All I need

O interfone tocou e ele deixou de lado as planilhas. Às onze da noite, não havia muitas pessoas que o procurariam assim, em casa, sem nem mandar uma mensagem antes – não deveria ter se surpreendido ao ouvir a voz dela do outro lado do interfone. Se surpreendeu e tentou acalmar o coração que batia descompassado.

– Ei, Tato? Sou eu. Posso subir?

Ela era a única pessoa que não avisaria antes de aparecer – nem teria como. O número de telefone que ela conhecia ele tinha jogado fora junto com todas as outras lembranças que haviam sobrado. Mas o endereço ainda era o mesmo, e ela aparentemente ela não o havia esquecido, nem havia esquecido a mania de achar que era importante  suficiente pra poder aparecer na casa dele assim, sem aviso, numa quinta-feira à noite qualquer. Como se ele estivesse à sua disposição, não tivesse trabalho pra fazer, ficasse sentado na sala esperando visitas noturnas do passado.

Ainda estava parado ao lado do interfone quando ouviu as duas batidas leves na madeira. Passou a mão pelos cabelos e foi em direção à entrada do apartamento. Por costume, dirigiu-se ao olho mágico. Era estranho – quando ela ainda frequentava sua casa, nunca batia à porta. Assim que se mudara, ela havia ganhado a chave. Ele não se lembrava nunca de tê-la visto assim, disforme, o corpo achatado, o rosto tão maior que o resto, olhos de pires encarando a porta.

Abriu. Ela levantou o olhar e o cruzou com o seu. O rosto dela estava vermelho do frio, os cabelos um pouco despenteados, pedaços presos no lenço que ela levava envolto ao pescoço. Ela sorriu, sem graça, ele se afastou para que ela entrasse.

Entrou um pouco hesitante, como se de repente estivesse na dúvida se aparecer ali tinha sido mesmo uma ideia muito inteligente. Olhou em volta, e ele acompanhou seu olhar, tentando ver a sala através dos olhos dela, cinco anos depois. Alguns móveis haviam mudado de lugar. O sofá era outro, a tevê também. Os livros continuavam empilhados em um dos cantos, rente à parede, perto da janela.

– Você finalmente emoldurou seus pôsteres.

Ele riu. Cinco anos depois e era essa a primeira coisa que ela dizia ao reencontrá-lo.

– É, tomei vergonha na cara há algum tempo. Quer sentar? – apontou o sofá agora preto, de couro, tão diferente daquele antigo, de espuma e com manchas no forro que ele havia usado durante anos.

– Que estranho não reconhecer as coisas aqui… – ela disse meio para si mesma, enquanto se sentava em uma das pontas. Ele puxou uma cadeira.

– Bom, já faz tempo… Mas algumas coisas ainda são as mesmas.

Ela olhou para os livros e deu uma risada que misturava espanto e indignação – o descaso dele com os livros sempre a irritara profundamente.

– O que houve, Luci? Aconteceu alguma coisa?

Ela pareceu surpresa por ouvi-lo dizer seu nome. Levantou os olhos do sofá e pareceu ficar um pouco envergonhada.

– Não, é que… Eu sei que deve parecer loucura eu aparecer aqui assim, do nada…

– Um pouco.

– Desculpa. Eu não sabia como entrar em contato, seu número mudou, qualquer tipo de contato virtual seria impessoal demais e eu queria, eu precisava te ver.

– Você tá bem? Tá tudo bem?

– Tudo. Tudo. E com você?

– Também. – Olhou-a um pouco torto. – Não fui eu que apareci na sua casa às onze da noite.

– Ha ha. Eu sei. Desculpa por aparecer assim.

– Bom, você já está aqui…

– É só que… – Respirou fundo, tomando coragem. – Ok, isso vai parecer tão idiota, mas eu não conseguia dormir e eu simplesmente precisava te ver e saber e falar então… – Ela parou de novo. – Você… Você ainda pensa na gente?

– Como assim?

– Não quero dizer se você me ama nem nada disso, – apressou-se a explicar. – Eu sei que a gente terminou há anos. Mas você não lembra do que passou, não pensa em como tudo poderia ter sido diferente?

Ele se remexeu incomodado.

– Nos últimos dias eu tenho pensado em muita coisa. Sem motivo algum, nada aconteceu, mas… Algumas coisas têm me atormentado. Eu não durmo direito há dias, briguei com meu namorado por nada e achei que talvez vindo aqui e falando, talvez eu pudesse melhorar. Pra minha sorte, você ainda mora no mesmo endereço.

– Mas o que eu tenho a ver com o que tá acontecendo com você? A gente não se vê e nem se fala há tanto tempo.

– Mas não importa! E eu te odeio por isso às vezes. Todos os dias, nos últimos cinco anos, eu fui atormentada por você. Não tem um dia que passe sem que, pelo menos uma vez, alguma coisa me lembre você, me dê vontade de te mandar uma mensagem, de dizer “Achei isso a sua cara”, de saber como você está. Não é bizarro que eu não faça a mínima ideia de como você está? E você não saiba mais nada da minha vida? Eu tentei te apagar de todas as formas, de todos os meios, e ainda assim é uma luta diária comigo mesma, tentando comprimir as lembranças e te colocar no fundo da minha mente, num lugar bem escondido, pra seguir o dia normalmente. E você sempre, inevitavelmente aparece.

“Eu já comecei a te escrever um email incontáveis vezes. Nunca tive coragem de terminar. Até porque, bom, como terminaria? Abraços? Beijos? Até mais? Com amor? Isso se não cair no spam. E eu não aguentaria um email sem resposta, sem saber se foi lido, sem ver sua reação. Mas também nem sei o que escrever. É mais uma vontade passageira, uma lembrança rápida, vontade de saber da sua vida.

“E na maior parte dos dias eu estou bem. Eu estou feliz. Bem feliz, na real. Mas aí de repente eu vejo alguma coisa que vence minhas barreiras mentais e me atinge onde eu nem sabia que ainda podia ser atingida, e eu começo a lembrar de tanta coisa, e de como acabou, e de como eu sofri – e de como você sofreu –, mas a lembrar também de como era bom e sinceramente foram os melhores dois anos da minha vida. Enquanto a gente se amou foi incrível, não foi? Mas e se não foi pra você? E se isso é só a minha mente apagando tudo que houve de ruim e me fazendo lembrar só do lado bom, e se na verdade foi uma merda e você ficou feliz por ter acabado, aí onde ficam esses dois anos que ainda me atingem?”

Ela parou, mexendo nos fios que saíam da ponta do seu lenço. Ele ficou olhando para as mãos dela, tão pequenas, ele ainda se lembrava de como eram macias quando ele as apertava, como a mão dele envolvia as dela completamente. O silêncio começou a ficar pesado.

– Você sabe que foi incrível.

– Eu sei.

– Você poderia ter me procurado.

– Poderia mesmo, Tato?

– Eu também pensei em você. Não é como se a gente conseguisse apagar completamente dois anos da nossa vida só porque o namoro acabou.

– Não sabia como.

– Porque aparecer no meio da noite, cinco anos depois, é uma alternativa super normal.

– Eu sei que não. Mas eu não sabia mais o que fazer.

– Foi você quem me disse pra não te procurar mais depois de tudo aquilo.

[Ele se lembra do telefonema. Do susto. Das paredes brancas do hospital, do gosto amargo na boca. Dela pálida. Do medo. Do maior medo que ele já sentira até então.]

– Eu precisava me afastar de você. Eu não ia suportar. Mas agora eu sei que não saber de você é tão ruim quanto.

– Eu sempre tive medo que você fizesse algo assim. Desde que a gente se conheceu.

– Eu lembro.

– Você me contou como se fosse a coisa mais normal do mundo, e eu não entendi a gravidade daquilo. Mas eu queria tanto estar com você que nada mais importava.

– Você agiu com tanta naturalidade quando eu te contei…

– Você era a pseudo-gótica de 17 anos mais linda que eu já tinha conhecido. Eu tinha 20 anos. Nada mais importava. Nada que você dissesse poderia me assustar.

[“Às vezes eu pego os remédios da minha mãe. Eu penso em tomar todos de uma vez. Às vezes eu surto.”

Não sabia por que, mas para ele conseguira contar. Como se não fosse tão ruim assim.

“Me liga. Se precisar eu surto com você.”

Uma tarde no parque. Ela se representava por roupas, os outros pensavam. Ela se escondia nas roupas, ele parecia saber. Tanta gente, e ninguém. Só ele.

“Me liga.”]

Ela riu.

– Eu era pseudo-gótica, né? Deus, que fase.

– Eu nunca… Eu nunca quis que isso acontecesse, Luci. Eu nunca consegui pedir desculpas, mas eu nunca quis que aquilo acontecesse.

– Eu sei. Eu não te culpo, não mais. Mas não é como se tivesse sido fácil. Eu lembro do desespero, do pânico, de querer ser ouvida. Era como se eu falasse com você e nada te atingisse. Por mais que eu gritasse, você não ouvia. Então eu fiz a única coisa que parecia possível.

Ela falava baixo, agora. Meio pra si mesma. Com vergonha de admitir a fraqueza terrível daquelas semanas. Ele sabia que ela odiava desmoronar. Ela odiava não ser forte.

Ele se lembrava de conhecê-la numa festa, ela uma adolescente que, aos 17, só saía com pessoas de 20 pra cima. Ia nas festas, fumava e dormira com metade dos amigos dele. Mas, por desencontros da vida, ele ainda não a havia conhecido, e há meses ouvia falar da já famosa Zoey. Quando finalmente a conheceu, levou um choque. Porque a sacou de cara, porque não era possível que ninguém tivesse reparado, porque ele não se importou. E, principalmente, porque não pretendera se apaixonar.

[“E aí, qual o seu nome?”

“Zoey.”

“Eu quis dizer o verdadeiro.”

Ela deu mais um trago no cigarro. Mau. Bom.

“Prudence.”

“Se você quer se criar, devia escolher nomes menos absurdos. É meio óbvio demais.”

Tirou os olhos das unhas e o encarou. Ela não gostava de falar de si mesma.

“Então?”

“Luci.”]

Ficaram em silêncio, como se o peso das lembranças os impedisse de falar.

– O que tem me atormentado é que… Como é que a gente sabe que ama alguém? Porque eu sabia. Eu te amava desesperadamente, como nunca tinha amado alguém antes. Era algo visceral.

Ele sabia exatamente do que ela estava falando.

– Racionalmente, eu sei que isso não era bom. Quer dizer, olha como me quebrou. Como eu fiquei quando você me deixou.

– Luci…

– Eu não tô dizendo que foi sua culpa, Renato. Talvez parte tenha sido, mas eu estava desequilibrada, eu precisava de ajuda, você sabia disso e você me falava isso, mas eu não queria ouvir. Eu achava que você era suficiente pra me fazer ficar bem.

– Esse é um peso muito grande pra se colocar em alguém.

– Eu sei.

[Um quarto vermelho. Cobertores. Ela escreve na parede pra deixar marcada em palavras uma parte ínfima e ao mesmo tempo a parte toda, toda parte, em todo lugar, tudo que eles eram e tudo o que aquilo significava. You are all I need. E era mesmo. As paredes vermelhas, as bocas seladas, a respiração ofegante, ela não tinha mais medo de quase nada. Ela só tinha medo dele. Ela só tinha medo das palavras. E da necessidade. Mas ela as escreveu mesmo assim. You are all I need. Gravadas na parede, preto e vermelho. Eles se complementavam. Ela se achava forte. You are all I need.]

– Você me colocou num pedestal, e eu não sabia como sair dali sem te machucar. Me matava que eu não conseguisse fazer você feliz. Mas eu não conseguia nem me fazer feliz, eu era um retardado imaturo aos 22. Realmente achei que acabar tudo seria o melhor pra nós dois.

– Não foi o relacionamento mais saudável do mundo, pra se dizer o mínimo.

– That’s an understatement.

Ela sorriu. Daquela mania ela também se lembrava bem, a mania dele de soltar frases em inglês quando não conseguia se expressar bem em português. Pelo visto ele vinha controlando melhor o hábito nervoso que tanto incomodava alguns amigos – antigamente, ele já teria soltado pelo menos umas dez expressões estrangeiras ao longo da conversa.

– Mas apesar de tudo, eu te amava. Muito. E eu quebrei de um jeito que achei que nunca iria me recuperar, porque eu te amava e sem isso eu não sabia quem era. Sem você, eu não era ninguém, porque você estava tão intrinsicamente ligado à minha identidade que, quando você terminou nosso namoro, você aniquilou minha identidade também. E eu sei que isso não é saudável, mas foi como eu aprendi o amor. E alguns anos depois eu tive a chance de reaprender, e eu já namoro há um ano e meio, agora. E é bom. É muito bom. É calmo. É tranquilo. Mas eu me pego pensando se isso é amor. Se amor pode ser algo que não te machuca.

– Algumas pessoas poderiam discordar. Não pode ser amor se te faz mal.

– Amor por definição faz mal. Se as pessoas fossem inteligentes, ninguém se apaixonaria.

– Pela sua lógica, se o que você sente agora não te faz mal, não pode ser amor.

– Me faz mal. Me fez invadir sua casa no meio da noite depois de cinco anos. Mas não me machuca.

– Isso não faz muito sentido.

– O amor também não faz sentido.

– Você consegue se imaginar sem ele?

Ela parou para pensar antes de responder.

– Consigo. Dói, mas consigo.

– Você sente saudades dele?

– Sinto. Às vezes eu acho que deveria sentir mais, e às vezes a gente passa tanto tempo juntos que eu só quero ficar sozinha, mas inevitavelmente quero ele de volta.

– Olha, Luci… Eu não sei teorizar sobre o amor. O que eu sei é que eu me apaixonei outras vezes, e nunca foi igual a quando eu amei você. Nunca foi tão intenso, embora também tenha doído quando acabou. Talvez simplesmente não seja comparável. Porque cada amor assume uma forma, e, querendo ou não, você foi a primeira mulher por quem eu me apaixonei.

– Mas foi só isso? Só foi tão forte porque foi o primeiro? Me dá a impressão que isso é diminuir o que a gente sentiu um pelo outro.

– Eu não acho que diminui, mas põe em perspectiva. Foi incrível, e mudou a gente de um jeito profundo, mas foi a primeira vez que nós dois passamos por qualquer coisa do tipo. Eu nunca te esqueci completamente, e acho que isso nunca vai acontecer, e eu me pergunto como teria sido se eu tivesse te conhecido depois. Se nós dois não fôssemos tão imperfeitos. Tão incompletos. Se eu tivesse te conhecido agora, aos 27, estável, feliz, finalmente.

– Eu me pergunto isso sempre. E eu me sinto tão mal por isso. Porque eu amo ele. De verdade. Mas eu não consigo deixar de me perguntar como seria se a gente se conhecesse hoje. Eu sei que isso é idiota, porque nunca seria a mesma coisa. Ao mesmo tempo, talvez eu precisasse tentar, pra saber se foi tão intenso porque foi o primeiro e eu era imatura, ou se foi tão intenso simplesmente porque… era você.

Ele não sabia o que dizer. Tudo aquilo parecia surreal. Tanto tempo, tanto tempo ele esperara por isso. Por uma abertura. Por uma chance. E agora, depois de cinco anos ela voltava, aparecia de repente, soltava em cima dele todos os pensamentos que já o haviam atormentado e que finalmente ele conseguira amenizar o suficiente para viver em paz com eles. Viver em paz com o fato de que acabara, era isso, eles haviam vivido um romance e ela pertencia ao passado.

E ai ela aparecia.

– Não sei o que você espera que eu te diga.

– Eu não espero nada.

– Você veio até aqui.

– Eu não sei o que eu esperava. De verdade. Mas eu precisava te falar. Eu precisava te ver.

Ele precisava fazer algo. Se levantou e foi até a cozinha, pegou um copo de água. Apoiou-se no armário da pia e segurou o copo nas mãos por alguns instantes.

– Renato? Seu celular. Tá tocando.

Ele correu pra sala. Atendeu.

– Oi. Tudo bem. Não, não aconteceu nada, tô terminando umas planilhas, tô com a cabeça cheia. Posso te ligar mais tarde? Também te amo. Beijo.

Não conseguia olhar pra ela.

– Renato?

– Eu já pensei em tudo isso. Durante muito tempo. Eu quis te procurar e não sabia como, e no final achei que era mais fácil deixar tudo pra trás. Eu me apaixonei de novo, deu errado, e de novo e de novo, em parte porque eu não conseguia deixar você totalmente pra trás. Então tive que aprender a conviver com isso, e agora eu também estou bem. E eu tô noivo.

Silêncio.

[He was all she neeeded she needed him he needed her she was all he needed they needed she needs it. Ela gritou. Que o grito passasse as paredes, as janelas, os carros, atravessasse cidades, chegasse até ele. Que ele viesse. Como fosse, mas viesse. Que ele se importasse. Que o grito fosse algo. Que doesse. E o grito a sufocou por dentro e todos os gritos do mundo e toda a mágoa e tudo que eles poderiam ser e tudo que jamais seriam. Chorou até a exaustão. Dormiu.]

– Meu Deus. E você me deixando falar tudo isso. Puta que pariu, Renato.

– Luci…

– Desculpa. Eu nunca deveria ter vindo aqui.

Ela já estava levantando e pegando a bolsa. Andando até a porta.

– Luciana, espera. Olha, desculpa, mas você chegou aqui de repente e eu não sabia como te dizer depois que você começou a falar tanta coisa.

– Talvez na hora em que eu falei que estava namorando você poderia ter soltado essa informação um pouco importante? Que você está noivo?

– De que importa? Você mesma disse que não esperava nada vindo aqui.

– É lógico que importa!

Ele viu as mãos dela tremendo ligeiramente.

– Que idiota. Que idiota. – Fechou os olhos e respirou, se recompondo. – Eu vou embora. Desculpa. Eu espero sinceramente que você esteja feliz. E que você seja feliz. Obrigada por ter me ouvido.

– Anota meu telefone, pelo menos. Eu não quero perder contato de novo. Você tem razão. É bizarro não saber da sua vida e você não saber da minha.

Ela hesitou. Por favor por favor por favor por favor por favor. Andou até ele e lhe entregou o celular. Ele fez o mesmo.

Acompanhou-a até a porta.

– Eu nem te ofereci água, café, nada. Que péssimo anfitrião.

– Acho que a gente já passou do ponto das formalidades faz tempo.

– Obrigado por ter vindo.

Ela deu um sorriso triste. Não havia o que ser dito.

Ele olhou para o celular, viu o número gravado, o nome na tela.

Zoey.

Quando levantou os olhos, ela já não estava mais ali.

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De repente, ao meio dia

O burburinho do restaurante é quebrado pelo estatelar do vidro. O menino para, aflito. As conversas são retomadas, mas ele fica. Encarando a bagunça de arroz-feijão-frango-salada. Procura a mãe, apreensivo. Ela continua se servindo, muda, dirigindo-lhe apenas um meio olhar de desprezo. Ele enrubesce. Olha para os lados. Para baixo, para os cantos. Não há onde esconder-se; muito menos onde esconder a sujeira que fez. Tenta. Numa tentativa vã, começa a empurrar com os pés os cacos e a comida para baixo do freezer dos sorvetes. Ô, menino! Deixa que a moça já vai ai limpar, grita a dona do restaurante.

A mãe entra na fila pra pesar a comida, e ele fica ali. Volta, pega um novo prato. Recomeça. A mãe, em voz alta, alerta-o: Tá segurando direito agora? Não vai deixar cair, hein. Ele segue, segurando a bandeja com força, tentando camuflar-se em meio ao restaurante cheio. Finalmente, sentam-se. Ele, vermelho por baixo da pele escura, olhos baixos, trêmulos. Engole em seco, toma um gole do suco, tenta comer. Ela, impassível.

– Você não vai me bater quando chegar em casa, vai?

A boca treme, a mão tenta se obrigar a levar mais uma garfada à boca, só mais uma, de pouco em pouco, ninguém está olhando, vamos, vai ficar tudo bem.

– Vê se não vai chorar, hein.

Sua garganta não suporta mais engolir o peso dos seus 11 anos. Ele chora.

Coisas banais

“Vou pegar alguma coisa pra comer, tô com fome.”

“À vontade. Fuça aí na geladeira e vê o que tem, acho que sobrou macarrão.”

“Perfeito!”

“Espera, você não vai esquentar?”

“Não, eu amo comida fria.”

“Jura? Dá um pouco aí.”

Quando acabasse, ela olharia para trás e saberia que aquele, exatamente aquele, fora o momento em que se apaixonara.

Tentou lembrar de outros (ela já tivera muitos amores). Nunca era uma coisa só: um beijo, uma transa. Era sempre o antes ou o depois, o estar abraçado, os arrepios, o sentir tanta falta mesmo enquanto se fala. A pungência de um olhar no quarto escuro e dos corpos sem tocar. Os momentos mais íntimos ou os mais banais, que fazem nascer ou morrer o amor, que traçam de uma hora para outra a linha dos sentimentos.

Ela se lembraria de tudo isso e mais. Reescreveria toda sua história através desses começos e fins, e ficaria mais atenta.

Quando o próximo chegou, já estava preparada.

“Quer um Trident?”

“Não, obrigado… Na verdade… Eu não gosto muito de mulher que masca chiclete.”

Olhou para o lado e começou a procurar um novo amor.

Novembro

Hoje eu tive vontade de você aqui pra ser triste em conjunto. Às vezes é bom compartilhar tristeza, porque ela ganha um pouco do peso do mundo e, de algum modo, fica mais leve. Mas ela nunca fica leve demais, ou deixa de ser sincera. Aliás, o papel da tristeza é esse mesmo, aproximar a gente do chão, da terra, do centro. Mas hoje as pessoas acham que tudo é doença e dá-lhe remédio, parecem não entender quão saudável é a gente se reaproximar da gente mesmo. Ficar leve demais faz a gente voar longe e deixa se perder – e pra achar o caminho de volta? Esse sim é o problema.

Quebrei um espelho. Não em pedacinhos – quando fui ver se a maquiagem estava borrada, me deparei com trincos que pareciam gravados na minha pele – mas era só na dela, aquela do outro lado. Ela não gosta muito de mim, às vezes se distancia, não a reconheço. Hoje rachou. Como quem diz, “cansei.”

Dizem que são sete anos de azar e eu me perguntei quando veria você de volta. Será que é fácil sair assim? Você rachou nossa imagem também? Andando na chuva, me lembrei de quando você segurava o guarda-chuva e ria enquanto eu corria e me molhava. Não tive coragem. Queria companhia e o silêncio da minha solidão pesou demais. Tem dias em que é mais difícil, que por mais que eu me procure algo falta. Compartilhar tristeza ajuda a gente a se encontrar.

O guarda-chuva me protegeu até em casa. Joguei o espelho fora. Era o medo de me perder no vento como ela se perdeu na vida.

Ano novo, parte II

Nunca me vi escrevendo uma carta. Sério, você me conhece – não sou esse tipo de pessoa. Mas você é a segunda pessoa a me dar essa vontade, então acho que isso diz alguma coisa. Por isso, escrevo.

Como foi o ano novo? Se embebedou lá na praia? Comemorou por mim? O meu foi bom, com a família – Bárbara trouxe o namorado (ou rolo, não sei bem dizer, na real pra mim ele é só um velho amigo da família) novo, Clara passou com a gente pela primeira vez em anos e Nívea foi, bom, Nívea.

Mas por que eu tô falando sobre isso? Lá vou eu me enrolando, se não me controlo daqui a pouco começo a escrever sobre coisas sem sentido nenhum e você vai me achar uma idiota. Por que isso sempre acontece quando estou falando com você? Eu normalmente não tenho problema algum em falar com as pessoas, falar o que quero, e é daí que vem essa não necessidade de cartas: pra que escrever se falar é tão mais fácil? (E lá vou eu me distraindo…)

Eu senti sua falta. Ta aí, falei, senti. Tentei falar com você mas as linhas estavam ocupadas, nem mensagem no celular tava indo. Então digo agora, senti, quis falar com você, e meu coração ficou apertado de um jeito todo esquisito desde que deu meia noite até a hora de dormir. Quis você por tantos motivos, e não penso em nenhum pra escrever, o que significa que também te quis por motivo nenhum, e isso me preocupa mais ainda. Como eu posso te querer assim, do nada? Só por causa de um comemoração idiota? Só por que a gente beija alguém pra começar o ano?

Não te dei permissão pra me fazer sentir assim, Bernardo, e por Deus, as aulas terminaram, eu achei que nas férias teria paz, mas a gente continuou se falando (maldita internet) e saindo e por que você tinha que me beijar justo antes de viajar com seus amigos? Fiquei feito louca todas as vezes que saímos esperando você fazer alguma coisa e nada. “Alba, esquece, não vai acontecer,” eu repetia. Não te dei permissão. Aliás, não te dei permissão pra nada, eu te avisei desde o começo. Vou falar muito sério com você agora: eu falei, não falei? Que era pra você tomar cuidado, por que eu não era (sou) muito normal? Ta aí, não sou, sou quebrada e zoada e deveria não ficar encanada com nada disso e eu nunca fiquei antes, sempre era tudo bem normal, se você quiser (puder) chamar de normais os meus padrões, mas é isso.

E ainda te quero.

Um beijo – agora meu,
Alba

1.

  • Toda vez que posto no stories do Instagram eu sinto profundamente a falta do meu falecido Snapchat 3 hours ago
  • RT @annaliviaplu: o cara vem me assaltar aqui na hamerica eh capaz de eu sair da interaçao com o celular dele 9 hours ago

3.

4.

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