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Eu não gosto quando você fala que me ama. Não quando importa. Falar eu te amo demais é coisa minha, e eu sei que não é sua. Quando você fala muito, estranho. É pra você falar pouco, porque você é assim e esse foi um dos motivos desde o começo pra eu te amar.

De algumas coisas eu lembro muito bem, principalmente do começo. Aquelas que, mesmo se acabar um dia, eu vou guardar com carinho no cantinho das memórias especiais demais pra manchar de dor. A música no fundo e eu tentando te distrair do filme. A gente deitado e eu te olhando e pedindo em silêncio pra dar certo. Você aparecendo na minha porta com uma rosa. A gente no escuro, com sono, e de repente eu desabo e você me abraça e dali vem o primeiro eu te amo, e você me pede desculpas por todas as vezes que vai me machucar (foram algumas, mas eu te machuquei também e, ei, eu te amo). E dali vem a nossa palavra.

Outras eu lembro assim, quando paro pra lembrar – elas me fazem sorrir. A nossa primeira viagem de carro, lembra? Não a primeira, mas a primeira só os dois, e aquela sensação bizarra de frio na barriga por ter que passar tantas horas com você sem saber o que dizer. Uma festa e uma garrafa de bebida. Uma festa e um saquinho de pipoca. Tudo isso foi antes, e de repente existia um “antes”. De repente existia um momento em que você não era meu, e um momento em que você passou a ser. Que estranho.

E no depois tem tanta coisa também… Rodar a cidade atrás de uma farmácia aberta, jogar videogame até cair de sono, ler livro em voz alta, fingir ser irmãos pra tentar entrar na faculdade, o fatídico dia seguinte e encontrar sua empregada de manhã, te encontrar na rua sem querer indo pro trabalho, o melhor jantar surpresa do mundo (eu ainda sonho com aquela comida), roubar suas roupas, montar uma estante, fazer parte de um filme, te ter aqui vivendo essa minha vida nova. Esqueço e lembro de um monte e queria ter um jeito de guardar tudo isso num lugar mais seguro que aqui, mas o único jeito que eu conheço é escrever, então eu escrevo.

Você ainda me faz sorrir quando eu estou cansada.

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É muito amor

Sofrer calada quando se sente esquecida, porque não é a gente que está sempre ali do lado. [É muito amor]

Ouvir as lamentações de um sofrimento extendido pela própria pessoa, porque ela ainda não tem força suficiente. [É muito amor]

Aguentar cobranças bobas que cansam, porque é maneira de mostrar carinho. [É muito amor]

Suportar milhares de quilômetros de distância e a sensação de afastamento, porque não se pode ter o abraço quando se precisa. [É muito amor]

Mas aí somos a primeira a ouvir aquela notícia importante. E nossas palavras parecem ter algum efeito. E somos o ombro que consegue acalmar o choro. E podemos falar sem medo, como sempre foi.

E todo aquele amor é muito, muito, cada vez mais.

Reflexões acerca de um pé torcido

Desci as noves quadras, cheguei em casa e chorei. Como é injusto que a pessoa que passa pela nossa cabeça em primeiro lugar nessas horas, e pra qual temos vontade de ligar imediatamente, ligue pra outra quando torce o pé.

Toda paz que eu preciso

Meu horóscopo esses dias tem me dito pra ficar com a família, meio reclusa, refletir sobre meus sentimentos, trabalhar arduamente, desenvolver meu lado artístico. Estou seguindo à risca as instruções – vim pra terrinha natal ficar na casa da mãe, estou criando painés e capas de caderno com colagens, fazendo colares, planejando a decoração do meu quarto e… lendo.

Gente, como eu amo ter tempo pra ler. Aliás, paciência pra ler. Engraçado – quando eu era menor, eu era meio antissocial até, porque tava sempre com um livro pra lá e pra cá e não tinha nada que eu gostasse mais de fazer do que isso. Não que eu não goste mais de ler – eu amo. Mas às vezes dá uma preguiça de parar tudo e ficar simplesmente absorta na leitura… O problema é que eu morro pro mundo quando tô lendo, e aí não sei. Andou faltando vontade, desde o ano passado, pra morrer assim com freqüência. Provavelmente porque ano passado foi o fatídico anodovestibular, então eu queria aproveitar meu tempo livre pra viver em sociedade, não morrer (e renascer) na solidão dos meus livros. E agora com toda essa correria e mudança e faculdade, me peguei no furacão de novos amigos, saídas, festas.

É por isso que, apesar de saber que isso provavelmente vai foder um pouco com as minhas férias de dezembro, não tô reclamando muito desse adiamento do início das aulas por causa da gripe suína. Me dá mais tempo pra curtir leituras boas, em casa ou no parque. Bom resto de férias pra quem ainda as têm. :)

Recomendações:

“Adultérios”, Woody Allen – 3 histórias no estilo de peça de teatro: uma mini introdução e o resto é só diálogo, todas em Nova York e com típicos personagens Woody Allenianos. Engraçadas e muito, muito reais.

“A mulher do viajante no tempo”, Audrey Niffenegger – Clare Abshire conhece Henry quando tem 6 anos e ele, 36. Quando Henry DeTamble conhece Clare, ele tem 28 e ela, 20. Henry é um viajante no tempo, e suas idas e vindas fazem com que ele conheça Clare em diferentes épocas. Elas também fazem com que ele tenha que abandoná-la com muito mais freqüência do que gostaria – sem saber se vai voltar ou não. Um romance sobre espera, descobrimento, ausência, relacionamentos, amizade… pessoas. Um dos melhores livros que já li, e reafirmo isso toda vez que releio. Já deve ser só a 20392839 vez. :>

Chega de saudades

Entre um chá mate, Mombojó e o relógio tique-taqueando a madrugada, andei pensando em atrasos e espera. Ironicamente, sobre esse assunto quero escrever há tempos – até agora, enrolei. Atrasei. E estou esperando até agora as idéias se organizarem na minha cabeça.

Minha mãe tem a péssima mania de sempre se atrasar para um compromisso – e não avisar. Sempre penso, “Por que não liga pra dizer que não vai chegar na hora marcada?” e acabo irritada. Foi numa dessas que comecei a refletir sobre o assunto, e percebi que não é só esse tipo de atraso que me irrita – são todos.

Há quem goste de atrasos? Eles significam que há algo de errado – a hora certa passou, e quase sempre isso não é um bom sinal. Ou bom resultado.

É alguém que não apareceu nem ligou, é a entrega que não veio, é a menstruação que não desceu, é o momento que passou. É um descaso implícito, é o mau funcionamento, é o imprevisto, é o não dito. O não feito.

Pior do que o arrependimento pelo feito é o arrependimento pelo não feito. É quando o atraso se torna pior ainda: aquele momento não volta mais. Ou talvez volte, mas jamais será o mesmo. Você nunca vai saber o que poderia ter acontecido. Se você tivesse se jogado de cara, tivesse dado um beijo, tivesse dito o que estava preso, tivesse dito adeus à dignidade, tivesse se arriscado.

Alguns meses. Um dia. Um minuto de atraso. Medo. Preguiça. Insegurança.

E sabe toda aquela espera? Foi em vão. Só te resta esperar mais um pouco. Ou muito.

Ela disse que não queria que eu fosse ao aeroporto. Eu disse meu amor, fica quieta. Eu vou. Eu fui. Com um trânsito do inferno, com a irritação aflorando, com comida na bolsa, livro, texto, com a previsão de três metrôs e dois ônibus na volta. Eu fui. Por ela. Porque era um atraso que eu não podia me permitir.

Eu fui, e me dei inteira ali naquela uma hora e meia. Falei, calei, ri, chorei. Sozinha e com ela e com os outros, mas principalmente com ela. Às vezes a gente não se pode permitir esperar.

Atraso pode ser raiva, irritação, descaso, desimportância, de um lado ou de todos. Mas o pior, o pior é o atraso saudade – do que foi ou do que podia ter sido. E desse, sinceramente, eu já cansei.

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  • RT @adiosrosita: cês fala q vegetariano é chato mas e essa galera q toda vez q vê um veg comendo fala PuTs Eu Ñ ConSeGuiRiA e começa a list… 17 hours ago
  • RT @whoismaryboo: All apps are dating apps if you're online enough 1 day ago

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