Todo texto começa de uma questão mal resolvida

Todo mundo vem com alguma bagagem. Todo mundo. Se tem uma coisa que aprendi nos últimos tempos é que isso não tem a ver com ser mulher, homem, hétero, gay, bi: todo mundo tem um passado e, na maior parte das vezes, lidamos com ele de uma maneira bem pior do que a que gostaríamos.

Ontem você me disse que eu sou uma das pessoas mais good vibes que você conhece e que quando eu fico mal o mundo sai um pouquinho dos eixos, e eu ri. Foi uma das coisas mais legais que já me disseram. E aí eu quis chorar.

“Todo romance começa com uma questão mal resolvida,” foi a frase do Juan Pablo Villalobos que mais me marcou naquela tarde de setembro. Eu ampliaria, Juan Pablo, se você me permitisse: todo texto assim nasce. Não há narrativa se não houver conflito. E por isso é tão difícil escrever quando estamos bem. (Embora a felicidade possa doer também, eu sei.) A gente escreve quando sangra. Quando dói tanto que vamos enlouquecer se aquilo não sair de nós.

Talvez há algum tempo eu tivesse concordado com você. Eu era mais alegre do que sou hoje, embora eu também já tenha sido muito mais triste. O que dói, agora, é não me reconhecer mais nessa imagem que criaram de mim. Eu tenho uma bagagem que não imaginava que teria, e ela pesa muito mais do que eu achava que pesaria. E é difícil pedir que alguém carregue esse peso comigo. Ele é meu. Eu sou minha. Eu me recuso a deixar mais alguém ficar com um pedaço meu, porque uma hora eu não vou ter mais nada que me pertença. Vocês podem ter tudo, mas só aquilo que eu permita que vocês tenham.

No meio desse jogo todo, talvez agora eu tenha criado, sem perceber direito, a garota good vibes. Aquela que está sempre ali pra te ouvir, que não tem problemas dos quais reclamar, que sempre ri, sorri, escuta e te abraça quando você precisa. Você não sabe como ela consegue estar sempre feliz, mas o mundo parece um pouquinho melhor por ela conseguir, já que você não consegue.

Mas ninguém é tão feliz assim – e fingir o tempo inteiro não torna aquilo real. É cansativo.

Eu tenho bagagem. Todo mundo tem.

Se você soubesse que eu escrevo, talvez você não tivesse se deixado enganar.

Afinal, a garota good vibes não escreveria. Ela não sangra. Eu, sim.

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Elogio fúnebre

Ninguém avisa a gente da importância dos rituais.

A gente vê, é claro, a vida inteira: há rituais para tudo. Para o nascimento, para a entrada na vida adulta, para a união amorosa – para cada etapa da vida, há um rito de passagem.

Ninguém avisa a gente que os rituais existem por um motivo, e que sem eles é tudo muito mais difícil.

Há um trecho em A Terra Inteira e o Céu Infinito, romance de Ruth Ozeki, em que uma das protagonistas descreve em detalhes todos os passos do funeral de uma monja budista. Como ela tem que escrever um último poema antes de morrer, como ela se deita, como é envolta em um túnica branca sem um único nó para não ficar amarrada a essa vida, como tudo tem que ser feito de trás pra frente, como é o banho, como são as rezas, como é a cremação, que objetos se escolhem para enviar ao outro mundo, como se guardam os ossos. A outra protagonista, ao ler isso, se arrepende de não ter feito um funeral para a mãe.

Eu me arrependo de não ter feito um funeral para nós.

Talvez ritualizar o fim tivesse facilitado as coisas. Talvez tenha faltado um pouco de solenidade, de tradição e de cerimônia para ajudar a alma a entender que, de fato, acabou. Que morreu o amor e que os mortos não voltam, nunca. Eu queria ter feito um elogio fúnebre a tudo de bom que foi, e cremado e jogado no mar tudo que passou, quem sabe assim queimando também dentro a mágoa por todas as feridas que a gente mesmo criou.

Talvez, se eu tivesse escrito um último poema, eu nunca mais quisesse escrever sobre nós. Talvez, se eu tivesse chorado por alguns dias, eu não tivesse que fazer tanto esforço para controlar crises de choro no trabalho. Talvez, se eu tivesse tomado um banho ao contrário, não parecesse tudo de cabeça pra baixo. Talvez, se eu tivesse envolto meu corpo numa mortalha branca, não estivesse presa ainda a algumas lembranças. Talvez, se eu tivesse gritado, batido em algo, quebrado vasos, surtado de raiva, eu não quisesse te ferir quando lembro das palavras que você jogou contra mim. Talvez, se eu tivesse juntado os presentes, roupas, fotos e cremado toda memória física daqueles trinta e seis meses, não fosse tão difícil aceitar que agora você não faz mais parte da minha vida nem eu da sua e tudo bem. Talvez, depois disso tudo, fosse mais fácil ver você mentir pra mim.

Dear Patrick

Você não sabe quem eu sou (eu também não sabia quem você era há alguns dias e agora comprei seu livro, olha como as coisas são), mas eu queria te agradecer.

Eu achava que a gente tinha que escrever pros outros. Escrever coisas importantes, que durassem, palavras bem pensadas e grandes histórias. As coisas pessoais, essas são pra gente, pra ficarem guardadas em cadernos e rascunhos de textos que nunca vão ser publicados.

E ai você me diz que as únicas coisas que escreveu que fizeram sucesso são as que escreveu pra si mesmo, não pra outras pessoas, e que pra escrever é preciso achar esse ponto em que simplesmente não importa o que os outros pensam, só o que está dentro, só o que a gente sente e isso é tão, tão difícil.

Eu sempre achei que escrever fosse um trabalho solitário, uma terapia dolorosa que pertence a mim e a ninguém mais. E por isso mesmo nunca achei possível viver disso, ter um livro, ter um público, aliás. Porque não são mais os anos 40, e é como a Ilana Fox estava falando ontem, agora o autor tem que ser artista, pessoa pública, mas e se ele não for isso? E se ele não souber conquistar os leitores a não ser com seus textos, se ele não quiser aplausos e performances, e se ele for recluso, não basta mais mandar seus manuscritos para um editor. Então eu sempre escrevi assim, e nunca gostei do que tentava escrever de outro jeito, e abandonei um pouco os sonhos porque não nasci pra fatos, relatos e objetividade. Pra mim só importa o que é escrito por dentro, aquelas palavras que gritam tão alto e me deixam louca e eu tenho que botar pra fora. Mesmo assim eu tentei, tentei ser útil e relatar viagens e ver palestras sobre economia e projetos, e algumas coisas me matavam de tédio e outras eram completamente interessantes pra mim, não pra escrever notícias, mas ainda assim eu tentei. “I’m gonna dream little, tiny dreams.” Mas sabe o quê? A biblioteca de Birmingham não grita pra mim, e eu não aguentei mais e saí correndo e obrigada. Você grita, suas palavras gritam, e obrigada por me fazer entender isso.

Eu não conseguia entender por que as pessoas gostavam dos meus textos mais íntimos e dolorosos, e ninguém ligava pra aqueles que eu escrevia com algum sentido de utilidade. É que se não é interessante pra mim, por que vai ser pra outras pessoas? E ouvir essas palavras vindas de você me fez perceber que talvez eu não tenha nascido pra ser prática e clara, mas que talvez pra alguém seja útil, ou bom, ou reconfortante, ou o que seja ler essas coisas tão difíceis de expressar que eu luto pra por em palavras achando que ninguém vai ler.

Obrigada por retirar de mim o peso da utilidade, porque pra escrever só posso suportar o peso de mim mesma e buscar a leveza pra continuar.

1.

  • Toda vez que posto no stories do Instagram eu sinto profundamente a falta do meu falecido Snapchat 3 hours ago
  • RT @annaliviaplu: o cara vem me assaltar aqui na hamerica eh capaz de eu sair da interaçao com o celular dele 9 hours ago

3.

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