eu sempre tive medo que você fizesse algo assim. Desde que a gente se conheceu.

– Eu lembro.

– Você me contou como se fosse a coisa mais normal do mundo, e eu não entendi a gravidade daquilo. Mas eu queria tanto estar com você que nada mais importava.

– Você agiu com tanta naturalidade quando eu te contei…

– Você era a pseudo-gótica de 17 anos mais linda que eu já tinha conhecido. Eu tinha 20 anos. Nada mais importava. Nada que você dissesse poderia me assustar.

[“Às vezes eu pego os remédios da minha mãe. Eu penso em tomar todos de uma vez. Às vezes eu surto.”

Não sabia por que, mas para ele conseguira contar. Como se não fosse tão ruim assim.

“Me liga. Se precisar eu surto com você.”

Uma tarde no parque. Ela se representava por roupas, os outros pensavam. Ela se escondia nas roupas, ele parecia saber. Tanta gente, e ninguém. Só ele.

“Me liga.”]

Ela riu.

– Eu era pseudo-gótica, né? Deus, que fase.

– Eu nunca… Eu nunca quis que isso acontecesse, Luci. Eu nunca consegui pedir desculpas, mas eu nunca quis que aquilo acontecesse.

– Eu sei. Eu não te culpo, não mais. Mas não é como se tivesse sido fácil. Eu lembro do desespero, do pânico, de querer ser ouvida. Era como se eu falasse com você e nada te atingisse. Por mais que eu gritasse, você não ouvia. Então eu fiz a única coisa que parecia possível.

Ela falava baixo, agora. Meio pra si mesma. Com vergonha de admitir a fraqueza terrível daquelas semanas. Ele sabia que ela odiava desmoronar. Ela odiava não ser forte.

Ele se lembrava de conhecê-la numa festa, ela uma adolescente que, aos 17, só saía com pessoas de 20 pra cima. Ia nas festas, fumava e dormira com metade dos amigos dele. Mas, por desencontros da vida, ele ainda não a havia conhecido, e há meses ouvia falar da já famosa Zoey. Quando finalmente a conheceu, levou um choque. Porque a sacou de cara, porque não era possível que ninguém tivesse reparado, porque ele não se importou. E, principalmente, porque não pretendera se apaixonar.

[“E aí, qual o seu nome?”

“Zoey.”

“Eu quis dizer o verdadeiro.”

Ela deu mais um trago no cigarro. Mau. Bom.

“Prudence.”

“Se você quer se criar, devia escolher nomes menos absurdos. É meio óbvio demais.”

Tirou os olhos das unhas e o encarou. Ela não gostava de falar de si mesma.

“Então?”

“Luci.”]

Ficaram em silêncio, como se o peso das lembranças os impedisse de falar.

– O que tem me atormentado é que… Como é que a gente sabe que ama alguém? Porque eu sabia. Eu te amava desesperadamente, como nunca tinha amado alguém antes. Era algo visceral.

Ele sabia exatamente do que ela estava falando.

– Racionalmente, eu sei que isso não era bom. Quer dizer, olha como me quebrou. Como eu fiquei quando você me deixou.

– Luci…

– Eu não tô dizendo que foi sua culpa, Renato. Talvez parte tenha sido, mas eu estava desequilibrada, eu precisava de ajuda, você sabia disso e você me falava isso, mas eu não queria ouvir. Eu achava que você era suficiente pra me fazer ficar bem.

– Esse é um peso muito grande pra se colocar em alguém.

– Eu sei.

[Um quarto vermelho. Cobertores. Ela escreve na parede pra deixar marcada em palavras uma parte ínfima e ao mesmo tempo a parte toda, toda parte, em todo lugar, tudo que eles eram e tudo o que aquilo significava. You are all I need. E era mesmo. As paredes vermelhas, as bocas seladas, a respiração ofegante, ela não tinha mais medo de quase nada. Ela só tinha medo dele. Ela só tinha medo das palavras. E da necessidade. Mas ela as escreveu mesmo assim. You are all I need. Gravadas na parede, preto e vermelho. Eles se complementavam. Ela se achava forte. You are all I need.]

– Você me colocou num pedestal, e eu não sabia como sair dali sem te machucar. Me matava que eu não conseguisse fazer você feliz. Mas eu não conseguia nem me fazer feliz, eu era um retardado imaturo aos 22. Realmente achei que acabar tudo seria o melhor pra nós dois.

– Não foi o relacionamento mais saudável do mundo, pra se dizer o mínimo.

– That’s an understatement.

Ela sorriu. Daquela mania ela também se lembrava bem, a mania dele de soltar frases em inglês quando não conseguia se expressar bem em português. Pelo visto ele vinha controlando melhor o hábito nervoso que tanto incomodava alguns amigos – antigamente, ele já teria soltado pelo menos umas dez expressões estrangeiras ao longo da conversa.

– Mas apesar de tudo, eu te amava. Muito. E eu quebrei de um jeito que achei que nunca iria me recuperar, porque eu te amava e sem isso eu não sabia quem era. Sem você, eu não era ninguém, porque você estava tão intrinsicamente ligado à minha identidade que, quando você terminou nosso namoro, você aniquilou minha identidade também. E eu sei que isso não é saudável, mas foi como eu aprendi o amor. E alguns anos depois eu tive a chance de reaprender, e eu já namoro há um ano e meio, agora. E é bom. É muito bom. É calmo. É tranquilo. Mas eu me pego pensando se isso é amor. Se amor pode ser algo que não te machuca.

– Algumas pessoas poderiam discordar. Não pode ser amor se te faz mal.

– Amor por definição faz mal. Se as pessoas fossem inteligentes, ninguém se apaixonaria.

– Pela sua lógica, se o que você sente agora não te faz mal, não pode ser amor.

– Me faz mal. Me fez invadir sua casa no meio da noite depois de cinco anos. Mas não me machuca.

– Isso não faz muito sentido.

– O amor também não faz sentido.

– Você consegue se imaginar sem ele?

Ela parou para pensar antes de responder.

– Consigo. Dói, mas consigo.

– Você sente saudades dele?

– Sinto. Às vezes eu acho que deveria sentir mais, e às vezes a gente passa tanto tempo juntos que eu só quero ficar sozinha, mas inevitavelmente quero ele de volta.

– Olha, Luci… Eu não sei teorizar sobre o amor. O que eu sei é que eu me apaixonei outras vezes, e nunca foi igual a quando eu amei você. Nunca foi tão intenso, embora também tenha doído quando acabou. Talvez simplesmente não seja comparável. Porque cada amor assume uma forma, e, querendo ou não, você foi a primeira mulher por quem eu me apaixonei.

– Mas foi só isso? Só foi tão forte porque foi o primeiro? Me dá a impressão que isso é diminuir o que a gente sentiu um pelo outro.

– Eu não acho que diminui, mas põe em perspectiva. Foi incrível, e mudou a gente de um jeito profundo, mas foi a primeira vez que nós dois passamos por qualquer coisa do tipo. Eu nunca te esqueci completamente, e acho que isso nunca vai acontecer, e eu me pergunto como teria sido se eu tivesse te conhecido depois. Se nós dois não fôssemos tão imperfeitos. Tão incompletos. Se eu tivesse te conhecido agora, aos 27, estável, feliz, finalmente.

– Eu me pergunto isso sempre. E eu me sinto tão mal por isso. Porque eu amo ele. De verdade. Mas eu não consigo deixar de me perguntar como seria se a gente se conhecesse hoje. Eu sei que isso é idiota, porque nunca seria a mesma coisa. Ao mesmo tempo, talvez eu precisasse tentar, pra saber se foi tão intenso porque foi o primeiro e eu era imatura, ou se foi tão intenso simplesmente porque… era você.

Ele não sabia o que dizer. Tudo aquilo parecia surreal. Tanto tempo, tanto tempo ele esperara por isso. Por uma abertura. Por uma chance. E agora, depois de cinco anos ela voltava, aparecia de repente, soltava em cima dele todos os pensamentos que já o haviam atormentado e que finalmente ele conseguira amenizar o suficiente para viver em paz com eles. Viver em paz com o fato de que acabara, era isso, eles haviam vivido um romance e ela pertencia ao passado.

E ai ela aparecia.

– Não sei o que você espera que eu te diga.

– Eu não espero nada.

– Você veio até aqui.

– Eu não sei o que eu esperava. De verdade. Mas eu precisava te falar. Eu precisava te ver.

Ele precisava fazer algo. Se levantou e foi até a cozinha, pegou um copo de água. Apoiou-se no armário da pia e segurou o copo nas mãos por alguns instantes.

– Renato? Seu celular. Tá tocando.

Ele correu pra sala. Atendeu.

– Oi. Tudo bem. Não, não aconteceu nada, tô terminando umas planilhas, tô com a cabeça cheia. Posso te ligar mais tarde? Também te amo. Beijo.

Não conseguia olhar pra ela.

– Renato?

– Eu já pensei em tudo isso. Durante muito tempo. Eu quis te procurar e não sabia como, e no final achei que era mais fácil deixar tudo pra trás. Eu me apaixonei de novo, deu errado, e de novo e de novo, em parte porque eu não conseguia deixar você totalmente pra trás. Então tive que aprender a conviver com isso, e agora eu também estou bem. E eu tô noivo.

Silêncio.

[He was all she neeeded she needed him he needed her she was all he needed they needed she needs it. Ela gritou. Que o grito passasse as paredes, as janelas, os carros, atravessasse cidades, chegasse até ele. Que ele viesse. Como fosse, mas viesse. Que ele se importasse. Que o grito fosse algo. Que doesse. E o grito a sufocou por dentro e todos os gritos do mundo e toda a mágoa e tudo que eles poderiam ser e tudo que jamais seriam. Chorou até a exaustão. Dormiu.]

– Meu Deus. E você me deixando falar tudo isso. Puta que pariu, Renato.

– Luci…

– Desculpa. Eu nunca deveria ter vindo aqui.

Ela já estava levantando e pegando a bolsa. Andando até a porta.

– Luciana, espera. Olha, desculpa, mas você chegou aqui de repente e eu não sabia como te dizer depois que você começou a falar tanta coisa.

– Talvez na hora em que eu falei que estava namorando você poderia ter soltado essa informação um pouco importante? Que você está noivo?

– De que importa? Você mesma disse que não esperava nada vindo aqui.

– É lógico que importa!

Ele viu as mãos dela tremendo ligeiramente.

– Que idiota. Que idiota. – Fechou os olhos e respirou, se recompondo. – Eu vou embora. Desculpa. Eu espero sinceramente que você esteja feliz. E que você seja feliz. Obrigada por ter me ouvido.

– Anota meu telefone, pelo menos. Eu não quero perder contato de novo. Você tem razão. É bizarro não saber da sua vida e você não saber da minha.

Ela hesitou. Por favor por favor por favor por favor por favor. Andou até ele e lhe entregou o celular. Ele fez o mesmo.

Acompanhou-a até a porta.

– Eu nem te ofereci água, café, nada. Que péssimo anfitrião.

– Acho que a gente já passou do ponto das formalidades faz tempo.

– Obrigado por ter vindo.

Ela deu um sorriso triste. Não havia o que ser dito.

Ele olhou para o celular, viu o número gravado, o nome na tela.

Zoey.

Quando levantou os olhos, ela já não estava mais ali.

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3.

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