Disclaimer

Toda semana, o WordPress me avisa que está na hora de publicar um texto novo. Mas as coisas me pareciam cruas demais, nuas demais para serem publicadas. A nudez pode ser linda se trabalhada direito e exposta por vontade própria, não por descuido. A melhor parte da escrita é poder mostrar só o suficiente para que as pessoas tenham certeza que sabem do que você está falando, quando na verdade se está falando de algo completamente diferente. Misturar cenários imaginados à dor, expondo as feridas através de espelhos disformes. Expor ajuda a cicatrizar. Torna pública uma dor privada, dá perspectiva a um final mal resolvido, traz esperança. Esperança de que a próxima história será melhor.

Eu só consigo escrever sobre o que dói explicitamente quando não dói mais. Já vieram me falar, “li seu último texto, você não me parece bem, parece que não passou ainda.” E eu me senti profundamente ofendida porque pra mim é tão óbvio que, se não tivesse passado, eu não teria publicado aquilo. Seria um erro de iniciante se expor assim.

(Eu já o cometi vezes demais.)

Se a nudez transparece sem que queiramos, me sinto enganada por mim mesma, me sinto exposta de uma maneira cruel. Odeio a ideia de que os outros possam perceber, mesmo que por um reflexo, o que realmente estava por trás daquele texto. Que imaginem, claro, deixe que imaginem, mas nunca que saibam ao certo.

Eu não escrevo quando ainda estou sangrando. Mas, às vezes, é preciso escrever pra cicatrizar.

Quaresma

Outro dia me lembraram que começava a quaresma. Eu nunca entendi muito bem o que ela significava, mas sempre soube que a gente deveria ficar sem fazer algo do qual gostamos muito por quarenta dias, a fim de pagar nossos pecados (é isso?).

“Seus pecados, suas regras,” ele me disse.

E eu fiquei pensando que pecados eu tinha que pagar, e que regras meu próprio eu iria impor para que eu me redimisse. E decidi escrever.

Quarenta dias escrevendo. Uma punição dura e justa para redimir meu espírito.

Falhei já no primeiro dia. E no segundo. E no terceiro. E em todos que vieram depois, até agora.

Não sei mais em que dia da quaresma estamos, mas sinto que meu pecado e minha punição foram não escrever. Não escrever faz com que cada um dos meus sentimentos fique apertadinho aqui dentro. Não escrever me faz irritadiça e impaciente, me faz chorosa, cabisbaixa, e, principalmente, apática.

Quanto menos eu escrevo, menos eu vivo.

Até que tudo isso vira tanto que transborda. Transborda em palavras desconexas numa tela em branco, pra leitores desconhecidos, transborda pra quem possivelmente não se importa, porque eu não quero que se importem. Eu odeio que se importem (embora eu tão claramente precise).

Talvez meu pecado seja precisar sem querer, seja tentar lutar contra algo que é intrínseco a quem eu sou.

Mas meu corpo impõe suas próprias regras. E eu escrevo.

Dez anos depois, com amor

Eu, em uma das muitas comemorações de aniversário

Então eu fiz 24 anos.

Eu amo aniversário, eu sempre amei aniversários. Tem quem não goste, tenha vergonha, odeie envelhecer, não goste de ser o centro das atenções: eu amo. Aniversário é aquele dia do ano todinho nosso, especialmente nosso, em que a gente espera que todo mundo se lembre com carinho da gente e nos deseje todas as coisas boas da vida. Eu gosto de comemorar se possível a semana inteira, várias vezes, com todo mundo que eu conheço. Amo ganhar presentes – não pelo valor monetário do objeto, mas pelo valor sentimental que tem alguém desprender tempo e criatividade pensando em algo só pra você –, amo fazer jantares, reunir os amigos, me sentir especial. E eu amo sentir que um ciclo se fechou e um novo está começando.

Eu não sei onde meu eu de 14 anos esperava que eu estivesse aos 24. Mas sei que 2004 foi um dos anos mais difíceis da minha vida. Em 2004 meus pais se separaram, briguei com todas as minhas amigas, passei por situações horríveis e terminei o ano fazendo terapia porque eu achava que tinha depressão (não tinha, era só adolescência mesmo). Dez anos depois, 2014 também foi um ano difícil. Mas é bom olhar pra trás e saber que eu sobrevivi, eu passei por tudo isso, eu saí inteira e eu saí melhor.

Com 14 anos, meu sonho ainda era ser escritora um dia, e eu não tinha grandes aspirações pro futuro. Com 14 anos, meu maior sonho era um dia ter amigos com quem eu de fato me identificasse. Com 14 anos, eu queria amor, acima de tudo. Eu não sei onde meu eu adolescente esperava que eu estivesse aos 24, mas certamente ela sonhava que eu tivesse conseguido pelo menos isso: ser amada.

Enquanto comemorava meu aniversário, em algum momento eu parei, olhei as pessoas ao meu redor, aquelas pessoas que se deslocaram por São Paulo pra me ver, me abraçar, numa terça ou numa quarta à noite, algumas que ficaram minhas amigas há meses, outras que já o são há anos, e pensei: é isso. Isso é amor. É assim.

Eu não tenho vergonha nenhuma de admitir que entre meus livros preferidos figuram – e sempre figurarão, provavelmente – Fronteiras do Universo e Harry Potter. Essas duas séries foram meu refúgio nessa época da vida em que nada parece que vai dar certo, e eu as guardo com carinho imenso no coração. Principalmente porque ambas tratam desse tema que me é tão caro: a amizade. Eu sempre admirei a lealdade da Lyra, a capacidade dela de encantar as pessoas, como ela era capaz de fazer qualquer coisa por um amigo. Tem romance, sim, mas a trama toda começa porque ela se dispõe a abandonar sua vida segura para salvar um amigo sequestrado. Em Harry Potter, também, o amor romântico nunca foi tema central da narrativa, mas o amor como essa coisa que nos torna humanos, que nos une, que torna o mundo um lugar possível pra se viver. Ele trata de família, amizade e lealdade, as coisas mais importantes pra mim nessa vida.

Em algum momento da vida eu encontrei meu lugar e eu encontrei pessoas que quase dez anos depois não me abandonaram. Eu encontrei pessoas com quem eu nunca briguei em cinco anos de amizade, pessoas que topam qualquer projeto, pessoas que vão virar noites por você e com você, vão rodar a cidade de carro por você, vão te mandar presentes mesmo morando em outra cidade, vão atender qualquer ligação sua, vão te abraçar quando você quiser chorar e vão dizer que vai ficar tudo bem.

Eu não sei onde meu eu de 14 anos esperava que eu estivesse aos 24, mas eu tenho certeza de que ela ficaria orgulhosa. Eu queria poder voltar e dizer pra ela que vai ficar tudo bem, que não vale a pena manter por perto o que te faz mal, que ela é muito melhor do que aquilo. Que 2005 vai ser um ano incrível, em que ela finalmente vai começar a não se sentir tão deslocada e vai começar a ter orgulho de quem ela é. Que em 2005 ela vai conhecer as pessoas que vão ficar. Mas, principalmente, que tudo por que ela tá passando vai ser importante pra ela chegar até aqui. Com sonhos, projetos, ambições e muito, muito amor.

Elogio fúnebre

Ninguém avisa a gente da importância dos rituais.

A gente vê, é claro, a vida inteira: há rituais para tudo. Para o nascimento, para a entrada na vida adulta, para a união amorosa – para cada etapa da vida, há um rito de passagem.

Ninguém avisa a gente que os rituais existem por um motivo, e que sem eles é tudo muito mais difícil.

Há um trecho em A Terra Inteira e o Céu Infinito, romance de Ruth Ozeki, em que uma das protagonistas descreve em detalhes todos os passos do funeral de uma monja budista. Como ela tem que escrever um último poema antes de morrer, como ela se deita, como é envolta em um túnica branca sem um único nó para não ficar amarrada a essa vida, como tudo tem que ser feito de trás pra frente, como é o banho, como são as rezas, como é a cremação, que objetos se escolhem para enviar ao outro mundo, como se guardam os ossos. A outra protagonista, ao ler isso, se arrepende de não ter feito um funeral para a mãe.

Eu me arrependo de não ter feito um funeral para nós.

Talvez ritualizar o fim tivesse facilitado as coisas. Talvez tenha faltado um pouco de solenidade, de tradição e de cerimônia para ajudar a alma a entender que, de fato, acabou. Que morreu o amor e que os mortos não voltam, nunca. Eu queria ter feito um elogio fúnebre a tudo de bom que foi, e cremado e jogado no mar tudo que passou, quem sabe assim queimando também dentro a mágoa por todas as feridas que a gente mesmo criou.

Talvez, se eu tivesse escrito um último poema, eu nunca mais quisesse escrever sobre nós. Talvez, se eu tivesse chorado por alguns dias, eu não tivesse que fazer tanto esforço para controlar crises de choro no trabalho. Talvez, se eu tivesse tomado um banho ao contrário, não parecesse tudo de cabeça pra baixo. Talvez, se eu tivesse envolto meu corpo numa mortalha branca, não estivesse presa ainda a algumas lembranças. Talvez, se eu tivesse gritado, batido em algo, quebrado vasos, surtado de raiva, eu não quisesse te ferir quando lembro das palavras que você jogou contra mim. Talvez, se eu tivesse juntado os presentes, roupas, fotos e cremado toda memória física daqueles trinta e seis meses, não fosse tão difícil aceitar que agora você não faz mais parte da minha vida nem eu da sua e tudo bem. Talvez, depois disso tudo, fosse mais fácil ver você mentir pra mim.

Tem dias

É engraçado como são únicas e imprevisíveis as marcas que deixamos nas pessoas. As coisas que nos parecem mais estúpidas ou banais têm o poder de machucar alguém sem reparo, ou mudar, inexoravelmente, a maneira como o outro enxerga o mundo.

Acho que ela não imaginava que, naquele dia em que eu estava possessa com a vida, o que ela me diria ficaria comigo, marcando cada um dos meus momentos a partir de então. Ela provavelmente não podia conceber que um pensamento tão passageiro fosse ficar cravado no que me há de mais profundo quando me disse: “Não existem dias absolutamente ruins. Mas quando a gente acha que está tudo dando errado, não conseguimos enxergar as coisas boas.”

Tem dias em que a gente acorda atrasada, perde o ônibus, esquece a carteira em casa, erram nosso pedido na padaria, estamos horríveis e encontramos desconhecidos na rua, enviamos os arquivos errados, brigamos com as pessoas e temos medo de atender ao telefone porque, num dia desses, qualquer pessoa ligando só pode ser pra avisar que alguém morreu. Não há reza, café ou descanso que nos ajude a sair daquela miséria, daquela maldição que nos parece imposta por uma força maior pra nos lembrar de que a vida é assim mesmo e não adianta querer achar que você está por cima.

Mas há dias, e há dias.

Tem dias em que a gente fica até às quatro da manhã cozinhando por um bom motivo, e, por mais que tudo possa dar errado, dá certo. Em que um colega de trabalho te para no caminho da padaria para conversar sobre literatura, e você se encanta com como há pessoas interessantes por aí. Em que uma peça de teatro, depois de um dia cansativo e com você morrendo de sono, não te faz dormir – te faz mais completa. Tem dias em que tudo é bom, por mais que pudesse ser ruim. E não é que não aconteçam desgraças. Mas, de espírito leve, nenhum imprevisto consegue te tirar do sério.

Não há motivo particular pra isso: é como acordar se sentindo bonita, ou acordar se sentindo feia. É olhar no espelho e perceber seu olhar para o mundo. Tem dias em que perder o ônibus e ter que fazer o percurso a pé nos faz sorrir e curtir o sol, em que perder a hora, correr, esquecer o lenço, ficar com fome, nada, nada disso importa. E você se pergunta, andando tranquilamente depois de ter sido ignorada pelo motorista do ônibus que você precisava pegar – por quê?

E aí você se lembra que os sentimentos são como o tempo: às vezes, simplesmente temos que aceitar como nos sentimos, porque não há o que fazer. E é preciso um guarda-chuva para não sair completamente encharcada de um dia chuvoso, porque pode ser que chova por dias e dias a fio. Mas, um dia, vai passar.

Há dias nublados e há dias chuvosos e há dias em que, simplesmente, o sol sai.

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