A insustentável leveza da felicidade

Às vezes a gente tem a impressão de que os nossos problemas são só nossos. Que há algo errado com a gente: por que eu me questiono tanto? Por que eu não consigo me contentar em ir pro trabalho, voltar pra casa e a vida ser isso? Por que a vida é isso? Que só nós temos essas dúvidas, e que elas são idiotas. E que tristeza é ruim.

Escrever sobre coisas que estão bem, pra mim, não faz muito sentido. Não me estimula. Eu gosto de escrever sobre problemas, gosto de algo que faça eu me questionar ou que me intrigue, e que eu possa consultar em tempos futuros e ver que sim, eu já passei por uma fase tão ou mais complicada quanto a que estou agora e as coisas vão ficar bem. Eu gosto daquela tristeza leve, daquele ensimesmar, aquela introversão que nos faz ficar calados um tempo, olhando pro nada, que pesa. Pra mim, a leveza é boa, mas o peso pode ser também.

O que me deu vontade de escrever foi o que ficamos conversando hoje no bar.

Meus dias não são glamurosos. Eu acordo, vou trabalhar, volto pra casa, vejo as amigas de vez em quando, fico com o namorado em casa, vou pra faculdade. Eu me sinto feia, vejo minhas olheiras, me sinto burra, insegura e cansada com muito mais frequência do que eu gostaria. E acho que tem algo muito errado comigo, porque eu entro no Facebook e a vida das pessoas parece perfeita.

Ninguém conta pra gente que é normal. Que faz parte de crescer. Que todo relacionamento tem problemas; que as pessoas brigam; que sexo pode ser incrível, mas às vezes vai ser só gostoso; que você às vezes vai querer morrer de tanto chorar, que seu rosto vai ficar inchado e horroroso e mesmo assim tudo bem. Ninguém sai por aí contando que acordou se sentindo feia, que está inchada de menstruação e com a pele seca de tomar sol. Ninguém diz “hoje esqueci meu aniversário de namoro, putz, que mancada”, mas sempre “olha como somos um casal incrível, olha o presente que eu ganhei, olhem, olhem!”. Ninguém gosta de sair por aí assumindo suas inseguranças; dizendo que às vezes, se sente invisível pro olhar do outro; que tentou seduzir alguém e falhou; que tentou impressionar outra pessoa e fez papel de idiota. As fotos são sempre de dias de sol. De comidas incríveis. De coisas novas. De sorrisos enormes. De presentes, jantares, flores. Nunca é a briga, o silêncio constrangedor, o sapato que machucou o pé, a roupa que não serviu, a unha que não deu tempo de fazer, o livro que não foi tão bom assim.

Ninguém posta “meu texto foi criticado hoje no trabalho e eu fiquei me perguntando se sou uma boa profissional”. Mesmo com os amigos, é difícil admitir os fracassos; os medos; as neuras. Assumir que você tem medo de ser diferente. De que as pessoas não te entendam. Contar algo tão íntimo, algo que você acredita ser só seu, algo que você acredita ser talvez um problema – como eu posso ser assim? Você não conta. Guarda. Esconde. E se sente uma idiota porque a vida de todo mundo é tão alegre, maravilhosa, instigante. E a sua é cheia de dúvidas e medos e faltam tantas certezas. E não é que as coisas não estejam bem, ou que você não seja feliz. Mas é que todos parecem tão estupidamente felizes que você não consegue se identificar, às vezes. E parece que falta um pouco de ar, e com quem falar sobre isso, ainda que você ame muito as pessoas ao seu redor.

Até que você fala. E você se abre, e acaba descobrindo que as pessoas tem uma imagem sua que não é real. Assim como não é real a imagem que você tem dos outros, que os outros projetam pros outros. E que seus medos são normais, e que suas brigas são comuns, e que suas inseguranças são bobagens que todo mundo sente – ou pelo menos todo mundo com quem você se importa.

As pessoas não percebem como estão se tornando intocáveis e inumanas. Se você é sempre leve, se você é sempre feliz, e só isso, então nada é importante o suficiente. Nada te toca. Nada te move. Sofrer nos traz pro chão.

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De repente, ao meio dia

O burburinho do restaurante é quebrado pelo estatelar do vidro. O menino para, aflito. As conversas são retomadas, mas ele fica. Encarando a bagunça de arroz-feijão-frango-salada. Procura a mãe, apreensivo. Ela continua se servindo, muda, dirigindo-lhe apenas um meio olhar de desprezo. Ele enrubesce. Olha para os lados. Para baixo, para os cantos. Não há onde esconder-se; muito menos onde esconder a sujeira que fez. Tenta. Numa tentativa vã, começa a empurrar com os pés os cacos e a comida para baixo do freezer dos sorvetes. Ô, menino! Deixa que a moça já vai ai limpar, grita a dona do restaurante.

A mãe entra na fila pra pesar a comida, e ele fica ali. Volta, pega um novo prato. Recomeça. A mãe, em voz alta, alerta-o: Tá segurando direito agora? Não vai deixar cair, hein. Ele segue, segurando a bandeja com força, tentando camuflar-se em meio ao restaurante cheio. Finalmente, sentam-se. Ele, vermelho por baixo da pele escura, olhos baixos, trêmulos. Engole em seco, toma um gole do suco, tenta comer. Ela, impassível.

– Você não vai me bater quando chegar em casa, vai?

A boca treme, a mão tenta se obrigar a levar mais uma garfada à boca, só mais uma, de pouco em pouco, ninguém está olhando, vamos, vai ficar tudo bem.

– Vê se não vai chorar, hein.

Sua garganta não suporta mais engolir o peso dos seus 11 anos. Ele chora.

Linha

Qual a gente escolhe: o dever de apoiar o amigo ou o direito de ficar magoada? É como se de repente tudo se resumisse à cobrança, e quando a gente cobra é porque já não tem.

Atestado de óbito

As costas doem, as pernas doem, os braços doem, respirar dói, os olhos pesam, o nariz não funciona, a mente nublada, a vontade de deitar enrolada num cobertor e dormir, dormir, dormir.

Tem gente que chama isso de gripe, mas tenho certeza de que é algo muito mais grave. Pra todos os efeitos, morri. O telefone desligado, a luz apagada, nada de barulho, por favor. Quando ressuscitar, aviso.

1.

  • Toda vez que posto no stories do Instagram eu sinto profundamente a falta do meu falecido Snapchat 4 hours ago
  • RT @annaliviaplu: o cara vem me assaltar aqui na hamerica eh capaz de eu sair da interaçao com o celular dele 9 hours ago

3.

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