Você é do tamanho dos seus sonhos

Domingo, às seis e dez da tarde, eu acabei de escrever o último capítulo do meu TCC.

Tecnicamente, não era bem o último, porque ainda faltavam conclusão e agradecimentos – mas essa era a parte mais fácil, e o parto mesmo tinha acabado. Naquela última linha, aquela que você não sabe que vai ser a última até olhar pra ela e pensar: é isso. Acabou. Não tem mais pra onde ir depois daqui.

Eu sempre quis escrever um livro – aliás, um livro não: um romance. Não autoajuda, não teoria, não poesia – romance. Uma narrativa envolvente que as pessoas não conseguissem largar até a última página e que provocasse em alguém as mesmas emoções que tantos livros incríveis já provocaram em mim. Eu nunca imaginei que pudesse ser tão difícil assim. Eu não escrevi um romance – é um livrorreportagem – mas há personagens, há narrativa, há estilo e há a necessidade de tornar a história interessante o suficiente pra que ninguém se importe em ler um reportagem de 105 páginas (o que é bem difícil quando você não é, tipo assim, o Truman Capote).

Um livrorreportagem, tal qual um romance, tem uma estrutura própria. Você não está tentando provar um argumento ou tese, não precisa seguir um raciocínio claramente lógico. Há espaço pra curvas – aliás, há a necessidade de curvas pra tornar o caminho mais interessante. E como é difícil fazer isso, como é difícil organizar desorganizando, montar as peças de um quebra cabeças sem desenho nenhum de referência a não ser a sua própria imaginação.

Eu nunca fui boa com quebra-cabeças. E esse tinha mais de cinco mil pecinhas, mais de doze viagens, mais de dez livros, mais de trinta horas de entrevista. Um quebra-cabeça envolvendo a vida de quatro pessoas e de mais um tanto de gente, porque a vida de ninguém se constitui sozinha.

Quando voltei de Parelheiros naquela primeira vez em janeiro, eu parei na esquina da Consolação com a Paulista, enquanto esperava meu ônibus, observando as pessoas que passavam. Eu queria matar todas elas e eu queria chorar. Eu voltei daquela viagem completamente esgotada emocionalmente, e o processo se repetiu em todas as visitas subsequentes, melhorando um pouquinho a cada vez. Aprendi a transformar exaustão em energia, a usar aquilo que queria me quebrar como inspiração pra escrita. Eu quebrei muitas vezes, esse semestre, muito mais vezes do que gostaria de admitir. Mas levantei, tive que levantar, porque eu tinha um livro pra escrever e promessas a cumprir. Escrever sempre foi a minha tábua de salvação, mas dessa vez eu não estava escrevendo pra mim: estava escrevendo pra eles. E isso me obrigou a lamber minhas feridas mais rápido, a descobrir forças quando eu achava que não conseguiria mais, a encontrar maneiras de viver funcionalmente em meio ao caos. E isso me fez mais forte.

Domingo, às seis e dez da tarde, eu acabei de escrever o último capítulo do TCC. E eu comecei a chorar.

Segurei as lágrimas quando percebi que elas iam cair, pedi à senhora que dividia mesa comigo para que olhasse minhas coisas só um minutinho e corri pro banheiro. Me tranquei na última cabine, encostei na porta e desabei. Minhas pernas tremiam e eu não conseguia ficar em pé direito e eu comecei a me forçar a respirar enquanto meus olhos se enchiam d’água e eu queria rir. Porque, pela primeira vez em seis meses, eu estava chorando de felicidade. Alívio. E um pouco de histeria misturado ali no meio.

É uma sensação um pouco desesperadora perceber que acabou. Olhar aquela última linha, criando caminhos onde, antes, olhos desatentos poderiam achar que não havia nenhum, e saber que não importa se eu não consegui colocar tudo que eu gostaria e não importa se eu não usei todas as citações, a janela de tempo que eu tinha acabou. Acabou quando eu coloquei aquele ponto final ali, e qualquer coisa que eu queira acrescentar será inútil. É alívio e alegria e é amor também, mas é desalento.

Eu saí da biblioteca, meia hora mais tarde, e, quando olhei pra trás, me senti em Madri naquela manhã voltando pra casa do aeroporto depois de desabar. Me senti olhando o Palácio Real, imensamente grata por tudo, apesar da exaustão, e a noite escura e as luzes brancas da BSP me levaram pra lá. Eu quis parar e olhar pra ela até não aguentar o frio, e me senti profundamente grata e profundamente triste. E, assim, profundamente viva.

Às vezes é preciso estar aqui

Mi atardecer

Antes de vir para o intercâmbio, eu dizia para a minha irmã que não queria fazer muitas viagens, e que queria fazê-las sozinha. Eu queria conhecer o Egito, a Grécia e a Rússia. Não queria fazer mochilão, não tinha a menor vontade de fazer essas viagens de ficar um dia em cada lugar, não fazia muitas questão de conhecer Paris, Amsterdã e essas outras capitais europeias que todo mundo quer ver.

Quatro meses depois, meu calendário quase não tinha dias livres. Paris foi uma das viagens mais lindas que fiz, com uma companhia maravilhosa (porque depois você aprende que não basta viajar acompanhado, o difícil é arranjar quem esteja no mesmo ritmo de viagens que você). Conheci Bruxelas, que eu pensava ser sem graça e amei, me decepcionei com Amsterdã, viajei pela Alemanha, coisa que nunca tinha passado pelo minha cabeça, fui pra Roma e passei um dia em cidades espanholas, o suficiente pra ver alguns museus e se perder nas ruazinhas de pedra.

Tudo isso foi ótimo. Todas as experiências foram incríveis. Sair dos planos me trouxe coisas boas. Mas no meio disso tudo, é muito fácil se encantar e planejar um milhão de viagens porque tudo está tão perto, é tão fácil, e você tem poucas aulas mesmo. É fácil se sentir sozinha e querer viajar com outras pessoas sem perceber que, talvez, vocês estejam esperando coisas diferentes da mesma viagem.

O problema é que, às vezes, tudo que a gente precisa é a nossa casa e a nossa solidão. Nosso quarto que finalmente tem cara de lar, as ruas que agora são familiares, as janelas enormes com vista pra praça e com o por-do-sol que sempre te faz sorrir. O problema é que é fácil ter 20 anos e querer estar sempre em outro lugar além daquele em que você realmente está. O problema é que, uma hora, você não aguenta mais.

4 dias em Roma. 2 dias em Madri. 8 dias em Portugal. 1 dia em Madri. 4 dias no norte da Espanha. 1 dia em Madri. 8 dias na Inglaterra. 3 dias em Madri. 2 semanas na Rússia.

Esse era meu calendário entre o final de março e o começo de maio. De alguma maneira, eu pensei que ia dar conta. Comprei os bilhetes, planejei tudo, e tive medo de dizer não.

E, ontem, quando cheguei ao aeroporto às 4 da manhã, depois de quase duas semanas viajando praticamente sem parar, virei pra minha amiga, disse “E se eu te dissesse que eu não estou com a menor vontade de viajar e que tudo que eu quero agora é minha casa?” e comecei a chorar.

Sentei no chão, com o corpo inteiro doendo de exaustão e só queria voltar pra casa e dormir, porque viajar tinha de repente se tornado uma obrigação.

Porque todo mundo me dizia que eu tinha que aproveitar ao máximo. E eu esqueci que, talvez, aproveitar ao máximo possa ser só ir ao parque, andar de bicicleta e ler meus textos deitada na grama. Porque, das cidades que eu conheci, foi Madri que tocou meu coração desde que pus os pés aqui em dezembro, é Madri que tem sabor de casa, e talvez conhecer o Guggenheim possa ficar pra depois.

Voltando pra casa no escuro das sete da manhã, debaixo da chuva e com os termômetros marcando 1 grau, eu olhava o Palácio Real e só conseguia sorrir.

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