A literatura como ela é

Jorge Amado

Créditos: Alexandre Dall’Ara

Para que escrever, para que ler, para que contar, para que escolher um bom livro em meio à fome e às calamidades? Escrever para que o escrito seja abrigo, espera, escuta do outro. Porque a literatura, mesmo assim, é essa metáfora da vida que continua reunindo quem fala e quem escuta num espaço comum, para participar de um mistério, para fazer que nasça uma história que pelo menos por um momento nos cure de palavra, recolha nossos pedaços, junte nossas partes dispersas, transpasse nossas zonas mais inóspitas, para nos dizer que no escuro também está a luz, para mostrarmos que tudo no mundo, até o mais miserável, tem seu brilho.

(María Teresa Andruetto – Por uma literatura sem adjetivos)

É impossível entrar na nossa sala e não notar os livros. Se quem nos visita não parar nem um minuto em frente a alguma das três estantes para olhar os títulos que habitam as prateleiras, já penso que talvez não possamos ser tão bons amigos assim. E, secretamente, julgo as pessoas baseadas nas reações que tem quando começam a ver os nomes e gêneros que reunimos ali.

Nas nossa estante vermelha, os nichos de cada uma são facilmente reconhecíveis. Os dela, com os livros elegantemente desordenados, caídos para o lado fazendo charme, muitos paperbacks da Better World Books, poucas traduções no meio dos idiomas originais, literatura contemporânea estrangeira mesclada a alguns bons nacionais.

Na minha, os livros perfeitamente alinhados, não por gosto estético, mas por necessidade: há que se aproveitar cada centímetro para que caibam todos. Estão organizados pelo sobrenome do autor em ordem alfabética, as lombadas que um dia já tentei organizar por cor agora desordenadas num arco-íris bêbado, os velhos da adolescência com os novos da vida adulta, coleções completas de séries adolescentes, chick lits misturados a clássicos brasileiros e estrangeiros e, no meio, uma boa porção de livros desconhecidos caçados no desespero de algo novo pra ler.

Nos dois primeiros nichos, especificamente, uma série de lombadas coloridas, de livros do mesmo tamanho, se destaca. Cinco são do Jorge Amado, com as flores e a faixa de cor que marcam a coleção do autor publicada pela Companhia das Letras. Dez são a coleção completa do Diário da Princesa.

Quando coloquei meus livros na estante, pós-mudança, cogitei deixar na sala, à vista, apenas os meus preferidos e os livros “adultos”. Decidi que era bobagem, e misturei ficção adolescente a livros eróticos, clássicos, jornalísticos e de design. Porque nenhum tipo de literatura é menor que a outra, e eu não vejo motivos para me envergonhar do que leio. O que uma pessoa lê diz muito sobre ela — mas nunca vai dizer se ela é melhor ou pior do que você.

Aos 16 anos, não se esperava que eu lesse outra coisa além da chamada literatura juvenil — ou, em inglês, young adult (YA). Causava surpresa que eu já tivesse lido A insustentável leveza de ser1984Apanhador no Campo de CenteioBrumas de Avalon, e outros livros tidos como “adultos”. Mas eu devorava livros. Eu precisava deles como precisava de ar, e as indicações de “livros adolescentes” nas livrarias e blogs não eram suficientes. Eu invadia as estantes da minha mãe atrás de novas leituras, e assim preenchia meus dias com Bernard Cornwell, Rosamund Pilcher, Luiz Fernando Veríssimo, Marian Keyes, Christian Jaq, Margaret George, Helen Fielding, Jane Austen, Érico Veríssimo, Jô Soares, Bram Stoker, Rubem Fonseca, e dezenas, centenas de outros autores “adultos”, de todos os gêneros possíveis. Aos dezessete anos, meus livros preferidos eram Crepúsculo e Na praia – o amor eterno entre uma humana e um vampiro; o fim do amor entre uma musicista e seu marido.

Quando entrei na faculdade, comecei a ampliar ainda mais meu repertório cultural e conviver com pessoas que, apesar de também amarem literatura, tinham gostos bem diferentes dos meus. E embora algumas lidassem com isso de uma maneira natural, outras olhavam a mim — e a outros colegas que também gostavam de literatura mais comercial — de cima pra baixo, como se Harry Potter fosse desprezível demais para seus refinados apetites literários. Lembro da incredulidade de alguns quando nossa própria professora — doutora em comunicação, professora da USP — declarou seu amor pela saga do bruxo britânico em plena sala de aula.

É por isso que, sexta-feira, ao ler o texto da Ruth Graham pra Slate — Against YA: adults should be embarrassed to read children’s books –, eu não consegui ficar quieta.

Rant no twitter

“Penso tantas coisas sobre esse texto que não dá pra colocar aqui no twitter, mas vou tentar mesmo assim e encher a timeline de vocês com meu rant” (ler de baixo pra cima)

Então a questão é a seguinte: a autora do texto fala como, hoje, a maior parte do público que compra YA na verdade são pessoas com mais de 18 anos — e, desse grupo, 28% tem de 30 a 44 anos. E que, ainda que livros como A culpa é das estrelas (John Green, 2012) e Eleanor & Park (Rainbow Rowell, 2013) sejam bons, adultos deveriam ter vergonha de lê-los… por terem sido escritos para “crianças” (os livros YA são destinados a adolescentes de 12 a 17 anos).

Mesmo livros adolescentes aclamados pela crítica como os dois citados, que seguem uma linha mais “realista”, caracterizariam a adolescência “de uma maneira, fundamentalmente, acrítica” (os trechos foram traduzidos livremente do texto original). Para conseguir apreciar essa literatura, os adultos teriam que “abandonar a maturidade que eles (supostamente) adquiriram como adultos”. Graham ainda completa dizendo que todos os YA tem finais “satisfatórios — sejam tristes ou felizes –, o que seria emblemático do fato de que “a ambiguidade emocional e moral da ficção adulta — do mundo real — não aparece em nenhum lugar da ficção adolescente”.

Seria normal gostar desse tipo de ficção, que não te faz pensar, quando se é adolescente. Mas para que um adulto goste disso e se emocione, ele tem que ignorar todo seu conhecimento de mundo. Por isso, adultos que leem YA deveriam ter vergonha de fazê-lo. Além disso, se os adolescentes veem que adultos apreciam a mesma literatura que eles, talvez não tenham vontade de avançar na escala literária e, um dia, abandonar os livros adolescentes em prol dos adultos.

Em primeiro lugar, não existe literatura “adulta”, “adolescente” ou “infantil”: existe literatura. A escritora argentina María Teresa Andruetto adverte em seu Por uma literatura sem adjetivos”: “O grande perigo que espreita a literatura infantil e a literatura juvenil (…) é justamente de se apresentar, a priori, como infantil ou como juvenil. O que pode haver de “para crianças” ou “para jovens” numa obra deve ser secundário e vir como acréscimo (…).”¹

Essa estrita diferenciação de públicos serve, puramente, para fins comerciais.  Um livro com temática infantil, texto com linguagem mais simples e ilustrado provavelmente vai agradar mais às crianças de certa faixa etária — não quer dizer que ele seja proibido a outras pessoas, que ninguém mais possa gostar dele ou que ele se restrinja unicamente a crianças. Talvez uma adolescente de 15 anos não se interesse tanto por um livro que fala de um casamento falido, mas talvez sim. Talvez a mesma adolescente de 15 anos se apaixone por A insustentável leveza do ser como uma história trágica de amor, e, aos 22, se apaixone de novo pelo livro como o retrato da falência do regime soviético. E talvez só 11 anos depois de ler pela primeira vez Fronteiras do Universo ela entenda as referências bíblicas e poéticas presentes na trilogia “infantojuvenil” de Philip Pullman.

Não bastasse a diferenciação, Graham ainda o faz de maneira hierárquica, colocando a literatura adolescente como inferior à adulta – mais simplória, irreal, escapista. De cabeça, consigo pensar em inúmeros livros “para adultos” mais simplórios e escapistas que muitos YAs que conheço. Um bom livro será um bom livro independente do seu “leitor ideal”. Mas o problema maior é que, ao comparar um tipo de literatura ao outro como melhor/pior, Graham está implicitamente dizendo que adolescentes são “piores leitores” que adultos. É ok adolescentes gostarem desse tipo de livro — afinal, são jovens, ingênuos, ainda não alcançaram a maturidade intelectual necessária para entender “obras maiores” –, mas adultos deveriam ter vergonha pois são superiores a isso. Esse raciocínio supõe que idade seja necessariamente sinônimo de maturidade emocional e de conhecimento de mundo, e despreza a vivência e inteligência dos adolescentes. Mais do que isso, ignora que a capacidade de uma obra de arte de gerar metáforas é algo completamente imprevisível.

E, por isso mesmo, é muito difícil — e mesmo arrogante — querer classificar arte. Sempre desconfie de quem classifica arte. Embora haja critérios, sim, para criticar obras literárias — estrutura narrativa, desenvolvimento dos personagens, construção linguística –, isso é diferente de hierarquizá-las. A sistematização teórica serve para a crítica literária. Mas, aliada a ela, há de se levar em conta também o que Sergio Milliet chama de ato crítico: “a disposição de empenhar a personalidade, por meio da inteligência e da sensibilidade, através da interpretação das obras, vistas sobretudo como mensagem de homem a homem”². A arte não é hierarquizável. Não existe literatura “melhor” ou “pior”: Milliet coloca, ao contrário, o critério de obra ponderável, que Antonio Candido explica como “a que merece comentários e os provoca, na razão direta da sua riqueza e das sugestões que levanta.” Ou seja, a análise de uma obra não se dá comparando-a hierarquicamente com outra, mas sim aliando à sistematização teórica os significados e ponderações gerados por aquela obra de arte. Pois é justamente isso que caracteriza a arte: a capacidade de gerar metáforas.

É importante notar que, para Candido, a capacidade metafórica de uma obra literária aumenta quanto melhor trabalhado for o texto. “Toda obra literária é antes de mais nada uma espécie de objeto, de objeto construído […].[Quando elaboram uma estrutura] o poeta ou o narrador nos propõem um modelo de coerência, gerado pela força da palavra organizada”, explica ele em “O direito à literatura”. Ao organizar as palavras, o texto nos permite ordenar “a nossa própria mente e sentimentos”³. Ele exemplifica a importância dessa organização ao tratar da chamada literatura social (“produções literárias nas quais o autor deseja expressamente assumir posição em face dos problemas”), citando duas obras importantes: Castro Alves, com seu Navio Negreiro e Bernardo Guimarães, com A escrava Isaura. “A paixão abolicionista estava presente na obra de ambos os autores, mas um deles foi capaz de criar a organização literária adequada e o outro não.” A obra de Castro Alves foi mais bem sucedida em termos teóricos. E a maneira como ele organiza o texto torna-o mais rico e multifacetado do que a obra de Guimarães, que acaba sendo mais planfletária, alcançando um público menor e perdurando por menos tempo no imaginário dos leitores.

Mas de nenhuma maneira pode-se julgar quem se emociona com A escrava Isaura, considerar esse leitor inferior aos que apreciam Navio Negreiro. Eles podem ser, inclusive, os mesmos. Assim como quem aprecia James Joyce pode ser exatamente a mesma pessoa que também lê John Green. Ou Rainbow Rowell. Ou Stephenie Meyer.

E por isso é tão estúpido querer colocar no mesmo quadradinho todos os autores que escrevem livros com temáticas para adolescentes, como se, automaticamente, por escreverem para jovens, a qualidade de suas obras literárias fosse exatamente a mesma, e isso os tornasse melhores ou piores do que outros autores. Obras infantojuvenis não são todas iguais, e nenhuma obra pode ser considerada inferior ou superior a outra, embora se possa compará-las criticamente.

É por isso, também, que discordo do raciocínio de alguns que retrucaram o texto de Graham dizendo “Vamos ler livros bons, YA ou não“. Porque a pretensão e arrogância continua ali, escondida, como quem diz: tudo bem você ler os livros infantis e adolescentes do Neil Gaiman, ele é aclamado pela crítica, mas pode ir queimando esse Crepúsculo ai na sua estante.

Talvez livros incríveis, eruditos, bem escritos, incrivelmente complexos, não mexam com você da maneira que supostamente deveriam. É completamente possível apreciar a qualidade literária de um livro sem que ele marque a sua vida. E por isso a resposta para “como dizer a uma pessoa amada que o livro preferido dela é uma merda” é: não diga. Porque qualidade literária não é sinônimo de paixão literária. E ninguém deveria sentir vergonha de gostar de nenhum tipo de literatura. Adolescentes podem ler o que lhes der na telha, e talvez eles não apreciem Guimarães Rosa aos 14 anos, mas se apaixonem perdidamente por Grande Sertão: Veredas aos 20, e de novo aos 30 e de novo a cada leitura depois disso. Assim como Meu Pé de Laranja Lima pode ser o livro preferido de um adulto.

O que eu digo é: leia. Porque só lendo todo e qualquer tipo de livro você talvez encontre aquela uma obra que vai irremediavelmente mudar a sua vida. Ela não vai ser a mesma para todos. Infantil, adolescente, adulto, prosa, poesia, quadrinhos. Nunca se sabe que forma tomou aquela narrativa que vai superar o seu caos interior e te permitir, finalmente, organizar o mundo. Leia; leia até encontrá-la. E, quando isso acontecer, a exiba com orgulho na estante: se alguém te julgar por isso, talvez vocês não possam ser tão bons amigos assim.

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1. ANDRUETTO, María Teresa. “Por uma literatura sem adjetivos”, in Por uma Literatura Sem Adjetivos. São Paulo, Pulo do Gato, 2012.

2. CANDIDO, Antonio. “O ato crítico”, in A Educação pela Noite & Outros Ensaios. São PauloEditora Ática, 1989.

3. CANDIDO, Antonio. “O direito à literatura”, in Vários Escritos. São Paulo/Rio de Janeiro, Duas Cidades/Ouro sobre Azul, 2004.

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“Se lêssemos mais, mataríamos menos.”

Em um bate papo que rolou com o Luiz Ruffato lá na Caminhos da Leitura, biblioteca comunitária do Ibeac em Parelheiros (região do extremo sul de São Paulo), o Bruno Souza, um dos mediadores da biblioteca, fez a seguinte pergunta ao escritor:

– Como você acha que a literatura pode intervir nas políticas públicas?

Eis a reposta do Ruffato.

“Eu não acho que a literatura em si tenha a possibilidade de mudar políticas públicas. Mas eu acho – eu acho não, eu tenho certeza – que a literatura é capaz de mudar o leitor. Aliás, eu só acredito nisso, se eu não acreditasse que a literatura tem algum sentido eu não iria escrever, iria fazer outra coisa.

Eu acredito que, como ela pode mudar uma pessoa, um leitor, se a sociedade é um monte de leitores, você pode mudar a sociedade individualmente, através de cada pessoa. Cada pessoa pode se tornar veículo de mudança da sociedade. E, veja, isso de um lado.

De outro lado, eu me sinto muito triste quando vejo que poucos colegas meus percebem a importância que tem a sua fala no conjunto da sociedade e não fazem uso dela pra mudar alguma coisa, pra propor alguma mudança. Eu já estive com vários colegas que, quando perguntados a respeito de questões políticas, respondem, ‘Bom, sobre política eu não falo, eu falo sobre minha obra’, como se alguém tivesse obra. Obra, obra, sei lá, obra tem um pedreiro, escritor não tem obra, sabe. Então, assim, eu fico muito triste quando eu percebo isso nos meus colegas, que se recusam – veja bem, não é levar verdades, porque eu não tenho, mas propor questões, como essas que eu propus no discurso de Frankfurt.

Eu fico muito feliz, Bruno, que você tenha levantado e falado assim, porque eu apanhei tanto, você não tem ideia. Vocês não têm ideia dos ataques que eu sofri, ataques pessoais, a ponto de algumas pessoas chegarem a falar, ‘Tá vendo, é isso que dá deixar o filho de um pipoqueiro e de uma lavadeira falar em nome do Brasil’.

Mas eu acho que, assim, é isso, um país ideal seria justamente um país em que, não que todas as pessoas gostassem de ler, não é assim, tem gente que não gosta de ler e ponto final. Mas que, pelo menos, elas tivessem a oportunidade de dizer: eu já tentei ler, eu já tive acesso à leitura, mas eu não gosto, eu gosto de fazer outra coisa, eu gosto de fazer camping, de nadar, de surfar. Eu li, achei que é legal, mas não é pra mim. Porque é isso mesmo, a leitura não é pra todo mundo mesmo. Mas o acesso à leitura tem que ser pra todo mundo. E é por isso que eu brigo.

Então eu não tenho nenhuma dúvida de que a leitura torna uma pessoa melhor. E por uma razão muito simples, aqui não tem nenhuma novidade: é porque, quando você lê, você faz um exercício muito interessante de alteridade. Por exemplo, quando você está ouvindo música, ou numa peça de teatro, ou no cinema, ou mesmo vendo uma obra de artes plásticas, esse movimento é, não necessariamente, mas em geral, em conjunto. Agora, a leitura, não. A leitura é sempre uma fruição individual e, nessa fruição individual, você lê se colocando na pele do outro. E, quando você se coloca na pele do outro, você percebe uma coisa muito importante: a importância que o outro tem pra você. A gente só existe porque o outro diz que você existe. Você sozinho não é nada. É o outro que te reconhece e, portanto, você só existe em função do outro.

Eu não tenho dúvida nenhuma, Bruno, que, se nós lêssemos mais, nós mataríamos menos.”

[Pedacinho do TCC que eu achei que valia a pena compartilhar com vocês. Luiz Ruffato dando uma aula sobre a importância da literatura. <3]

Caminhos

É muito engraçado isso da vida te levar pros caminhos os quais você menos espera. Hoje, sentada no sofá  de couro escuro da sala do Henrique Stroeter, morrendo de calor e completamente absorta nas coisas que ele estava falando pra gente, me peguei pensando nisso.

Como todos os nossos outros entrevistados, ele respondeu à pergunta “Você imaginava que o Castelo faria o sucesso que fez?” dizendo que não, que não tinha a menor ideia. E isso é muito louco. Pensar que, no fundo, a gente não tem o menor controle. Que, como disse ele hoje, “um monte de grandes ideias vão para o lixo. As grandes ideias que fazem sucesso, isso é pura sorte, puro acaso.”

A vida nos leva para os caminhos mais engraçados. As coisas mais planejadas podem dar errado, as ideias mais geniais podem ir para o lixo se o resto dos fatores não estiver certo. E de repente eu, que sempre preferi tanto mais a palavra escrita às imagens, passei minha tarde de domingo ali, por vontade própria, na casa de um ator ouvindo ele falar sobre uma coisa que aconteceu há 20 anos. Fazendo acontecer um documentário que eu não tenho a menor ideia se vai dar certo ou, se como tantas outras ideias que parecem boas, vai acabar esquecido no computador de alguém.

De repente, numa sexta à noite, eu estava trocando mensagens com o cara que fez alguns dos personagens de televisão que mais marcaram minha infância – e que é uma pessoa incrível. De repente, eu estava na casa da Caipora, ou na casa do Dr. Vitor, ou correndo meia São Paulo pra tentar fazer acontecer esses encontros que têm tomado tanto do meu tempo (e o de tantas outras pessoas).

E, ao fim de cada uma dessas coisas, eu estava feliz.

laetitia

Gabriel Pedrosa, estudante de Arquitetura e Urbanismo da FAU
texto integrante da 17ª Mostra Nascente

(…)

eu me rendo, querida,

entre a necessidade

suas imagens

latendo sob outras paisagens

e o tédio e o tédio e coisas que acaso

brilham

nos desvãos a espera de mais dias

mesmos

na contraluz olhares trocados

a esmo e explode como em fruta açúcares e álacres prenúncios de morte em meio ao trânsito

o cheiro do sexo dessa que sem mais tomou pra si o centro de todos os meus

volteios

(…)

A mudança dentro de mim

“O importante é haver uma busca pela capacitação pessoal. A mulher tem
que saber que ela também é capaz – os direitos são conseqüência disso.”
Ana Maria Fernandes Yamamoto

Quando menina pequena, Ana Maria adorava andar a cavalo. Na fazenda em que morava com os pais e irmãos, propriedade dos avós maternos, essa era uma de suas atividades preferidas. Só havia um problema: a saia. Não era lá muito confortável passar as pernas por cima do animal quando se estava usando aquele tipo de vestimenta, e a mãe decidiu que seria melhor deixá-la usar uma calça emprestada dos meninos. Por cima desta, a saia novamente. Meninas não podiam usar calça comprida.

Anos mais tarde, morando agora com a família em Poços de Caldas, a garota começou a questionar o porquê de tantas proibições. Não eram só as calças – era trabalhar, morar fora, estudar, andar sozinha, ter escolhas. O Colégio Dominicano no qual estudava moldou nela ideais de igualdade que não a permitiam aceitar a sociedade tal qual lhe era apresentada. Ser mulher definia-se por nãos, e, nos movimentos estudantis político-sociais, a jovem passou a procurar uma maneira de poder dizer sim.

Seus ideais igualitários e seus desejos de poder ter – ou melhor, agir sobre a sua – vontade própria fizeram com que ela fosse vista com maus olhos pela própria família. Tios, irmãos, os próprios pais, achavam suas idéias ousadas demais para uma boa moça. Os conflitos não eram extremos, mas Ana sabia que a única maneira de alcançar seus próprios sonhos era saindo de casa. Ali, ela não tinha voz. Sufocada pelo tradicionalismo de sua família patriarcal, foi embora.

Não foi fácil. Campinas era uma cidade maior, e ela conseguiu um emprego, mas o salário era pequeno e o preço de um teto, alto. Comida, regalia. Lutou, fez amizades, foi pingando seu próprio suor pelo caminho. Conseguiu, afinal, um emprego que a sustentava. Começou a faculdade – serviços sociais.

E então o pai faliu. O Brasil inteiro falia, mas ela se mantinha sozinha. E, de repente, era ela quem mandava dinheiro pra casa, alimentava os irmãos pequenos e arranjava emprego para os crescidos. Era ela quem tornava possível o pão de cada dia – e não porque estivesse com a barriga encostada no fogão, como muitos acreditavam que deveria ser seu destino. Ela simplesmente se tornara dona de seu próprio destino.

Ela não bebia descontroladamente, não era “devassa” nem queimava sutiãs. Mas, agora, Ana podia dar ordens. E as calças, essas nunca mais foram cobertas.

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  • RT @adiosrosita: cês fala q vegetariano é chato mas e essa galera q toda vez q vê um veg comendo fala PuTs Eu Ñ ConSeGuiRiA e começa a list… 17 hours ago
  • RT @whoismaryboo: All apps are dating apps if you're online enough 1 day ago

3.

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