“Se lêssemos mais, mataríamos menos.”

Em um bate papo que rolou com o Luiz Ruffato lá na Caminhos da Leitura, biblioteca comunitária do Ibeac em Parelheiros (região do extremo sul de São Paulo), o Bruno Souza, um dos mediadores da biblioteca, fez a seguinte pergunta ao escritor:

– Como você acha que a literatura pode intervir nas políticas públicas?

Eis a reposta do Ruffato.

“Eu não acho que a literatura em si tenha a possibilidade de mudar políticas públicas. Mas eu acho – eu acho não, eu tenho certeza – que a literatura é capaz de mudar o leitor. Aliás, eu só acredito nisso, se eu não acreditasse que a literatura tem algum sentido eu não iria escrever, iria fazer outra coisa.

Eu acredito que, como ela pode mudar uma pessoa, um leitor, se a sociedade é um monte de leitores, você pode mudar a sociedade individualmente, através de cada pessoa. Cada pessoa pode se tornar veículo de mudança da sociedade. E, veja, isso de um lado.

De outro lado, eu me sinto muito triste quando vejo que poucos colegas meus percebem a importância que tem a sua fala no conjunto da sociedade e não fazem uso dela pra mudar alguma coisa, pra propor alguma mudança. Eu já estive com vários colegas que, quando perguntados a respeito de questões políticas, respondem, ‘Bom, sobre política eu não falo, eu falo sobre minha obra’, como se alguém tivesse obra. Obra, obra, sei lá, obra tem um pedreiro, escritor não tem obra, sabe. Então, assim, eu fico muito triste quando eu percebo isso nos meus colegas, que se recusam – veja bem, não é levar verdades, porque eu não tenho, mas propor questões, como essas que eu propus no discurso de Frankfurt.

Eu fico muito feliz, Bruno, que você tenha levantado e falado assim, porque eu apanhei tanto, você não tem ideia. Vocês não têm ideia dos ataques que eu sofri, ataques pessoais, a ponto de algumas pessoas chegarem a falar, ‘Tá vendo, é isso que dá deixar o filho de um pipoqueiro e de uma lavadeira falar em nome do Brasil’.

Mas eu acho que, assim, é isso, um país ideal seria justamente um país em que, não que todas as pessoas gostassem de ler, não é assim, tem gente que não gosta de ler e ponto final. Mas que, pelo menos, elas tivessem a oportunidade de dizer: eu já tentei ler, eu já tive acesso à leitura, mas eu não gosto, eu gosto de fazer outra coisa, eu gosto de fazer camping, de nadar, de surfar. Eu li, achei que é legal, mas não é pra mim. Porque é isso mesmo, a leitura não é pra todo mundo mesmo. Mas o acesso à leitura tem que ser pra todo mundo. E é por isso que eu brigo.

Então eu não tenho nenhuma dúvida de que a leitura torna uma pessoa melhor. E por uma razão muito simples, aqui não tem nenhuma novidade: é porque, quando você lê, você faz um exercício muito interessante de alteridade. Por exemplo, quando você está ouvindo música, ou numa peça de teatro, ou no cinema, ou mesmo vendo uma obra de artes plásticas, esse movimento é, não necessariamente, mas em geral, em conjunto. Agora, a leitura, não. A leitura é sempre uma fruição individual e, nessa fruição individual, você lê se colocando na pele do outro. E, quando você se coloca na pele do outro, você percebe uma coisa muito importante: a importância que o outro tem pra você. A gente só existe porque o outro diz que você existe. Você sozinho não é nada. É o outro que te reconhece e, portanto, você só existe em função do outro.

Eu não tenho dúvida nenhuma, Bruno, que, se nós lêssemos mais, nós mataríamos menos.”

[Pedacinho do TCC que eu achei que valia a pena compartilhar com vocês. Luiz Ruffato dando uma aula sobre a importância da literatura. <3]

When we do find each other again

“I’ll be looking for you, Will, every moment, every single moment. And when we do find each other again, we’ll cling together so tight that nothing and no one’ll ever tear us apart. Every atom of me and every atom of you… We’ll live in birds and flowers and dragonflies and pine trees and in clouds and in those little specks of light you see floating in sunbeams… And when they use our atoms to make new lives, they wont’ just be able to take one, they’ll have to take two, one of you and one of me, we’ll be joined so tight…” (The Amber Spyglass)

Oxford é um sonho que eu tinha esquecido ter.

Eu devia ter uns 10 anos quando li A Bússola Dourada pela primeira vez. Não lembro exatamente quando foi – minha primeira lembrança a respeito da trilogia de Pullman é devorar, em uma viagem a Florianópolis em 2002, o último livro da série, A Luneta Âmbar. Não existe na minha cabeça um antes, existem os anos muito antes em que eu não conhecia a série e existe a Lívia completamente apaixonada por Fronteiras do Universo. 

Desde aquele verão na praia, há dez anos, já reli incontáveis vezes os livros, tentando eleger um favorito, buscando referências, tentando superar o fracasso do filme, etc. Comprei Lyra’s Oxford nem sei bem como (acho que pedi ao meu pai que trouxesse dos Estados Unidos), torci por anos para que The Book of Dust fosse publicado.

Mas a Oxford de Lyra e Will sempre foi uma coisa muito distante pra mim. Uma coisa que sim, teoricamente existia na vida real, mas tão longe da minha realidade que bem poderia ser um universo paralelo ao meu.

Quando planejei vir a Londres, pensei em visitar Oxford – a Oxford da Oxford University, a cidade conhecida que muita gente visita. Não liguei os pontos até estar no ônibus, já a caminho. Nunca me arrependi tanto de não ter planejado ficar mais tempo em uma cidade.

A verdade, no entanto, é que, para mim, dois ou três dias tampouco seriam suficientes. Porque eu não quero pontos turísticos, museus – a não ser que seja o dos crânios perfurados – ou fotos de prédios. Eu quero viver ali, andar pelas ruas e a cada dia reconhecer uma rua , uma loja, quero subir nos telhados da Jordan, ver a casa do Will, chorar no solstício de verão, ler um livro no Jardim Botânico e imaginar meu Pan correndo ali pelas árvores. O que eu quero não sei descrever; é a sensação de cada uma dessas coisas, o viver e sentir Oxford e, quem sabe, um dia vislumbrar o que inspirou Pullman a escrever a história que marcou minha vida.

Mas, por enquanto, eu me contento em sentar no banco deles. Porque, no fundo, esse banco sempre foi meu também.

“It’s this way,” said Lyra, tugging at Will’s hand.

She led him past a pool with a fountain under a wide-spreading tree, and then struck off to the left between beds of plants toward a huge many-trunked pine. There was a massive stone wall with a doorway in it, and in the farther part of the garden, the trees were younger and the planting less formal. Lyra led him almost to the end of the garden, over a little bridge, to a wooden seat under a spreading, low-branched tree.

“Yes!” she said. “I hoped so much, and here it is, just the same…Will, I used to come here in my Oxford and sit on this exact same bench whenever I wanted to be alone, just me and Pan. What I thought was that if you – maybe just once a year – if we could come here at the same time, just for an hour or something, then we could pretend we were close again – because we would be close, if you sat here and I sat just here in my world…”

“Yes,” he said, “as long as I live, I’ll come back. Wherever I am in the world, I’ll come back here–“

“On Midsummer Day,” she said. “At midday. As long as I live. As long as I live…”

He found himself unable to see, but he let the hot tears flow and just held her close.

e ela chorou pelo que havia sido…

Quando algo acabou, então acabou. Chegou ao fim e pronto. Deixe ir! Ignore, e console-se, caso queira consolar-se, com o pensamento de que jamais se recupera a mesma coisa que se perdeu. Sempre será uma coisa nova. No momento em que nos deixa, ela se modifica. Isso é verdade até mesmo em relação a um chapéu de que se corre atrás; e eu não me refiro a um plano superficial, mas a um plano profundo… […] Lamentar-se é um estarrecedor desperdício de energia, e ninguém que pretenda ser escritor pode se permitir tamanha indulgência. Não se pode dar forma a isto; a partir disso nada se pode construir; serve apenas para a gente chafurdar. (K. Mansfield – Je ne parle pas français)

laetitia

Gabriel Pedrosa, estudante de Arquitetura e Urbanismo da FAU
texto integrante da 17ª Mostra Nascente

(…)

eu me rendo, querida,

entre a necessidade

suas imagens

latendo sob outras paisagens

e o tédio e o tédio e coisas que acaso

brilham

nos desvãos a espera de mais dias

mesmos

na contraluz olhares trocados

a esmo e explode como em fruta açúcares e álacres prenúncios de morte em meio ao trânsito

o cheiro do sexo dessa que sem mais tomou pra si o centro de todos os meus

volteios

(…)

Toda paz que eu preciso

Meu horóscopo esses dias tem me dito pra ficar com a família, meio reclusa, refletir sobre meus sentimentos, trabalhar arduamente, desenvolver meu lado artístico. Estou seguindo à risca as instruções – vim pra terrinha natal ficar na casa da mãe, estou criando painés e capas de caderno com colagens, fazendo colares, planejando a decoração do meu quarto e… lendo.

Gente, como eu amo ter tempo pra ler. Aliás, paciência pra ler. Engraçado – quando eu era menor, eu era meio antissocial até, porque tava sempre com um livro pra lá e pra cá e não tinha nada que eu gostasse mais de fazer do que isso. Não que eu não goste mais de ler – eu amo. Mas às vezes dá uma preguiça de parar tudo e ficar simplesmente absorta na leitura… O problema é que eu morro pro mundo quando tô lendo, e aí não sei. Andou faltando vontade, desde o ano passado, pra morrer assim com freqüência. Provavelmente porque ano passado foi o fatídico anodovestibular, então eu queria aproveitar meu tempo livre pra viver em sociedade, não morrer (e renascer) na solidão dos meus livros. E agora com toda essa correria e mudança e faculdade, me peguei no furacão de novos amigos, saídas, festas.

É por isso que, apesar de saber que isso provavelmente vai foder um pouco com as minhas férias de dezembro, não tô reclamando muito desse adiamento do início das aulas por causa da gripe suína. Me dá mais tempo pra curtir leituras boas, em casa ou no parque. Bom resto de férias pra quem ainda as têm. :)

Recomendações:

“Adultérios”, Woody Allen – 3 histórias no estilo de peça de teatro: uma mini introdução e o resto é só diálogo, todas em Nova York e com típicos personagens Woody Allenianos. Engraçadas e muito, muito reais.

“A mulher do viajante no tempo”, Audrey Niffenegger – Clare Abshire conhece Henry quando tem 6 anos e ele, 36. Quando Henry DeTamble conhece Clare, ele tem 28 e ela, 20. Henry é um viajante no tempo, e suas idas e vindas fazem com que ele conheça Clare em diferentes épocas. Elas também fazem com que ele tenha que abandoná-la com muito mais freqüência do que gostaria – sem saber se vai voltar ou não. Um romance sobre espera, descobrimento, ausência, relacionamentos, amizade… pessoas. Um dos melhores livros que já li, e reafirmo isso toda vez que releio. Já deve ser só a 20392839 vez. :>

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