Mitologia particular

Essa noite eu sonhei que ela me abandonava. Sem eu saber por que, ela apenas ia embora. Me deixava sozinha, com os meus demônios, os quartos vazios, os corredores ecoando as conversas que já não existiam mais.

Essa noite eu sonhei que traía. Traía sem bem saber o que, com alguém que era igualzinho a ele, embora não o fosse, e seus olhos profundos me encaravam com o peso da mágoa de se ver enganado por quem a gente ama.

Essa noite eu sonhei que caía. Caía, mas não encontrava o chão, continuava caindo, e caindo, e caindo, naquele um segundo que embarca todo o tempo que o universo já presenciou.

Acordei caindo, traindo, abandonada. Com todo peso do mundo sobre o peito, todas as tragédias perenes, todas as narrativas universais. Eu acordei sem ar. Com todo o peso dos arquétipos que carregamos em nós. Acordei, e talvez eu nunca saiba, afinal, o que eu realmente sonhei.

Dez anos depois, com amor

Eu, em uma das muitas comemorações de aniversário

Então eu fiz 24 anos.

Eu amo aniversário, eu sempre amei aniversários. Tem quem não goste, tenha vergonha, odeie envelhecer, não goste de ser o centro das atenções: eu amo. Aniversário é aquele dia do ano todinho nosso, especialmente nosso, em que a gente espera que todo mundo se lembre com carinho da gente e nos deseje todas as coisas boas da vida. Eu gosto de comemorar se possível a semana inteira, várias vezes, com todo mundo que eu conheço. Amo ganhar presentes – não pelo valor monetário do objeto, mas pelo valor sentimental que tem alguém desprender tempo e criatividade pensando em algo só pra você –, amo fazer jantares, reunir os amigos, me sentir especial. E eu amo sentir que um ciclo se fechou e um novo está começando.

Eu não sei onde meu eu de 14 anos esperava que eu estivesse aos 24. Mas sei que 2004 foi um dos anos mais difíceis da minha vida. Em 2004 meus pais se separaram, briguei com todas as minhas amigas, passei por situações horríveis e terminei o ano fazendo terapia porque eu achava que tinha depressão (não tinha, era só adolescência mesmo). Dez anos depois, 2014 também foi um ano difícil. Mas é bom olhar pra trás e saber que eu sobrevivi, eu passei por tudo isso, eu saí inteira e eu saí melhor.

Com 14 anos, meu sonho ainda era ser escritora um dia, e eu não tinha grandes aspirações pro futuro. Com 14 anos, meu maior sonho era um dia ter amigos com quem eu de fato me identificasse. Com 14 anos, eu queria amor, acima de tudo. Eu não sei onde meu eu adolescente esperava que eu estivesse aos 24, mas certamente ela sonhava que eu tivesse conseguido pelo menos isso: ser amada.

Enquanto comemorava meu aniversário, em algum momento eu parei, olhei as pessoas ao meu redor, aquelas pessoas que se deslocaram por São Paulo pra me ver, me abraçar, numa terça ou numa quarta à noite, algumas que ficaram minhas amigas há meses, outras que já o são há anos, e pensei: é isso. Isso é amor. É assim.

Eu não tenho vergonha nenhuma de admitir que entre meus livros preferidos figuram – e sempre figurarão, provavelmente – Fronteiras do Universo e Harry Potter. Essas duas séries foram meu refúgio nessa época da vida em que nada parece que vai dar certo, e eu as guardo com carinho imenso no coração. Principalmente porque ambas tratam desse tema que me é tão caro: a amizade. Eu sempre admirei a lealdade da Lyra, a capacidade dela de encantar as pessoas, como ela era capaz de fazer qualquer coisa por um amigo. Tem romance, sim, mas a trama toda começa porque ela se dispõe a abandonar sua vida segura para salvar um amigo sequestrado. Em Harry Potter, também, o amor romântico nunca foi tema central da narrativa, mas o amor como essa coisa que nos torna humanos, que nos une, que torna o mundo um lugar possível pra se viver. Ele trata de família, amizade e lealdade, as coisas mais importantes pra mim nessa vida.

Em algum momento da vida eu encontrei meu lugar e eu encontrei pessoas que quase dez anos depois não me abandonaram. Eu encontrei pessoas com quem eu nunca briguei em cinco anos de amizade, pessoas que topam qualquer projeto, pessoas que vão virar noites por você e com você, vão rodar a cidade de carro por você, vão te mandar presentes mesmo morando em outra cidade, vão atender qualquer ligação sua, vão te abraçar quando você quiser chorar e vão dizer que vai ficar tudo bem.

Eu não sei onde meu eu de 14 anos esperava que eu estivesse aos 24, mas eu tenho certeza de que ela ficaria orgulhosa. Eu queria poder voltar e dizer pra ela que vai ficar tudo bem, que não vale a pena manter por perto o que te faz mal, que ela é muito melhor do que aquilo. Que 2005 vai ser um ano incrível, em que ela finalmente vai começar a não se sentir tão deslocada e vai começar a ter orgulho de quem ela é. Que em 2005 ela vai conhecer as pessoas que vão ficar. Mas, principalmente, que tudo por que ela tá passando vai ser importante pra ela chegar até aqui. Com sonhos, projetos, ambições e muito, muito amor.

Elogio fúnebre

Ninguém avisa a gente da importância dos rituais.

A gente vê, é claro, a vida inteira: há rituais para tudo. Para o nascimento, para a entrada na vida adulta, para a união amorosa – para cada etapa da vida, há um rito de passagem.

Ninguém avisa a gente que os rituais existem por um motivo, e que sem eles é tudo muito mais difícil.

Há um trecho em A Terra Inteira e o Céu Infinito, romance de Ruth Ozeki, em que uma das protagonistas descreve em detalhes todos os passos do funeral de uma monja budista. Como ela tem que escrever um último poema antes de morrer, como ela se deita, como é envolta em um túnica branca sem um único nó para não ficar amarrada a essa vida, como tudo tem que ser feito de trás pra frente, como é o banho, como são as rezas, como é a cremação, que objetos se escolhem para enviar ao outro mundo, como se guardam os ossos. A outra protagonista, ao ler isso, se arrepende de não ter feito um funeral para a mãe.

Eu me arrependo de não ter feito um funeral para nós.

Talvez ritualizar o fim tivesse facilitado as coisas. Talvez tenha faltado um pouco de solenidade, de tradição e de cerimônia para ajudar a alma a entender que, de fato, acabou. Que morreu o amor e que os mortos não voltam, nunca. Eu queria ter feito um elogio fúnebre a tudo de bom que foi, e cremado e jogado no mar tudo que passou, quem sabe assim queimando também dentro a mágoa por todas as feridas que a gente mesmo criou.

Talvez, se eu tivesse escrito um último poema, eu nunca mais quisesse escrever sobre nós. Talvez, se eu tivesse chorado por alguns dias, eu não tivesse que fazer tanto esforço para controlar crises de choro no trabalho. Talvez, se eu tivesse tomado um banho ao contrário, não parecesse tudo de cabeça pra baixo. Talvez, se eu tivesse envolto meu corpo numa mortalha branca, não estivesse presa ainda a algumas lembranças. Talvez, se eu tivesse gritado, batido em algo, quebrado vasos, surtado de raiva, eu não quisesse te ferir quando lembro das palavras que você jogou contra mim. Talvez, se eu tivesse juntado os presentes, roupas, fotos e cremado toda memória física daqueles trinta e seis meses, não fosse tão difícil aceitar que agora você não faz mais parte da minha vida nem eu da sua e tudo bem. Talvez, depois disso tudo, fosse mais fácil ver você mentir pra mim.

Tem dias

É engraçado como são únicas e imprevisíveis as marcas que deixamos nas pessoas. As coisas que nos parecem mais estúpidas ou banais têm o poder de machucar alguém sem reparo, ou mudar, inexoravelmente, a maneira como o outro enxerga o mundo.

Acho que ela não imaginava que, naquele dia em que eu estava possessa com a vida, o que ela me diria ficaria comigo, marcando cada um dos meus momentos a partir de então. Ela provavelmente não podia conceber que um pensamento tão passageiro fosse ficar cravado no que me há de mais profundo quando me disse: “Não existem dias absolutamente ruins. Mas quando a gente acha que está tudo dando errado, não conseguimos enxergar as coisas boas.”

Tem dias em que a gente acorda atrasada, perde o ônibus, esquece a carteira em casa, erram nosso pedido na padaria, estamos horríveis e encontramos desconhecidos na rua, enviamos os arquivos errados, brigamos com as pessoas e temos medo de atender ao telefone porque, num dia desses, qualquer pessoa ligando só pode ser pra avisar que alguém morreu. Não há reza, café ou descanso que nos ajude a sair daquela miséria, daquela maldição que nos parece imposta por uma força maior pra nos lembrar de que a vida é assim mesmo e não adianta querer achar que você está por cima.

Mas há dias, e há dias.

Tem dias em que a gente fica até às quatro da manhã cozinhando por um bom motivo, e, por mais que tudo possa dar errado, dá certo. Em que um colega de trabalho te para no caminho da padaria para conversar sobre literatura, e você se encanta com como há pessoas interessantes por aí. Em que uma peça de teatro, depois de um dia cansativo e com você morrendo de sono, não te faz dormir – te faz mais completa. Tem dias em que tudo é bom, por mais que pudesse ser ruim. E não é que não aconteçam desgraças. Mas, de espírito leve, nenhum imprevisto consegue te tirar do sério.

Não há motivo particular pra isso: é como acordar se sentindo bonita, ou acordar se sentindo feia. É olhar no espelho e perceber seu olhar para o mundo. Tem dias em que perder o ônibus e ter que fazer o percurso a pé nos faz sorrir e curtir o sol, em que perder a hora, correr, esquecer o lenço, ficar com fome, nada, nada disso importa. E você se pergunta, andando tranquilamente depois de ter sido ignorada pelo motorista do ônibus que você precisava pegar – por quê?

E aí você se lembra que os sentimentos são como o tempo: às vezes, simplesmente temos que aceitar como nos sentimos, porque não há o que fazer. E é preciso um guarda-chuva para não sair completamente encharcada de um dia chuvoso, porque pode ser que chova por dias e dias a fio. Mas, um dia, vai passar.

Há dias nublados e há dias chuvosos e há dias em que, simplesmente, o sol sai.

Você é do tamanho dos seus sonhos

Domingo, às seis e dez da tarde, eu acabei de escrever o último capítulo do meu TCC.

Tecnicamente, não era bem o último, porque ainda faltavam conclusão e agradecimentos – mas essa era a parte mais fácil, e o parto mesmo tinha acabado. Naquela última linha, aquela que você não sabe que vai ser a última até olhar pra ela e pensar: é isso. Acabou. Não tem mais pra onde ir depois daqui.

Eu sempre quis escrever um livro – aliás, um livro não: um romance. Não autoajuda, não teoria, não poesia – romance. Uma narrativa envolvente que as pessoas não conseguissem largar até a última página e que provocasse em alguém as mesmas emoções que tantos livros incríveis já provocaram em mim. Eu nunca imaginei que pudesse ser tão difícil assim. Eu não escrevi um romance – é um livrorreportagem – mas há personagens, há narrativa, há estilo e há a necessidade de tornar a história interessante o suficiente pra que ninguém se importe em ler um reportagem de 105 páginas (o que é bem difícil quando você não é, tipo assim, o Truman Capote).

Um livrorreportagem, tal qual um romance, tem uma estrutura própria. Você não está tentando provar um argumento ou tese, não precisa seguir um raciocínio claramente lógico. Há espaço pra curvas – aliás, há a necessidade de curvas pra tornar o caminho mais interessante. E como é difícil fazer isso, como é difícil organizar desorganizando, montar as peças de um quebra cabeças sem desenho nenhum de referência a não ser a sua própria imaginação.

Eu nunca fui boa com quebra-cabeças. E esse tinha mais de cinco mil pecinhas, mais de doze viagens, mais de dez livros, mais de trinta horas de entrevista. Um quebra-cabeça envolvendo a vida de quatro pessoas e de mais um tanto de gente, porque a vida de ninguém se constitui sozinha.

Quando voltei de Parelheiros naquela primeira vez em janeiro, eu parei na esquina da Consolação com a Paulista, enquanto esperava meu ônibus, observando as pessoas que passavam. Eu queria matar todas elas e eu queria chorar. Eu voltei daquela viagem completamente esgotada emocionalmente, e o processo se repetiu em todas as visitas subsequentes, melhorando um pouquinho a cada vez. Aprendi a transformar exaustão em energia, a usar aquilo que queria me quebrar como inspiração pra escrita. Eu quebrei muitas vezes, esse semestre, muito mais vezes do que gostaria de admitir. Mas levantei, tive que levantar, porque eu tinha um livro pra escrever e promessas a cumprir. Escrever sempre foi a minha tábua de salvação, mas dessa vez eu não estava escrevendo pra mim: estava escrevendo pra eles. E isso me obrigou a lamber minhas feridas mais rápido, a descobrir forças quando eu achava que não conseguiria mais, a encontrar maneiras de viver funcionalmente em meio ao caos. E isso me fez mais forte.

Domingo, às seis e dez da tarde, eu acabei de escrever o último capítulo do TCC. E eu comecei a chorar.

Segurei as lágrimas quando percebi que elas iam cair, pedi à senhora que dividia mesa comigo para que olhasse minhas coisas só um minutinho e corri pro banheiro. Me tranquei na última cabine, encostei na porta e desabei. Minhas pernas tremiam e eu não conseguia ficar em pé direito e eu comecei a me forçar a respirar enquanto meus olhos se enchiam d’água e eu queria rir. Porque, pela primeira vez em seis meses, eu estava chorando de felicidade. Alívio. E um pouco de histeria misturado ali no meio.

É uma sensação um pouco desesperadora perceber que acabou. Olhar aquela última linha, criando caminhos onde, antes, olhos desatentos poderiam achar que não havia nenhum, e saber que não importa se eu não consegui colocar tudo que eu gostaria e não importa se eu não usei todas as citações, a janela de tempo que eu tinha acabou. Acabou quando eu coloquei aquele ponto final ali, e qualquer coisa que eu queira acrescentar será inútil. É alívio e alegria e é amor também, mas é desalento.

Eu saí da biblioteca, meia hora mais tarde, e, quando olhei pra trás, me senti em Madri naquela manhã voltando pra casa do aeroporto depois de desabar. Me senti olhando o Palácio Real, imensamente grata por tudo, apesar da exaustão, e a noite escura e as luzes brancas da BSP me levaram pra lá. Eu quis parar e olhar pra ela até não aguentar o frio, e me senti profundamente grata e profundamente triste. E, assim, profundamente viva.

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